Igrejas preparadas para reabrir, mas apreensivas com a Covid-19

Os grupos corais seriam substituídos por música gravada, as temperaturas dos fiéis seriam medidas à entrada do templo, a lavagem das mãos, a higienização permanente dos tempos, bem como a criação de brigadas comunitárias de resposta à Covid-19 fazem parte das medidas adoptadas pelas igrejas. No entanto, fiéis e pregadores sentiram-se aliviados com o prolongamento da suspensão dos cultos cujo fim estava aprazado para ontem

A permanência da suspensão dos cultos em Luanda e Cuanza-Norte, em consequência do aumento de casos de Covid-19, anunciada nesta Segunda-feira, 22, pela ministra da Saúde, Sílvia Lutukuta, surpreendeu os líderes religiosos das duas províncias. Inicialmente, o Decreto Presidencial sobre a situação de Calamidade Pública previa que as igrejas reabrissem no dia 24 deste mês, ou seja, ontem, com limitação de até 50 por cento da capacidade dos locais de culto, não superior a 150 pessoas.

Em entrevista a OPAÍS, o pároco da Igreja de São Marcos, em Luanda, José Esteves, assegurou que a sua paróquia estava preparada para ajudar os fiéis no cumprimento das medidas de prevenção da pandemia da Covid-19.

Questionado sobre como reagiu à notícia da ministra da Saúde, Sílvia Lutukuta, em plena conferência de imprensa, disse que ficou surpreso e ao mesmo tempo como que aliviado, em função da crescente diária do número de infectados tanto em Angola como em outras partes do mundo.

Exemplificou que no Alentejo, em Portugal, até há poucos dias eram praticamente inexistentes casos, e agora tornou-se no segundo maior foco daquele país. José Esteves desabafou que o novo Coronavírus é um mar de surpresas e de adaptação, ao ponto de em cada dia trazer uma coisa nova. Por essa razão tinha um misto de sentimentos com a possibilidade de abertura da igreja a partir do dia 24. Por um lado, estava alegre, bem-disposto e entusiasmado com o recomeço das celebrações com o povo, mas também assustado.

“Por isso, quando a senhora ministra fez o anúncio, tive uma mistura de sentimentos. Ao mesmo de tempo de alívio e de frustração, por depois de me ter empenhado em alguma coisa de repente tudo fracassou. Foi assim que senti”, frisou.

O sacerdote contou que já tinha tudo preparado e através das redes sociais e não só, têm estado a transmitir a todos os cuidados a ter, bem como a incentivar sobretudo as pessoas de grupos de riscos a não participarem presencialmente nas missas dominicais e noutras celebrações que tenham muita gente, para não haver perigo de contágio.

“Temos todas as coisas preparadas, com higienização. Mesmo com os leitores. Nós aqui proibimos grupos corais e andamos à procura de músicas para gravar em pen drive a fim de metê-las a tocar em determinados momentos da celebração, em substituição destes”, contou.

Acrescentou de seguida que “temos também o termómetro para medir a temperatura, porque devemos ter esse sentido de responsabilidade, uma vez que nós podemos ser portadores assintomáticos e não sabemos de nada enquanto não fazemos o teste”, advertiu.

O padre José Esteves disse ainda que qualquer pessoa pode ficar contagiada e os que tiverem as imunidades mais baixas podem vir a sucumbir, e aquele que transmitiu pode ser o “assassino”. “Por isso, temos que ter todos os cuidados. Pensar não só em nós, mas nos outros, porque este vírus nos obriga a estarmos muito unidos e ligados uns aos outros”, explicou.

Meios de biossegurança na “casa do Senhor”

A paróquia de São Marcos dispõe de termómetro, meios para higienização das mãos, pulverizador para que entre celebrações se possa também desinfectar e higienizar os espaços com lixivia.

Fez saber que habitualmente cabem mais de 300 pessoas na igreja que preside, porém, havia preparado o espaço para 110 pessoas, respeitando as medidas de prevenção de dois metros de distanciamento. Em função disso, teria de multiplicar as celebrações para que um maior número de pessoas pudesse participar.

