TI ANTÓNIO

A cada dia, é um dia novo, na bwala, Ti António não tem juízo, sempre a riscar, a rasgar, fama de mão de vaca, não lhe escapa, puro disbundeiro, noite e dia na rua, sempre a zanzar. No final do mês, chapa ganha, chapa gasta, no cubico, apenas os trocos a fazer morada, os ndengues na dibinza, fome já não é nzala, choro é só lágrimas secas, ninguém acode, consolo só na igreja, paz na alma, oração para amenizar. No quotidiano, maka é sanzala, todos os dias, jindaka não é kitaba, pão burro, não mata a fome, discussão não é solução, vizinho não é padrinho, desordem nunca ordenou, violência domestica, é crime.

Entre altos e baixos, assim era o lar do Ti António, mandava e podia, fazia e desfazia, a relação sempre por um fio, nada com ele, a mboa a clamar regresso à procedência, na pesada do ambiente, a hora era de bazar. Para costurar, quase já não havia linha, imbambas arrumadas, nervos a flor da pele, tudo a descambar, de mal à pior, separação, santo remédio, nada fazia prever outro cenário. Sem pedir licença, globalmente, pandemia chegou, começou a fazer das suas, nada de se andar atoa, todos confinados, cada qual no seu domicílio, proibido pular a cerca, ficar em casa, virou palavra de ordem.

Devagar, pouco a pouco, veio emergência, agora é calamidade, não tarda, pode ser contingência, Ti António ouviu, ganhou juízo, vida não é só garinar, estar em casa, no poiso certo, em família, é o caminho, faz bem a saúde. Ti António, percebeu a realidade, do cubico, já não arreda pé, virou chefe de família exemplar, partícipe activo nas tarefas domésticas, auxilia aqui, arruma  acolá, tudo na boa, marido ajuda mulher.

Os kandengues, felicidade a irradiar, boca virou discoteca, é só gargalhar, da madame já não se fala, beijo é beijo, linguado na hora, mor, só no singular, alegria a contagiar, é show de arrebizar. Do passado, só guarda lembranças, esqueceu o beef das cassules, quer recuperar o tempo perdido, no seu lar, o mal veio para bem, com corona ou covid-19 invisível, o amor clareou, renasceu, a concórdia e a harmonia familiar, ocupam a sua mente. Ti António, de pelenguenha, nada mais quer saber, a boémia, nunca mais, parte braço, já não tem gesso, paixão só no apartucho, os monas razão maior da sua existência, casa-serviço, serviço- casa, este é o seu novo paradigma, o seu novo normal de vida, cumprindo e fazendo cumprir as regras elementares de biossegurança.

João Rosa Santos

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