Associação de Doentes Renais regista mortes por redução de horas de diálise

Associação de Doentes Renais regista mortes por redução de horas de diálise

A Organização Mundial da Saúde recomenda que cada doente renal deve fazer, no mínimo, 12 horas de diálise semanais, divididas em 4 horas em três dias da semana. De acordo com o presidente da ADIRA, Bernardo Mateia, com as dificuldades de stock que as empresas de gestão dos centros têm registado, reduziu-se para dois dias da semana e a um total de oito horas de diálise.

A situação já estava difícil de segurar no ano passado, quando tinham reduzido para três horas e meia, por dia, mas quando os doentes renais pensavam que no presente ano as coisas iriam melhorar, eis que surge mais uma redução do número de horas. Esta acção está a levar a que muitos pacientes cheguem ao hospital com dispneia (dificuldades respiratórias) e acabam perdendo a vida.

Bernardo disse que, embora estejam ainda a fazer o balanço do número de mortes causadas por esta redução drástica do horário de diálise, isso é um facto e, só na semana passada, no centro em que ele próprio também faz a diálise, no Hospital Américo Boavida, registaram casos do género. Há duas semanas que estão com a redução para 8 horas, das anteriores 12h de diálise.

“Essa redução é praticamente como se estivessem a nos entregar um lista com a sentença de morte para assinarmos. É o mesmo que dar um carro sem travão e dizer que devemos conduzi-lo”, exemplificou.

A Associação teve na semana passada uma reunião com o MINSA, em que tiveram o conhecimento das dificuldades no pagamento das empresas gestoras dos materiais usados para a hemodiálise, para além de ser-lhes informado que havia escassez no stock dessas mesmas empresas. Quanto as empresas, estas apenas dizem que o Estado tem dívidas avultadas.

“O Estado quando pagar, acreditamos que não será pela metade, mas a nós o tratamento está a ser dado pela metade. As empresas poderão recuperar, já nós, as vidas perdidas não teremos como recuperar”, lamentou.

Apelo aos órgãos superiores

Dada a gravidade da situação, a ADIRA quer levar a preocupação à Casa Civil do Presidente da República, para ver se este órgão intervém. Entretanto, neste momento ainda esperam ser recebidos pelos responsáveis dos centros de hemodiálise, principalmente em Luanda, dos Hospitais Josina Machel, Américo Boavida e Prenda.

Os relatos que recebem das outras províncias, como Huíla, Benguela e Huambo são de “partir o coração”. “Ainda não terminamos o balanço dos pacientes que perderam a vida após quadro avançado de dispneia, não temos ainda um número exacto, mas estamos a trabalhar e oportunamente informaremos”, sublinhou.

Para o doente com insuficiência renal, a dispneia acontece quando há o acúmulo de líquido nos pulmões, resultante da diminuição do tempo de diálise. Muitos estão a apresentar este quadro, nos últimos tempos, e a associação alerta para que se resolva com uma certa urgência este problema.

Para além da dispneia, Bernardo disse que esta situação está a levar a que os pacientes fiquem sub-dialisados, ou com diálise incompleta, e depois começam a apresentar alguns edemas no corpo.

Mudança de comportamento dos médicos afecta doentes

Por outro lado, Bernardo Mateia, presidente da Associação, que também é doente dialítico, lamentou o facto de muitos médicos que assistem estes pacientes terem mudado de comportamento desde que o país entrou em estado de emergência por causa da Covid-19.

Quando anteriormente a pressão psicológica do paciente tinha alguma atenção, face aos conselhos que os médicos pacientemente davam, bem como a assistência mais humanitária, agora, isso foi colocado de lado.

“A atitude dos médicos mudou de 100 para 25%. Os médicos já não interagem com os pacientes, chegam na sala, fazem o que têm de fazer e vão para as suas vidas. Assim, associou-se à lista de dificuldades do doente com insuficiência renal a assistência médica, quando antes era só a medicamentosa, bem como a terapia de tratamento”, sublinhou.

Quanto a assistência medicamentosa que reclama, fala do facto de ficarem de seis meses, e muitas vezes, a um ano sem as vitaminas necessárias para a terapia renal. Têm recebido com alguma regularidade os anti- hipertensivos, mas ficam em falta os cálcios e outras vitaminas que dão sustentabilidade ao organismo do doente renal.

Bernardo convidou OPAÍS a fazer uma visita de constatação aos centros de hemodiálise dos hospitais públicos e privados, pelo que aponta que os doentes têm fisionomia e peso diferentes, uma vez que os dos hospitais públicos têm carência de muitas vitaminas, diferente de alguém que faz diálise nas clínicas Multiperfil, Girassol ou Sagrada Esperança (erguidas e mantidas com dinheiros públicos).

“Como é possível um paciente renal não ter medicamentos seis meses ou um ano? Estamos a falar de uma terapia renal substitutiva e há essas dificuldades.

É necessário que se reponham as vitaminas perdidas durante as horas de diálise com estes fármacos sintéticos, mas isso tem sido muito difícil para os pacientes dos centros públicos de hemodiálise”, frisou.

Como se não bastasse, Bernardo falou também da dificuldade de transporte. Isto é, muitos dos pacientes dialíticos terminam a diálise tarde, as vezes às 21 horas, e a esta altura tem sido difícil conseguir um táxi para regressar à casa.

Sem muito o que fazer, acabam passando a noite no pátio do hospital, local em que os seguranças das unidades sanitárias reclamam da sua permanência. Entre insuficientes renais agudo e crónico, a Associação fala em mais de 1600 pacientes, em todo país.

“Processo está encaminhado ao Ministério das Finanças”

Sobre este assunto, a ministra da saúde, Sílvia Lutukuta, na conferência de imprensa feita ontem, na sede do ministério, para o balanço da Covid-19 no nosso país, esclareceu que a sua gestão encontrou uma dívida muito grande, de vários anos, e que tem estado a ser tratada no âmbito da dívida pública.

Ainda ontem [15 de Julho] tiveram uma reunião com os gestores de uma empresa de hemodiálise que está em Luanda e no Huambo, para a regularização da situação.

“Havia alguns documentos que tinham de ser completados, fez-se a análise do processo com os técnicos da IGAE, o processo está completo e vamos encaminhar ao Ministério das Finanças”, assegurou.

Mesmo antes de o Ministério da Saúde ter dado este passo, no âmbito da regularização da dívida pública, no primeiro semestre de 2019 todas as empresas de hemodiálise foram pagas e esta com a qual o MINSA se reuniu recentemente recebeu parte do pagamento, tendo faltado alguns documentos probatórios da dívida.

Agora que a situação está encaminhada, o processo está com o MINFIN, pelo que a ministra deixou claro que “ninguém está aqui a fazer um finca-pé”. As empresas queixaram-se de dificuldades com os fornecedores dos materiais necessários para a diálise, e a ministra disse que estão a dialogar com estes fornecedores para garantir este fornecimento sem falhas.