Federação de Andebol tem “dois presidentes!”

Várias vozes nos corredores da Federação Angolana de Andebol (FAAND) estão descontentes com algumas decisões administrativas que têm sido tomadas nos últimos meses

Há sensivelmente quatro meses ainda antes do Decreto do Estado de Emergência em Março passado, vários documentos que engajam a direcção da Federação Angolana de Andebol (FAAND) têm surgido a público com a assinatura do “vice” José Venâncio, na qualidade de presidente interino, conforme constatou este jornal ao longo desse período.

Administrativamente, a figura do “presidente (ou outro cargo) em exercício” entra em cena quando o titular de um determinado cargo está impedido seja por morte, prisão ou razões de saúde, entre outras. Ou seja, quando há vacatura do posto cuja provisão depende do respaldo de um acto definitivo posterior.

Este não parece, porém, ser o caso na FAAND, uma vez que oficialmente Pedro Godinho não apresenta, aparentemente qualquer problema que o afaste de vez do cargo que ocupa há já 12 anos. Nessas circunstâncias, a outra figura administrativa é a de “presidente (ou outro cargo) interino”, accionada quando a vacatura é transitória, tratando-se da substituição temporária de alguém ausente. Afinal, interino significa provisório, não efectivo. Mas não se sabe se este é efctivamente o caso, visto que o nosso jornal não tem conhecimento de qualquer documento oficial que indique a “promoção” de José Venâncio.

É que, dada a seriedade da questão, qualquer medida nesse sentido deveria merecer também o conhecimento do grande público por via da comunicação social e não apenas do Ministério da Juventude e Desportos ou da Direcção da FAAN, se é que essas entidades foram efetivamente notificadas sobre o afastamento de Pedro Godinho e a ascensão de um dos seus “vices”. Se a FAAND divulgasse regularmente as suas actividades em comunicados oficiais, como fazem o futebol e o basquetebol, a esta hora seguramente saber- se-ia qual na verdade o estatuto de José Venâncio.

Paralelamente às assinaturas do “presidente em exercício”, o verdadeiro “número 1” tem feito vários pronunciamentos públicos e tem agido na qualidade de presidente da Federação Angolana de Andebol (FAAN). Foi assim no dia da modalidade, celebrado a 20 de Maio passado, foi assim quando falou da programação das provas nacionais há sensivelmente um mês na Rádio 5 e foi assim também quando no penúltimo dia do mês passado dirigiu uma reunião de Direcção na sede da entidade que superintende o andebol em todo o país.

Foi igualmente na condição de líder federativo que participou na reunião do passado dia 4 do corrente mês, no Ministério da Juventude e Desportos (MJD), para acertar as novas datas do calendário eleitoral nacional. O cenário não deixa de ser estranho, visto configurar uma situação clara de “bicefalia”. Para alguns actos (menos relevantes) vale a assinatura de José Venâncio e para outros (mais relevantes) vale a presença de Pedro Godinho.

Uma fonte da FAAND contactada pelo nosso jornal a propósito do assunto dá conta que o presidente Pedro Godinho e seus pares de Direcção podem estar a esconder uma qualquer coisa ou, o que é mais provável, pode tratar-se de uma manobra visando fins eleitorais. De resto, a renovação de mandatos nas federações nacionais está agendada para Setembro próximo, inclusive nas federações integrantes do programa olímpico.

Não menos estranho nesse processo é o facto de a “promoção” de José Venâncio ter sido uma decisão unilateral do presidente, sem, entretanto, causar um debate entre os seus pares de Direcção ou pelo menos consultá-los, a fim de chegarem a consenso relativamente ao seu “substituto”. Segundo a nossa fonte, para proceder dessa forma, Pedro Godinho terá argumentado junto dos seus colegas de Direcção que nesses casos o presidente tem poder discricionário, embora nada disso conste nos Estatutos da Federação.

Embora pouca gente, mesmo do andebol, o saiba, a verdade é que a federação da modalidade tem na prática dois presidentes, algo que a maioria dos membros da Direcção não entende. “O que está a acontecer é absolutamente surreal. Como é que alguém se auto-suspende por livre e espontânea vontade, sem ninguém o forçar a isso, e continua a mandar como se nada tivesse acontecido. Isso cheira à esturro”, disse ao nosso jornal um membro da Mesa da Assembleia- Geral que preferiu não ser identificado.

Pedro Godinho leva 20 anos na Direcção da FAAND, sendo 12 como presidente e os restantes como vice-presidente de Archer Mangueira. Antes disso, já havia integrado uma comissão de gestão que sucedeu ao presidente Hilário Sousa, afastado pela direção do Ministério da Juventude e Desportos, num processo rocambolesco e bastante opaco.

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