“Importar 75 mil animais não é uma operação que se faça em meses”

Fraca autoridade na área de veterinária pode ter propiciado a não criação de condições regulamentares para que o lote de animais importado do Tchad tivesse seguido os parâmetros estabelecidos internacionalmente neste tipo de operações

Ao que tudo indica, a morte de cabeças do gado bovino proveniente do Tchad pode estar a ser consequência de não terem sido respeitados os procedimentos regulamentares que devem ser “rigorosamente seguidos” no processo de importação de animais. 

A conclusão é de uma fonte conhecedora do tema que, entretanto, apelou ao anonimato por questões de “ética e deontologia”. A nossa fonte mostrou-se “surpresa” com a velocidade com que se concretizou a operação, duvidando que todos os passos tivessem sido respeitados num processo que, se bem preparado, deveria ter requerido no mínimo um ano. 

Afirmou que uma operação desta envergadura bem-sucedida precisa respeitar três fases, a começar pelo país exportador, onde se observam regras no “trânsito dos animais, embarque, viagem e finalmente reverificação e imunização à chegada”. 

“Não tenho dúvidas de que há procedimentos que não foram cumpridos, nomeadamente a fiscalização, verificação, confirmação da declaração do país exportador, que é um certificado internacional, dentre outras”, disse. 

Durante o processo, o comprador tem de verificar os animais “um a um”, fazendo testes individuais ainda na procedência, com a participação de um laboratório certificado, que para o vertente caso é o da República dos Camarões, que tem a missão de confirmar ou não as doenças que devem ser dadas a conhecer a equipa de médicos veterinários acompanhantes com “autonomia de aceitar ou recusar o lote de animais”. 

Só os animais certificados em como não são portadores de doenças serão identificados com a aprovação da autoridade competente do país onde embarque o efectivo importado. 

A nossa fonte refere que os animais em causa são provenientes de um país “que não terá condições para cumprir estes passos, dada a situação de insegurança vigente no mesmo”. 

Para piorar o cenário, os mesmos terão feito uma longa viagem de mais de 800 Km a pé até entrarem em território camaronês, de onde terão embarcado para outra longa viagem em camiões até ao porto de saída. 

Durante o processo há um rigoroso acompanhamento e alimentação dos animais para garantir robustez suficiente para enfrentarem a adversidade das longas viagens. “Via de regra, é o país exportador que deve garantir estas condições até a chegado ao destino”. 

A longa viagem dos animais deve ser acompanhada por um médico veterinário, ou uma equipa de médicos veterinários que durante a viagem confirmam o estado dos animais, as lesões e apresentam relatórios à chegada que deverão igualmente ser verificados por autoridade competente e só depois os serviços alfandegários devem autorizar o desembaraço do lote. 

No embarque e à chegada, os animais devem ser desparasitados interna e externamente e em Luanda, antes de entrarem em quarentena, devem passar por um tanque banheiro para a sua higienização e submetidos a um rigoroso processo nutritivo com alimento doseado com elementos vitais essenciais e finalmente testados pelo laboratório local que deve apresentar os resultados. 

Terminado o processo, os animais podem ser distribuídos, mas, à chegada ao destino final devem ser submetidos a nova quarentena para ambientação às condições locais nas fazendas mediante apresentação de uma guia de trânsito emitida pelos Serviços de Veterinária de Angola que deve atestar a ausência de doenças. “Para dar um exemplo, um animal com 200 Kg devia comer no mínimo 20Kg/ dia”, explicou a nossa fonte. 

Em caso de falha nesta cadeia, o resultado pode ser o que estamos a ver com os animais chegados do Tchad. A fonte refere que a culpa não pode “morrer órfã”, sugerindo que devem ser apuradas responsabilidades e punir os eventuais prevaricadores. 

