O dia da morte de José Saramago

No dia da sua morte, nesse dia fatídico em que a sua mulher não o conseguiu salvar, José poderá ter-se encontrado frente a frente com umas das suas personagens favoritas: Deus. Esta é a crónica desse quase encontro e de como se procurou evitar do fim ao princípio.

Até ser pó aos pés de uma oliveira não me há-de apanhar, disse-lhe na esperança de que nos alvores imediatos ao último estator ninguém desse por conta da sua falta no mundo dos vivos e assim pudesse transitar para o vazio sem que esse amigo de Caim o apanhasse na curva do purgatório.

Na ausência de inferno criarei o meu, não me arrisco a ser surpreendido por alguma coisa que não queira. Um homem falecido já não aguenta dessas incertezas nem outras intermitências. Por isso mulher, antes que num ensaio me apanhem distraído é melhor encomendar já a peça toda e não arriscar.

Se houver inferno há-de ser como senhorio. Nunca como inquilino. Tu vê lá, que se a coisa não é como tu pensas, não te vão chegar o dobro das vírgulas que poupaste toda a vida para te poderes explicar. Imagina, nós aqui numa ilha espanhola, a escrever cadernos e fazer elefantes voar e, de repente o Criador tem mesmo letra grande e a Eternidade também.

Mulher de pouca fé, claro que Deus não existe, disse. Não há nenhuma hipótese disso. Entre o último suspiro e o sopé da minha oliveira só existem os teus passos, a minha vontade póstuma e a fatalidade comprovada de inexistência d’ele. Nota como é minúsculo o é. Soou bastante estranho aquele auto de fé logo justaposto à inexistência de Deus. Mas para quem já tinha sido pai de uma Tertúlia no Máximo Afonso, qualquer coisa era melhor.

Enquanto o derradeiro exalo não chegava, os dois entreolhavam-se ansiosos. Tinham sido uns anos bestiais a escrever ensaios inéditos sobre a lucidez e a cegueira e outros estados de alma que num qualquer momento se apresentavam capazes se prover prolixas considerações com lombada de best seller. E se afinal ele vem? A dúvida crescia e tornava-se mais dolorosa a cada segundo que faltava para o fim.

Todo o bom ateu no momento de encontrar o criador se sente como na primeira vez em que uma dona de casa vai a num restaurante de luxo. Por melhor que seja o caviar, nunca há-de chegar aos pés do seu pastel de bacalhau. Deus queira que eu não me engane. Mas é melhor atear a fogueira e é só o fumo que sobre aos céus. Assim ninguém fica a perder. Nem ele, nem Eu.

José Manuel Diogo

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