Aos domingos seriam realizados quatro celebrações para evitar grandes aglomerações de pessoas. E só cinco pessoas fariam o acolhimento. Os escuteiros estariam de pé e o resto sentados para o controlo rigoroso do cumprimento das medidas e evitariam o excedente de pessoas por ser também perigoso.

“Espero que isso passe rápido ou que aprendamos a viver com o vírus da Covid-19 sem alarmes, mas com prudência”, frisou.

Entretanto, advertiu que para tal são necessários a higienização das mãos, o uso da máscara, distanciamento social e, sobretudo, tomar todos os possíveis e impossíveis que reforçam as imunidades.

“Penso que isso é fundamental, porque se nós reparamos, os que morrem são as pessoas que estão com a imunidade mais baixa. Por qualquer motivo de doença, qualquer erro que tenha cometido”, frisou.

Fiéis divididos entre alívio e tristeza

Por sua vez, o secretário provincial da Igreja Evangélica Congregacional em Angola (I.E.C.A), pastor Laurindo Juliano Kangombe, revelou que após a ministra da Saúde, Sílvia Lutukuta, ter anunciado que as igrejas permaneceriam encerradas em Luanda, tiveram de lidar com várias reacções dos fiéis.

No entanto, a maioria demonstrou tristeza com essa notícia, por um lado, pelo esforço despendido para criar as condições exigidas para o culto e a pré-disposição de entrar no templo.

Depois, uma minoria, que sempre demonstrou medo excessivo pela Covid-19 ou preguiça espiritual, espelhou alegria, alívio. “Quanto a mim, pessoalmente, olhei para situação como um novo normal na fé de que em todas estas medidas é Deus fazendo, através das pessoas”, disse.

IECA cria grupos de resposta à Covid-19

O pastor Laurindo Kangombe contou que perante a Covid- 19, a IECA em Luanda tomou diversas medidas, como a sensibilização das comunidades contra a pandemia, através de várias sessões com pastores e outros líderes e membros.

Criou também grupos de resposta à Covid-19 para actuar nas emergências comunitárias, arranjou e distribui cestas básicas a 1.207 famílias e instalaram baldes com torneiras para a lavagem das mãos nas famílias e templos.

A demarcação dos lugares nos bancos medidos para o distanciamento, o estabelecimento de tapetes embebidos com lixívia nas portas de templos para desinfecção dos pés e a disponibilização de álcool-gel também estão entre as medidas de prevenção adoptadas.

“Até ao dia 20 de Junho, 11 pastorados já tinham termómetros e outros ficaram por ter até ao dia 24. Todos os membros já têm e usam máscaras faciais e cada igreja tem criada alguma reserva deste material e álcool-gel”, contou.

O secretário provincial da IECA disse que criaram também equipas de limpeza e desinfecção dos templos e orientou-se inicialmente que antes dos cultos cada pastor escrevesse para a Polícia ou administração local para que fosse averiguar o estado de preparação das condições e, se possível, obter o certificado de sanidade. Tudo isso antes do anúncio da suspensão.

“Nós esperávamos o momento de reentrar no templo, casa do Senhor. Sabem que Angola já passou nos momentos mui duros (…) de guerras, mas nunca abandonou o culto público. Todo esse trabalho que disse antes pode mostrar a grande expectativa que tínhamos e também a responsabilidade que sentimos”, contou Laurindo Kangombe.

Fez saber que o secretário-geral da IECA, André Cangovi Eurico, passou-lhes recomendações detalhadas por escrito e enfatizou que tudo fizessem para que os templos continuassem a ser espaços de adoração ao Deus da vida e não lugares de contaminação da Covid-19 e morte.

Laurindo Kangombe aproveitou a entrevista ao jornal OPAÍS para deixar uma mensagem aos fiéis, classificando como um conselho tríplice: “Não baixem a fé. Todos despertem que o Corona cumpre a função de provação. É uma peneira para apurar quem é firme no Senhor (Salmo 46)”, frisou. Acrescentou de seguida: “comprem máscaras e usem para se protegerem, mas a melhor máscara busquem-na desde o trono de Deus: orem e leiam a Bíblia, partilhem experiências de fé”.

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