Em muitos países do mundo, a autoridade veterinária é a 2.ª ou a terceira mais importante. Veja que pela via do alimento se pode provocar realmente uma catástrofe nacional” alertou a nossa fonte. 

Abate dos animais é a saída  

Informações confirmadas pelo Instituto de Veterinária de Angola revelaram que os animais estão a ser vítimas de Peripneumonia Contagiosa dos Bovinos, conhecida nos meios científicos veterinários pela sigla PPCB. 

A doença existe em Angola, que consta nos registos como região endémica. A nossa fonte aponta como solução o abate de todo o efectivo afectado, a não ser que “a ciência tenha descoberto outro procedimento de que não terei conhecido ao longo da minha carreira de veterinário”, vaticinou. 

A confirmação da causa da morte dos animais vem de análises provenientes da Namíbia que comprovaram que do total das 200 amostras enviadas, 50 apresentaram resultado positivo a PPCB. 

Os primeiros sinais de que algo de anormal se passava com o gado proveniente do Tchad chegaram do Nzeto, em Maio, ao registar a morte de cento e 92 cabeças de gado bovino na fazenda Kinkanka. 

Na altura, o director municipal da Agricultura, Pecuária e Pescas, Silva António Garcia, em declarações à ANGOP confirmara que se tratavam de vacas do lote fornecido a fazenda no âmbito do processo de repovoamento do gado importado pelo Executivo angolano da República do Tchad. 

As causas prováveis apontadas na ocasião foram a abundância da mosca tsé-tsé (vector da doença do sono) na localidade, a qualidade da vegetação e da água consumida pelos animais. 

Entretanto, o que fez soar o alarme foi a notícia da morte de efectivos do mesmo lote atribuídos a fazendas no Planalto de Camabatela. Naquela região, cento e cinco das mil e 500 cabeças de gado bovino provenientes do Tchad, em Março último, morreram. 

Segundo uma fonte local em entrevista à ANGOP, os animais começaram a morrer logo após a sua chegada naquele município, a 19 de Abril último, depois de terem estado em quarentena na Quiminha, província de Luanda, onde terão sido submetidos a análises laboratoriais para saber-se do seu estado sanitário. 

As primeiras três cabeças morreram durante a transportação e outras nas fazendas de colocação, seleccionadas no âmbito de um projecto do Executivo de repovoamento animal do Planalto de Camabatela. 

Fonte do Planalto de Camabatela, inicialmente apontou para a existência de sinais de várias doenças respiratórias, que afectam, essencialmente o gado e que indiciavam que todo o gado que chegou a Angola, proveniente do Tchad poderia estar doente. 

Para proteger as manadas encontradas na região, o gado recém-chegado foi isolado em três fazendas, onde está a ser monitorado. Depois das ocorrências tinha sido iniciada também uma campanha de vacinação para depois avançar-se com o processo de tratamento, de modo a evitar a morte das restantes cabeças. 

No âmbito do programa de repovoamento animal do Planalto de Camabatela e no quadro dos acordos assinados com o Tchad, Angola começou a receber em Março último as primeiras cinco mil cabeças de um total de 75 mil a serem entregues nos próximos oito anos, entretanto, o contrato terá sido suspenso em consequência destas ocorrências. 

Além de Ambaca (Cuanza-Norte), beneficiaram já também desse gado criadores das províncias de Malanje, Cuanza-Sul e Zaire, estas duas últimas não integrantes da região do Planalto de Camabatela. 

O Planalto de Camabatela conta com uma área de um milhão e 410 mil hectares e compreende os municípios de Ambaca e Samba Cajú (Cuanza-Norte), Cacuso, Calandula e Cahombo (Malanje), Negage, Puri, Bungo, Alto Cawale, Cangola e Damba, província do Uíge. 

A região conta com 280 fazendas, repartidas entre as províncias de Cuanza-Norte, Malanje e Uíge, 50 das quais localizadas no município de Ambaca, que tem como sede a vila de Camabatela. 

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