Covid-19: Um paradoxo dos súbditos em Angola ?

A COVID-19 foi notificada pela primeira vez em Angola no dia 21 de março de 2020, altura em que foi anunciada a ocorrência dos dois primeiros casos, por sinal, importados de Portugal e cujos cidadãos em causa regressavam para o país num momento em que já se havia fechado as fronteiras aéreas e terrestres, pelo que, se tornou um assunto bastante polémico e discutido pela sociedade.

Nesta altura o mundo já se encontrava ao rubro por conta do elevado número de mortes que assolavam países como a Itália, Espanha, Inglaterra e também subia exponencialmente nas terras do “Tio Sam”. Este facto gerou uma grande onda de pânico para todo mundo, obrigando a Organização Mundial da Saúde – OMS, sob o comando do Dr. Tedros Adhanom Ghebreyesus, estabelecer uma série de medidas para garantir o bloqueio da cadeia de transmissão do novo coronavírus, dentre as que mais se destacaram, o encerramento das fronteiras, o confinamento geral das populações, o distanciamento físico, a promoção da higienização das mãos e o uso da máscara facial. A mensagem de acatamento destas medidas foi reiteradas vezes direccionada particularmente para os Estados africanos, onde os graves problemas de ordem socioeconómica são tão prevalentes, prevendo-se uma catástrofe caso a COVID-19 se disseminasse na mesma escala que nos países acima citados. Deste modo, boa parte dos Estados africanos mobilizaram- se para o cumprimento cabal das orientações dimanadas pela OMS.

Neste contexto, Angola mostrou- se capaz de mobilizar grande parte dos seus recursos materiais, financeiros e humanos, e até a sociedade em geral foi mobilizada para todos juntos entrarem na luta contra a COVID-19. O governo de Angola foi capaz de em curto espaço de tempo importar mais de 240 médicos cubanos, conseguiu trazer semanalmente para o país toneladas e toneladas de insumos medicamentosos e material de biossegurança, dinamizou a distribuição de água para as populações mais carentes e paradoxalmente o partido que suporta o governo ficou na linha da frente das campanhas de distribuição de bens alimentares a nível das comunidades vulneráveis. Conseguiu em tão pouco tempo hospitais de campanha, equipados com materiais e instrumentos de última geração. Apesar de os dados epidemiológicos de Angola mostrarem que até o momento o número de casos e de óbitos por COVID-19 ainda ser reduzido comparando com outros países africanos (menos de 200 casos e menos de 15 óbitos), o investimento já feito pelo governo angolano direccionado para essa pandemia está elevadíssimo.

O problema não está na virtude deste grande investimento face ao bloqueio de uma possível propagação do coronavírus a nível das comunidades (porque até os atuais dados epidemiológicos publicados já vislumbrarem existência de circulação comunitária do vírus), mas inequivocamente, na forma como as nossas lideranças encaram os problemas de saúde e como estabelecem as prioridades, usando o erário público maioritariamente para resolver problemas que não acometem se quer 1% da população. Comparando o impacto da COVID- 19 com outros problemas de saúde em Angola tais como a malária, malnutrição grave, tuberculose, VIH/SIDA e outras doenças infecciosas de transmissão fecal-oral, com grande destaque para febre tifoide, veremos que houve uma atenção bastante desproporcional.

Esta atenção desproporcional não teve em conta os dados do próprio MINSA que revelam que só no ano de 2019 tivemos mais de 2 milhões de casos de malária notificados e destes ocorreram mais de 2 mil óbitos e apenas no primeiro trimestre de 2020 já se registaram cerca de 650 mil casos e 780 óbitos, sendo a maior incidência em crianças com menos de 5 anos de idade. Grande parte destas crianças com o diagnóstico de malária, têm como principal morbilidade a anemia severa, hipoglicemia, convulsões e alteração da consciência, que por incapacidade dessas unidades sanitárias em darem resposta célere, um bom número de petizes termina em óbito ou muitos são transferidos para outras unidades de referência já em estado bastante grave, acabando por falecer em menos de 48 horas.

