Black Lives Matter: Porquê devemos desalojar estátuas e renomear ruas?

Um objecto está morto quando o olhar vivo que se pousava sobre ele desaparece. Em Angola, isso acontecerá quando a consciência africana e o espírito do movimento Black Lives Matter forem totalmente despertados para fazer desaparecer certos olhares.

Será o momento em que entenderemos, por exemplo, os escritos racistas e anti-semitas de Eça de Queirós. Lembraremos, nesse momento, que Ramalho Ortigão foi um monarquista convencido e que podia provocar pugilatos para o defender.

Será o momento em que discutiremos livremente o racismo arrogante e insultuoso de Fernando Pessoa que faria vomitar qualquer pessoa sensata.

Isso só acontecerá quando o povo tomar consciência da sua alienação, da sua asfixia sustentada por uma elite cultural lusotropicalista que perpetua símbolos colonialistas. Será o momento da libertação, o momento em que esse povo abraçará o seu destino e o enfrentará de forma resoluta.

Será um momento salutar em que cada pessoa libertada dessa asfixia terá náusea ao passar por uma rua de Luanda ou de qualquer outra do país que tem o nome de um desses personagens impostos pela cultura de um grupo minoritário assimilacionista.

É neste momento que procuraremos saber o motivo da ausência de monumentos e ruas com nomes como Mandume Ya Ndemufayo e perguntar-nos- emos porque é que a profetisa, a heroína, Kimpa-a-Vita é quase desconhecida para todos.

Será o momento em que exigiremos que as nossas ruas sejam nomeadas em homenagem a Nsaku Ne Vunda, o Negrita. E a todos os nossos outros heróis da luta pela Independência de Angola.

Será, portanto, o momento do inventário, porque também deve ser elaborado um inventário do inaceitável em Angola, este país jovem que tem um grande futuro ao seu alcance.

Afinal, o que é uma estátua, o nome de uma rua, senão um tributo a quem se referem? É um acto de memória gloriosa. Que se considere nos países ocidentais afixar uma placa explicativa que trata o lado sombrio das figuras hoje criticadas, é um caminho.

Acima de tudo, é a melhor maneira de evitar desalojar todas as estátuas e renomear muitas ruas, porque muito poucas prestam homenagem a personagens saudáveis. Se não são racistas, são misóginos, ou ainda outra coisa repugnante.

Mas isso não faria sentido nos países africanos que ainda têm ruas que glorificam a memória do opressor.

Para quê conservar nas nossas ruas os nomes das figuras que representam a história dos opressores? Recusar essa conversa é perpetuar o problema e a submissão.

Se hoje os monumentos que homenageiam figuras do tráfico de escravos ou os seus defensores são vistos nos países ocidentais como símbolos e obstáculos inadmissíveis para a convivência societal, é porque está nascer uma consciência nessas sociedades em que o movimento do anti-racismo sem precedentes, Black Lives Matter, tomou forma. Há um despertar, mundialmente.

Finalmente entendeu-se que, durante séculos, o Branco projectou os seus próprios demônios no Negro para se purificar. É, portanto, um movimento que visa colocar- se no lugar do “outro”. É um movimento que nos convida a olhar para o futuro e iniciar o processo necessário de cura das feridas do passado.

Desalojar certas estátuas e renomear algumas ruas deve, portanto, fazer parte desse desejo de olhar para o futuro, de reparar as nossas sociedades dos danos do racismo e do colonialismo.

Os tempos mudaram e as estátuas, cujas retiradas são exigidas pelos manifestantes, também representam uma história feia. Os que exigem essas retiradas são cidadãos de países democráticos, de todas as origens, porque se sentem insultados por esses monumentos, dada a sua história e em nome da sua exigência de igualdade.

Ao proclamar o carácter inaceitável do destino de George Floyd, os manifestantes brancos mostram a sua vontade de entender os sofrimentos que evitam graças a sua cor de pele. Daí o questionamento dos monumentos que continuam a dar vida a figuras do passado colonial ou esclavagista.

E todas as personalidades visadas são figuras de uma história gloriosa que se tornou vergonhosa. Aliás, não será a primeira vez que se desalojará estátuas nem a primeira que se renomearão ruas.

Fez-se isso várias vezes por toda a parte e até mesmo na história mais recente. Por exemplo, a França desalojou as estátuas e renomeou as ruas que homenageavam Philippe Pétain, um herói da guerra de 1914 -1918, mas que também foi um colaborador de Hitler e, portanto, um traidor da Nação, que foi, consequentemente, atingido pelo crime de “Indignidade nacional” e deposto do seu título de Marechal em 1945.

Na Itália, homenagens a Mussolini são feitas apenas em círculos da extrema-direita, como Hitler na Alemanha, Franco na Espanha desde uma lei de 2007 sobre a “memória histórica” que visa remover do espaço público as homenagens herdadas da ditadura franquista e Ceauşescu, na Romênia.

Mas a surpresa vem de Portugal, o dito país-irmão de Angola: ainda existem 15 ruas com o nome de Salazar no país e parece até haver ruas com o nome de Francisco Franco, o fascista espanhol.

E estudos mostram que a diáspora portuguesa está entre as comunidades de origem estrangeira que mais votam na extrema-direita nos países onde vivem e têm a nacionalidade, como é o caso na França.

A história é um bumerangue, e será sempre interrogada, perpetuamente. Todas as revoluções desalojaram estátuas de reis, imperadores e ditadores.

O desalojamento de estátuas ou a renomeação de ruas simplesmente indica a mudança política e dos tempos. Aí estamos nós: estamos em revolução, uma revolução duradoura e profunda.

Essa revolução é marcada por um movimento mundial intrépido que visa pôr um fim ao sofrimento gerado por homenagens ofensivas e dolorosas, corrigir uma história escrita pelos vencedores e facilitar o surgimento de uma história partilhada e aceitável para todos.

Este debate difícil, mas necessário, também deve ocorrer em Angola. A ex-Ministra da Cultura, Rosa Cruz e Silva, fez há dias uma análise relevante do racismo angolano durante a sua Grande Entrevista com a TPA.

Disse com lucidez e tristeza, porque, sim, que seja dito outra vez, que não podemos aceitar não ver os negros valorizados na publicidade num país onde eles são a maioria. É um escândalo intolerável e isso diz quem somos!

Deveríamos aproveitar o movimento global do anti- racismo em curso para combater a “forma empacotada do racismo” angolano, que ainda não foi questionado até o momento, e isso deve ser uma prioridade para o Estado e a sociedade. Chegou a hora de o nosso país estar em sintonia com a efervescência dos mundos negros, que entenderam que Black Lives Matter (Vidas Negras Importam) e que o renascimento negro e africano é agora.

Ricardo Vita 

Pan-africanista, afro-optimista radicado em Paris, França

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