A síndrome do “Chico-Espertismo”

A síndrome do “Chico-Espertismo”

Nem só de Covid-19 vive o país e vamos sabendo dos acontecimentos ora pelas vias formais ou pelas mensagens, reencaminhadas inúmeras vezes, que nos chegam pelas redes sociais.

A sociedade parou para falar sobre as separações de casais mediáticos como Ary e FF ou YoBass e foram feitos memes e vídeos tentando explicar causas possíveis.

É bastante interessante verificar como nos engajamos e vivemos estes assuntos considerados frívolos especialmente se envolverem traições, entre a incredulidade de uns e o “eu sabia” de outros vamos endeusando os famosos como se eles não vivessem as mesmas alegrias e desventuras que os comuns mortais, alimentamos uma falsa ideia de que os problemas não os atingem porque são “famosos” ledo engano…

Gostaria de ter visto a mesma indignação e comoção para a descoberta de plágio do laureado do prémio literário Jardim do Livro Infantil que tinha recebido 500 mil kwanzas por um “copy paste” de uma obra de uma autora brasileira.

E sabe o leitor porque não se deu a mesma importância ao plágio e sim a separações de casais famosos? Porque infelizmente vivemos já a algum tempo a síndrome do “Chico-Espertismo”, uma patologia que valida a prática de acções sem ética, e isto só se explica porque todos sabemos onde ficam os “canais” para a aquisição de certificados falsos, porque aceitamos que nos subam as notas “institucionalmente” à revelia da vontade do professor, porque pagamos para que outros elaborem trabalhos de fim do curso que atestam conhecimentos que não temos e que afirmam que estamos aptos para exercer determinadas funções e quando nos pedem para fazer estudos comparativos não sabemos do que se trata.

A síndrome do “Chico-Espertismo” manifesta-se em todas as áreas da nossa sociedade e envolta numa aura de arrogância e prepotência vem mostrar que o que interessa é estar na mó de cima e que os fins justificam os meios.

Quem se preocupa nos dias que correm em mostrar que a dedicação e a ética associada ao trabalho e rigor geram frutos? Se os exemplos que temos são de peculato e de menosprezo às regras instituídas…

Que tipo de valores ensinamos às nossas crianças, quando o que interessa é mostrar que se tem um bom carro, uma boa casa, roupas e dinheiro para viajar e não se aplaude o saber-se o nome das capitais dos países , o cumprimentar ou como se constrói um origami?

Que país queremos ter se antes de provar de que modo o conhecimento que possuo pode ser aplicado para a criação de um bem comum, tenho que dizer qual o meu nome de família…

Há um longo caminho para a melhoria do nosso sistema de ensino, mas a educação não se faz só na escola e devemos todos repudiar actos pouco éticos e exigir um escrutínio e sanção para os que agem de modo incorrecto não porque queremos granjear adeptos mas porque é o que deve ser feito.

Kâmia Madeira