IURD repartida em dois universos

Um grupo de mais de 300 pastores e bispos reformistas da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD) instalou, desde ontem, a sua sede nacional na catedral do Morro Bento e a sub sede na catedral do Lar do Patriota. A liderança brasileira permanece com a gestão dos tempos localizados no centro da cidade, mantendo a sede no Alvalade

O pastor Paulo Pinheiro, um dos contestatários da gestão brasileira, declarou ontem, a OPAÍS, que a ala de pastores angolanos da qual faz parte assumiu ontem a gestão da maioria, se não mesmo todos os templos existentes em 17 das 18 províncias do país.

“A nível do país, nós praticamente já assumimos a liderança dos templos em todas as províncias”, frisou, salientando que em Luanda, um dos territórios mais disputados, têm sob gestão mais de 30 templos.

Paulo Pinheiro anunciou que, com excepção das províncias de Luanda e Cuanza-Norte, a únicas no país onde ficarão suspensas as realizações de actividades religiosas, em consequência do aumento de casos de Covid-19, nas demais as actividades retornarão normalmente a partir de amanhã, sob gestão de pastores angolanos que se revêem nessa causa.

Enquanto estiver a decorrer o processo contra a gestão da liderança brasileira no tribunal, o grupo de pastores angolanos terá a sua sede na catedral o Morro Bento e a sub-sede na catedral do Lar do Patriota.

“Todas as igrejas que estão sob as nossas responsabilidades vão depender de orientações que sairão do Morro Bento”.

Esclareceu que a forma abrupta como assumiram a gestão de grande parte dos templos da igreja é a segunda fase de um processo que começou com o abaixo-assinado subscrito por 324 pastores angolanos.

Documento este que foi apresentado com um manifesto denunciando irregularidades existentes dentro da IURD, através da gestão brasileira, em Novembro do ano passado.

O pastor disse que, deste modo, chamaram a atenção da liderança brasileira, encabeçada pelo bispo Honorilton Gonçalves, representante de Edir Macedo em Angola, no sentido de mudar a sua forma de trabalhar e de gestão, mas assim não aconteceu.

“Fez-se esse repúdio e quando nós nos manifestamos diante dos órgãos de comunicação social, foi no intuito de forçá-lo a procurar negociar com os pastores angolanos. Coisa esta que ele [Honorilton Gonçalves] não aceitou”, frisou.

Falta de consenso

De acordo com o nosso interlocutor, mesmo assim, a maioria dos pastores permaneceu nos seus templos, exercendo com brio e profissionalismo as suas responsabilidades pastorais, esperançosos de que o responsável máximo da igreja em Angola fizesse alguma coisa, o que não aconteceu. “É isso que acabou por despoletar a situação que vimos hoje.

É um processo que já vem a decorrer há sete meses, mas não houve mudança de comportamento por parte da gestão brasileira”, frisou.

Paulo Pinheiro disse serem estes os factores que o levaram a tomar tais medidas, rompendo com o acordo que mantinham com a gestão brasileira em Angola.

Indagado se ainda estão abertos a negociar com a liderança brasileira, Paulo Pinheiro respondeu que foi dado a ela um tempo muito longo para que pudesse reflectir e partir para este caminho, mas recusou-se.

Para ser mais preciso, disse que a entrega do abaixo-assinado aconteceu em Novembro último e agora se encontram em Junho.

“Então, é muito difícil nós nos sentarmos à mesma mesa e conversar. Praticamente está ultrapassado isso. O que nós, angolanos, agora queremos, é que é dar sequência aos trabalhos da IURD e fazer as reformas que tanto desejamos”, frisou.

“Se fosse por outros interesses já teríamos feito isso há muito tempo”

Paulo Pinheiro disse que ao longo dos 30 anos de existência da IURD em Angola já conversaram muitos com os líderes brasileiros no sentido de adoptarem um modelo de gestão melhor, tudo dentro da própria comunidade religiosa.

“Conversávamos. Logo, conseguíamos ultrapassar a situação e as coisas melhoravam, só que depois voltavam novamente. Por isso, nos dissemos que não queremos negociar mais, porque já temos feito isso há um bom tempo.

O pastor apela aos fiéis da IURD a terem calma, no entanto, reconheceu que em momentos como este que a igreja está a viver estes também acabam por sofrer. “Não era esse o nosso desejo, mas, também, não poderíamos compactuar com o que está a acontecer”.

Declarou que os fiéis não conhecem muitas coisas que acontecem internamente a nível da gestão superior da igreja. “Há alguns que pensam que nós estamos a fazer isso, por outros interesses. Não é por outros interesses. Se fosse por outros interesses já teríamos feito isso há muito tempo”, frisou.

Apela aos fiéis a continuarem a orar pelos pastores e bispos, sublinhando que não queriam que as coisas chegassem a esse ponto, mas pela resistência da liderança da ala brasileira não tivemos outra saída.

“Peço que tenham muita coragem e que continuem a frequentar as nossas igrejas. É um trabalho muito sério que fizemos e vamos dar sequência”. O PAÍS tentou obter contraditório da ala brasileira da IURD, mas não teve êxito.

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