Luís Lopes de Sequeira é culpado de escravatura, Agostinho Neto não

Ao conquistar a independência, o nosso país cometeu dois erros em relação a Luís Lopes de Sequeira, um dos protagonistas da queda de um dos impérios mais gloriosos de África e, portanto, participante na humilhação dos nossos povos. Já sabíamos que os nossos governantes fizeram a escolha voluntária de manter ruas que glorificam colonialistas, racistas ou anti-semitas para quem a vida dos negros não contava. É o caso, por exemplo, de ruas com nomes como Ramalho Ortigão, Eça de Queirós e Fernando Pessoa.

Mas, nessa escolha selectiva e injustificada na remoção de estátuas e renomeação de algumas ruas, o primeiro erro foi manter o nome de Sequeira num distinto largo da Baixa de Luanda. O segundo foi, se fosse necessário manter esse largo com este nome, não nomear outro, ou uma rua perto daí ou não, com o nome daquele que parece ser o verdadeiro herói que todos deveríamos celebrar: Vita-a-Nkanga.

Este rei, que também é conhecido por António I do Congo, nas suas relações com os Europeus, e “Mwana- a-Nlaza” pelos Bakongo, foi o valente soberano do Kongo que se sacrificou na Batalha de Ambuíla em defensa da liberdade e dignidade dos nossos povos.

Porque, e é da lógica mais banal, teria sido oportuno substituir o nome de Sequeira pelo nome de Vita- a-Nkanga naquele largo. Mas como essa lógica não era natural para todos e ainda não é até hoje – era pelo menos necessário contar toda a história dessa batalha. É também o que o movimento Black Lives Matter reivindica. E porquê ocorreu essa batalha de Ambuíla nesse dia 29 de Outubro de 1665? Lembremos que os reinos do Kongo e de Portugal mantiveram relações durante quase dois séculos e que o Kongo permaneceu soberano e forte até aí.

A escravatura, que tinha outra definição no Kongo (o escravo era acima de tudo um prisioneiro de guerra, não era um subhomem e tinha a possibilidade de recuperar a sua liberdade), desorganizava a sociedade local. E todos os monarcas, começando com o Mvemba-a-Nzinga, também chamado Afonso I do Congo, queriam acabar com esse comércio.

Só que era precisamente a única coisa que interessava aos Portugueses e o facto de Paulo Dias de Novais ocupar Luanda em 1575 não ajudou em nada a situação. Pois, as dissensões internas no Kongo, exacerbadas pela presença europeia, facilitaram a intromissão dos Portugueses nos seus assuntos políticos. As veleidades de independência nos Dembos, uma região que se encontrava entre o reino de Ngola e o do Kongo, deu aos Portugueses a oportunidade que esperavam para se vingar, após a partida dos Holandeses de Luanda, da aliança militar que o Kongo fez com a Holanda (1641-1648).

O Kongo reivindicava a sua autoridade sobre os Dembos e naturalmente respondeu ao pedido de apoio de uma das partes no conflito de sucessão que surgiu no principado de Ambuíla E a outra parte pediu o apoio de Ngola, que também reivindicava a sua autoridade sobre a região. Estas são as razões da batalha. As repercussões da Batalha de Ambuíla são conhecidas.

As tropas portuguesas, comandadas por Sequeira, venceram a batalha e decapitaram o rei Vita-a- Nkanga, que comandou ele próprio as suas tropas. Também mataram centenas de vidas negras que se recusaram a perder a sua liberdade e dignidade. Capturaram várias pessoas e venderam-nas como escravos para construir as Américas. Capturaram ainda o filho de sete anos do rei, que eles criaram com a intenção de fazer dele depois o seu fantoche no trono do Kongo.

Mas este recusará e regressará ao Kongo na idade adulta. Dançaram ainda durante longas horas de alegria, zombando, com a cabeça de Vita-a-Nkanga espetada num pau, durante uma cerimônia católica realizada na Igreja de Nossa Senhora da Nazaré, em Luanda, onde enterraram essa cabeça. E enviaram depois a coroa e o Ceptro do Kongo para Portugal como troféus.

Vemos então o que levou os Portugueses a colocar o nome de Sequeira naquele largo: para celebrar a sua vitória sobre nós. Agora, entre nós, quem é o verdadeiro herói aqui, para nós Africanos ontem e hoje e hoje Angolanos? Luís Lopes de Sequeira, um agente da nossa queda, da nossa submissão à escravatura e ao colonialismo

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