A atenção desproporcional é tanta que nos esquecemos dos dados do UNICEF de 2018, que apontam que em Angola cerca de 40% das crianças com menos de 5 anos de idade sofrem de malnutrição crónica e 29% está afectada com a malnutrição aguda moderada e grave, crianças estas que a partida já têm um futuro comprometido dada as sequelas cognitivas esperadas neste tipo de distúrbios. Estas crianças só chegam a este ponto, porque depois dos 6 meses de idade, que é período de aleitamento materno exclusivo, elas necessitam maioritariamente de alimentação suplementar e diversificada como fontes de proteínas, carboidratos, gorduras e vitaminas, mas boa parte das famílias angolanas, por limitação de recursos, não consegue cumprir cabalmente com essas necessidades calóricas dos seus filhos.

Estes exemplos são apenas para não mencionar o estado actual deficiente da luta contra o VIH/ SIDA e do controlo da tuberculose.

Diante dos exemplos acima descritos, podemos perceber o quão desestruturadas estão as nossas políticas de saúde pública e em que medida as nossas lideranças políticas conduzem os processos de implementação. Tal facto tem sido o maior motivador para cada vez mais nos atrasarmos em alcançar as metas dos compromissos globais dos quais somos subscritores.

Em 2015, Angola ratificou junto da ONU a implementação dos 17 Objectivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) durante 15 anos (até 2030), dentre os quais, o 2º objectivo diz “Acabar com a fome, alcançar a segurança alimentar e melhoria da nutrição e promover a agricultura sustentável” e o 3º objectivo “Assegurar uma vida saudável e promover o bem-estar para todos, em todas as idades”. Numa das metas do 3º objectivo, os países comprometem- se que até 2030, devem acabar com as epidemias de VIH/SIDA, tuberculose, malária e doenças tropicais negligenciadas, e combater a hepatite, doenças transmitidas pela água e outras doenças transmissíveis.

Já passam 5 anos desde a ratificação desses compromissos globais e pelo andar da carruagem, Angola tem poucas hipóteses de cumprir com estes dois grandes objectivos até 2030, não por falta de potencial humano e nem de recursos materiais e financeiros, mas pela incapacidade de estruturação e implementação das políticas até ao último reduto que são as comunidades. O aparecimento da COVID-19 permitiunos perceber o nível de incúria que caracteriza as nossas lideranças políticas, dificultandolhes resolver os problemas de saúde e sociais endêmicos desde há mais de quatro décadas, mas quando convém, conseguese mobilizar todas forças vivas e recursos disponíveis, de modos a branquear toda uma série de fragilidades que fazem moda no nosso quotidiano. O que nos pareceu é que convinha resolver o mais rápido possível este assunto da COVID-19, pois pelo que é visível, não está a escolher classes sociais, é um tsunami que varre tudo e todos.

Portanto, a COVID-19 é um paradoxo dos súbditos em Angola, contudo, ainda vamos a tempo de virarmos a página para uma nova etapa em que o poder político perceba e sinta o real sofrimento do povo, permitindo-lhe com isto desenvolver políticas mais assertivas com base em prioridades objectivas e resolver de facto os problemas das populações. Esperamos que no pós-covid as elites políticas percebam definitivamente a importância de ter no país um sistema que responda de facto as demandas sanitárias do país, contribuindo significativamente para a melhoria da qualidade de vida.

 

Rosalon Pedro

Licenciado em medicina pela Universidade Agostinho Neto em 2009; Investigador Junior em Epidemiologia Clínica pelo “Kenya Medical Research Institute – KMERI”; Especialista em Pediatria formado pelo “Hospital Pediátrico David Bernardino”, 2010-2014; Ponto focal nacional da OMS para o projecto “Melhoria da qualidade dos cuidados pediátricos”, 2014-2015; Actualmente responsável pelo serviço de urgência de pediatria da Clínica Sagrada Esperança, em Luanda.

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