Hoje vou de táxi!

Há muito que o célebre Maquiavel prognosticara que, na vida, existiam duas formas de combate. Há primeira, com base na lei, era própria dos homens, ao passo que a segunda, com base na força, seria então dos ‘bichos’. Ainda assim, a primeira precisava da segunda para se materializar. 

Esta reflexão vem a propósito do incidente dos últimos dias, no município de Cacuaco, em que um grupo de jovens afecto à Nova Aliança de Taxistas (ANATA) ter criado embaraços à circulação por causa de reivindicações até hoje não atendidas pela Administração local, agora chefiada pelo professor Auxílio Jacob. 

Desde que surgiu e fruto do adormecimento da quase moribunda Associação de Taxistas de Luanda (ATL), a ANATA vai se notabilizando como uma das mais representativas organizações destes profissionais em Luanda. É ela que reúne ao seu redor as conhecidas «staffs», uma espécie de núcleos que se disseminou como cogumelos em várias artérias da capital. 

O problema que esteve na base das reivindicações não é novo. As soluções é que tardam a chegar. Os que têm a missão de negociar para se chegar a um ‘consenso’ têm preferido empurrar o assunto com a barriga, esquecendo- se de que os actores são novos e exige-se também novas abordagens. 

Estamos longe dos tempos em que era a Associação de Taxistas de Luanda, de Manuel Faustino, que dominava os assuntos relacionados com este segmento. E mesmo que condenemos a barricada, a queima de pneus e outras acções que, infelizmente, até mereceram o aplauso de segmentos da oposição (o líder da juventude do PRS foi um deles), a ANATA vai-se mostrando mais integradora dos interesses da referida classe, que é maioritariamente por jovens. 

Afastados do mercado de emprego, na sequência da crise económico e social que assola o país e o mundo, tem sido no serviço de táxis que muitos têm encontrado poiso para o autosustento. E para um Governo que apregoa a iniciativa privada e o fomento da empregabilidade, o mais viável é definir caminhos que consigam congregar os vários interesses e não uma postura musculada como as que são atribuídas ao administrador do município de Cacuaco. 

E dada a sensibilidade do próprio município para o próprio partido no poder, qualquer investida deve merecer leituras profundas, sob pena de se comprometer ainda mais os resultados que não têm sido animadores nos últimos pleitos. 

Menosprezar a actividade dos taxistas e que o trabalho destes pode ser facilmente suprimido pelos autocarros que acabaram por entrar em circulação na capital é uma utopia. Por ironia, nestes tempos de coronavírus voltei a cruzar-me com Hannah Arendt, que no seu livro ‘Sobre a Violência’, chama a atenção para o seguinte: ‘o poder corresponde à capacidade humana não só de agir como de agir correctamente. O poder nunca é propriedade de um indivíduo; pertence a um grupo e só continua a existir enquanto o grupo mantém a sua união’. 

Nos últimos anos, incluindo mesmo no período em que o país era tido como um canteiro de obras e a reconstrução das estradas era uma tónica dominante, as paragens para os taxistas e até mesmo autocarros foram descurados em grande parte da cidade capital e noutras províncias, onde a circulação dos azuis e brancos, mototaxistas e até outros automóveis ganham influência a cada dia que passa. 

Há quatro anos, através da Comissão Administrativa, o Governo Provincial de Luanda aventava a hipótese de instalar só no casco urbano cerca de 400 paragens. Porém, noutras localidades periféricas, aí onde se encontra o grosso do 9 milhões de indivíduos, muitos dos quais têm de se deslocar ao centro da capital, pouco ou quase nada foi feito, apesar destes terem de honrar regularmente com as suas obrigações para com o Estado. 

Em 2017, outras promessas foram sendo feitas no sentido de se atender às reivindicações. Mas nada. Como disse em tempos o engenheiro civil José Paulo Nóbrega, ‘alguns projectos em Angola são feitos através do google por pessoas que nem conhecem a nossa realidade’. E eu acrescento: só assim se compreende que até mesmo em estradas novas, não se consegue comtemplar paragens para os taxistas sobretudo na periferia de Luanda. 

E quem fala de paragens de táxis, podemos também incluir os pontos para os contentores de lixo. Em muitas zonas, eles foram colocados no asfalto e ‘amparados por pneus’, como se isso diminuísse o impacto de alguma fatalidade. 

Mas, havendo, muitas das vezes, por parte da própria Polícia de Trânsito, a compreensão de que alguns dos constrangimentos provocados pelos taxistas não dependem deles, mas sim daqueles a quem pagam os impostos – mas não criam as condições -, o que não se vislumbra são novos momentos de tensão caso os administradores municipais, sobretudo na periferia, não tenham a sensatez de junto do Governo Provincial e das associações da classe buscarem soluções. 

Nesta fase de constantes tensões, todo o cuidado é pouco. Os rastilhos deixados pelos jovens nas escaramuças no Rocha Pinto, por causa da morte de Juliana Cafrique, da destruição das instalações do partido no poder, da polícia Nacional e dos Advogados em Caluquembe e outras esporádicas noutras partes do país, devem servir de mote para que se privilegie a discussão em temas que têm a ver com o colectivo. 

Citando George Wald, o que temos hoje diante de nós ‘é uma geração que de maneira nenhuma se sente segura de ter um bom futuro’. Porque segundo Stephen Spender, o romancista inglês que se notabilizou com escritos sobre a injustiça social e a luta de classes, o futuro é como uma bomba relógio enterrada, mas cujo tique-taque conta os segundos do presente’. E são os jovens que compõem esta nova geração, entre taxistas e outros, que diariamente ouvem o tiquetaque da bomba nas taxas de desemprego. 

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