Halford Mackinder

Harford Mackinder teve o seu contributo significativo junto dos centros académicos, associado à história da educação e concepções geográficas. A sua principal premissa ficou conhecida pela forma como os acontecimentos físicos, históricos e políticos se processavam no mundo. Assim, cada acontecimento quer fosse negativo ou positivo, poderia repercutir-se em regiões geográficas diametralmente opostas.

Mackinder é um dos clássicos da Geografia Política e da Geopolítica. Alguns estudiosos salientaram a relação estreita existente entre a geografia e a história. As suas premissas foram seguidas por vários historiadores e, por decisores políticos. As relações internacionais no final do século XX, ainda são compreendidas a partir de parâmetros por ele estabelecidos. O autor, que viveu em plena “Era dos Impérios” interessou- se pelo estudo do desenvolvimento de tais impérios ao longo da história, e relacionouo com as manifestações espaciais do poder.

Procurou perceber o fundamento geográfico para o conflito entre os homens e o ambiente físico, condenando em simultâneo os geógrafos que pretendiam uma “neutralidade política” e defendeu, tal como Ratzel, Kjellen e Haushofer, uma geografia alistada e fornecedora de elementos empíricos para a análise política do equilíbrio de poder mundial. Assim, a geopolítica surge dessa associação e, entende- se que Mackinder também era partidário do Realismo Político no campo das Relações Internacionais.

O mundo do século XX, para Mackinder consistiu num sistema fechado, pois não existia mais terras a serem descobertas, como nos séculos anteriores, deste modo, os acontecimentos locais não limitam a sua influência às regiões próximas, mas propagam-se pelo sistema mundial como um todo.

Mackinder salienta que ao longo da história universal, conjuntos de forças de características opostas vêm continuamente a confrontar-se sobre os poderes terrestres e marítimos.

Os poderes terrestres, distantes do oceano, dotados de grandes extensões contínuas de terra e de vasto volume de recursos, criam poderosos exercícios, e os poderes marítimos surgidos nas ilhas ou regiões costeiras, defensores de pontos estratégicos como estreitos e passagens, criam poderosas marinhas de guerra. As lutas entre Roma e Cartago, Atenas e Esparta, confirmam os factos.

Para Mackinder é mais provável que um poder terrestre, dotado de maior volume de recursos, possa conquistar terras litorâneas e construir uma marinha de guerra poderosa.

O geografo inglês, seguindo critérios históricos, fixou a sua atenção no conjunto de terras da Eurásia. Para ele, a história da Europa foi forjada como resultado de seguidas invasões e possui características muito peculiares, limitadas ao norte pelo gelo ártico, a sul e a leste pelo deserto. A esse conjunto de terras que vai da Sibéria aos Urais, que Mackinder denominou de “Heartland” ou pivô geográfico, através do qual se relacionam os grandes poderes terrestres da história.

As invasões originárias de Heartland, foram dominantes até à idade Média e cessaram durante a Era Moderna, quando o desenvolvimento da navegação permitiu a emergência dos maiores poderes marítimos jamais vistos desde os vikings. Culminando com os ingleses.

Durante 400 anos o predomínio coube aos poderes marítimos, a lenta criação do Imperio Russo, a partir do século XV e a unificação da Alemanha no século XIX, tendo como objectivo a conquista do Leste Europeu, criaram uma ameaça iminente. Somente o Hartland de Mackinder teria a capacidade de gerar uma potência terrestre com poderes equivalentes aos do antigo império britânico.

Uma aliança entre União Soviética e Alemanha, criada na “Heartland” o chamado “império do mundo”, deve ser evitada a todo o custo, recomendava, pois permitiria o acesso dos soviéticos aos “mares quentes”, bem como permitiria a conquista da maior parte da Europa pelos alemães.

Todas essas ideias foram utilizadas por Haushofer, porém com o intuito de criar exactamente o que MacKinder mais temia um imenso poder continental, fruto da aliança russo-germânica, capaz de demolir a hegemonia marítima britânica e conquistar o mundo (ou grande parte dele), segundo Gilbert, Edmund.

Foi a partir do conceito de Heartland, que Mackinder criou outros dois conceitos, o primeiro é o “inner Crescent”, conjunto de terras próximas à Heartland que a circundam.

Estas terras, como espaço natural de expansão de um poder terrestre fundado na Heartland são importantes para o equilíbrio do poder internacional, isto porque, uma vez que são conquistadas por um poder terrestre, possibilitam o isolamento de outros poderes marítimos existentes.

Desta forma, Mackinder devem estar sob o controlo dos poderes marítimos, e por outro lado o insular Crescente corresponde aos próprios poderes marítimos (Estados Unidos, Grã-Bretanha, Japão, França), além de seus domínios “coloniais” de então (Sul da África, Américas Central e do Sul, Canadá, Oceânia).

Afim de evitar o surgimento do “império do mundo”, MacKinder havia proposto a criação de um “rumo de ferro eslavo” entre Alemanha e União Soviética, bem como a adopção de uma estratégia de contenção da União Soviética no Extremo Oriente (através do Japão, potência marítima como a Inglaterra, e da China) e no Subcontinente indiano, através da criação de “países-tampão”, impedindo a esta poderosa nação o tão almejado acesso aos “mares quentes”.

Estas estratégias, traçadas durante as negociações dos tratados “de paz” após a Primeira Guerra Mundial, criaram raízes, e se tornaram também pedras angulares da configuração do mundo durante a Guerra Fria. E hoje, numa conjuntura e realidades diferentes, o sistema internacional vive, efectivamente a mesma realidade sem a URSS, a julgar pelas palavras de Daniel Grós, diretor do Centro de Estudos de Política Europa que, dá-nos uma visão pragmática sobre o desequilíbrio de forças, considerando “que não há grande coisa a fazer. A China tornou-se demasiado grande, cresce de dia para dia. Já não é possível tentar mudar o seu comportamento.

Pode dizer-se que as violações dos direitos humanos acarretam menos abertura europeia em termos comerciais e em relação ao investimento chinês. E a Europa pode manifestar o seu descontentamento, mas não mudar o rumo das coisas.”

MacKinder, assim, pode sem sombra de dúvida ser considerado o geógrafo mais influente nas relações internacionais do século XX. Isso se comprova facilmente quando percebemos que suas palavras serviram a propósitos tão diversos quanto os dos geopolíticos norte-americanos, arquitectos da Guerra Fria, empenhados na contenção da União Soviética, e os de Karl Haushofer, expoente da Geopolitik alemã, engajado na construção de um mundo onde a Alemanha fosse hegemónica.

Alberto Kizua

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