Não privatizem o Presidente!

Quem acompanhou a imprensa depois do fim da guerra lembrar-se-á, certamente, da tripla mais feroz que saia em defesa das acções do Executivo angolano, mormente do ex-Presidente José Eduardo dos Santos. Atendiam pelos nomes Rui Tristão, Afonso Bunga e Paulina Frazão. Quase que não se lhes conheciam os rostos, embora a escrita, para os mais atentos, apontavam para determinadas penas conhecidas, algumas das quais ainda em vida.

Dia sim, dia não, eram os ‘patrulheiros’ de um regime que muitos deles hoje dizem abominar e até chegavam a idolatrar os desvaneios que alguns dizem não ter tido conhecimento, se calhar a soldo de interesses que não eram sequer tão inconfessos.

A crítica ao então Executivo e ao então Presidente, mesmo que necessária fosse, eram pagos com insultos. Foi assim que dezenas de angolanos, entre jornalistas e políticos, viram os seus nomes atirados na lama por ousarem apontar caminhos ou criticar o destino que era dado ao erário.

Tudo acontecia numa fase em que se pensava que com a alta do preço do petróleo e os desígnios que se pretendia da economia nos fossem levar a um país diferente do esquelético que vamos tentado recuperar, onde, infelizmente, milhares de angolanos continuam na miséria, mais de 30 por cento de jovens desempregados e outros até sobrevivem graças ao que encontram nos contentores de lixo.

A intocabilidade no passado fez com que determinados acessos fossem fechados. Quem emitisse opinião contrária fosse taxado de ‘inimigo do Estado’, de tal sorte que franquear as portas da Cidade Alta era privilégio para poucos, embora teoricamente fossemos todos apresentados aos olhos do mundo e para os relatórios da Amnistia Internacional, Repórteres Sem Fronteiras e Human Right Watch como iguais perante a lei.

Se o tempo pudesse recuar, não tenho dúvidas de que hoje, talvez, os que mandavam outrora teriam as opiniões melhor acolhidas. Se calhar nem os jornais fossem apelidados de pasquins ou a Oferta Pública de Aquisição (OPA) de que foram alvos determinados meios de comunicação social fizesse sentido. A defesa cega e suspeita de muitos fez com que se travasse o evoluir de um processo natural em que DANI COSTA dizer o certo e o errado seria a mais simples das opiniões num Estado de Direito de Democrático.

Três anos depois de ter chegado ao poder, já há quem pense que este Presidente também não é todos os angolanos, o que faz com que opiniões contrárias tenham já despertado determinados guardiões do templo sempre disponíveis para achincalhar quem assim pense. Os novos calvinistas insistem na teoria segundo a qual ‘a única grande ofensa das pessoas é ter vontade própria. E que todo o bem de que a humanidade é capaz consiste na obediência’.

Criticar voltou a ser sinónimo de heresia. Apontar caminhos diferentes um privilégio para poucos, independentemente do rumo que o país vai seguindo em determinadas esferas, apesar de o próprio Presidente já se ter manifestado em determinadas ocasiões favorável a isso.

Os novos patrulheiros parecem já estar em prontidão. Alguns nomes já vão sendo vilipendiados e, certamente, se as coisas apertarem, outros poderão conhecer o mesmo sabor por ousarem dizer o contrário àquilo que são os desígnios do partido no poder ou questionarem as acções do próprio Executivo e do seu titular.

No Estado Democrático, a crítica é parte da participação política. É parte do direito que assiste a quem elege reivindicar melhores políticas públicas e inclusivas.

Quem aceita está convivência, com novos patrulheiros e as suas sirenes nesta fase, ainda não percebeu o que é democracia nem o Estado Democrático.

Como já dizia Stuart Mill, no livro Sobre a Liberdade, ‘há sempre esperança quando as pessoas são forçadas a escutar os dois lados. É quando prestam atenção a apenas um deles que os erros se solidificam…”.

Há poucos dias, em Talatona, empresários, jornalistas, líderes religiosos e outras entidades apresentaram as suas visões sobre os destinos que se pretende para o país na fase pós-COVID. E outros poderiam fazê-lo caso fosse possível.

Impossibilitados, há quem o faça apresentando, publicamente, aqueles que são os seus caminhos para os milhares de problemas que devemos enfrentar em conjunto, cada um contribuindo na sua zona de actuação. Mas isso não pode fazer deles novos inimigos do Estado, ressuscitando fantasmas de um passado que se esperava ultrapassado com a nova governação, só porque as ideias são diferentes de quem tem o poder político e económico.

Não se pode sequer permitir que alguém se julguem detentores exclusivos dos direitos de formular críticas ao Executivo ou quem o dirige. É importante que não se privatize o Presidente. Ele é de todos desde o dia em que se conheceu os resultados das eleições há três anos. É da situação e da oposição. É daqueles que o votaram e dos que não o votaram. É até dos que preferiram deixar o papel em branco. É dos que o criticam como daqueles que o adulam. O Presidente é nosso!

leave a reply