Os paradoxos da DEMOCRACIA e o BLACK LIVES MATTER

Em nome da comodidade, da rapidez, da segurança e quejandos, a invasão da privacidade é hoje uma realidade. Aceite. Não foi sufragada, mas é aceite – sinal dos tempos, é daquelas imposições que (quase) não se questiona, tacitamente imposta e aceite em nome do progresso.

Em nome do progresso, mas também da democracia – valor que parece conter, por arrasto, o progresso (e aqui e agora deixo ao leitor/a a tarefa de se indignar, interrogar e responder “afinal o que é isso de democracia e o que é isso de progresso, qual a relação entre os 2 conceitos?) –, vimos impavidamente assistindo e participando na gradual redução do que temos de mais privado.

Ainda não temos na “banda”, mas sabemos, por exemplo, da existência dos cartões electrónicos que não precisam de ser passados na máquina para que se possa proceder ao pagamento, coisa básica, e aqueles (esses sim) que contêm o nosso historial – “sabem”, “conhecem-nos” de A a Z, desde o berço até aos nossos hábitos de consumo.

O progresso, quantas vezes dramático – caso das bombas nucleares com Hiroxima a povoar a nossa memória – deve fazer-nos pensar, questionar as fronteiras do mesmo.

Em nome do progresso e da liberdade, são cometidos horrores. Os pilares da liberdade, mormente da individual, encontram-se ameaçados e o bom senso exige, de todos nós, que paremos para pensar o que queremos, podemos e aceitar, o que estamos disponíveis a sacrificar e até onde queremos chegar.

Hoje, falar de tecnologia, de internet, de robótica, é um lugar-comum. A popularização da internet, permite que uma boa parte de nós tenhamos acesso ao mundo, conhecendo e dando(-se) a conhecer.

Fala-se da necessidade de adequar a legislação com relação à protecção dos internautas, mas também do que é publicado, sendo que as balizas continuam porosas, o que nos deixa desconfortavelmente expectantes. Uma coisa é certa, ninguém quer abrir mão da (sua) liberdade!

A liberdade, esse valor que parece andar de mãos dadas com a democracia, valor tantas vezes reclamado quanto perseguido, tem um espectro: até onde se pode ir? Trata-se de uma questão que o país tido como a maior democracia do mundo, não poucas vezes (se) colocou, directa ou indirectamente – as circunstâncias para o seu limite (liberdade de informar), como a guerra, e o tempo para abertura de arquivos são disso exemplos. Para o bem e para o mal, a invasão da privacidade é um facto e num tempo em que tanto dela se fala, felizmente há registos que vale a pena fazer e dar a conhecer – e dizer, viva a liberdade!

Foi a internet que permitiu conhecer, em directo, o homicídio de Georges Floyd. Foi a internet que nos deu a conhecer, nos mostrou o homicídio do jovem Rayshard Brooks. Sem a internet, o corporativismo da polícia (como de outras categorias e grupos socio-profissionais) poderia ter feito destes homicídios mais 2 casos corriqueiros da lei e da ordem, entre polícias e bandidos, entre bons e maus.

Ora, os paradoxos da democracia existem porque fazem parte do jogo democrático, dirão alguns, porque interessará a outros tantos a sua manutenção, dirão outras vozes. No tocante aos DIREITOS HUMANOS, não pode haver paradoxos. Por isso há muito defendo que os estados devem/iam PROIBIR a existência de organizações, grupos racistas, isto é, que defendam, proclamem e promovam o RACISMO. O mesmo digo com relação à internet, às redes socias. Esta a resposta à pergunta como combater o racismo institucional, sistémico e seus derivados.

A sua não proibição é que leva à existência de partidos políticos, com assento nas assembleias/parlamentos, em nome da liberdade de expressão e da democracia – institucionaliza-se e banaliza-se, assim, o horror e o injustificável. As fronteiras e balizas da liberdade e da democracia devem ser o bem e o mal. E é precisamente em nome da liberdade, da Democracia e da Paz que o respeito pelos DIREITOS HUMANOS, um valor inalienável, deve ser a premissa para combater o racismo sob todas as suas formas.

Como diria Sherlock Holmes, “Elementar, meu caro Watson”. Porque BLACK LIVES MATTER, socorro-me, para terminar, do Manifesto Enquanto houver RACISMO não haverá DEMOCRACIA, a que qualquer um pode aceder (comracismonaohademocracia. org.br).

Elisabete Ceita Vera Cruz 

Professora e Investigadora

leave a reply