ONU-SIDA quer questões relacionadas com o VIH-SIDA nos manuais angolanos

O representante da ONU-SIDA em Angola, Michel Konakou, disse, ontem, que esta organização está a estudar a possibilidade de colocar questões relacionadas com o VIH-SIDA nos manuais escolares, de forma a incutir, desde tenra idade, às crianças, este tipo de assunto e contribuir para a redução de novas infecções

As novas infecções anuais constituem motivo de preocupação para a ONU-SIDA, sendo que o último estudo aprovado dá conta, no nosso país, de pelo menos 21 mil novas infecções. São números de 2018, numa projecção baseada no Inquérito Múltiplo de Indicadores da Saúde, sendo que os dados actualizados aguardam por validação, mas, ainda assim, é um número elevado.

Temos de fazer muito mais, segundo Michel Konakou, representante da ONU-SIDA em Angola, se quisermos atingir o compromisso de 2030, do fim da SIDA como problema de saúde pública. Deve ser feita uma avaliação de dez anos antes, pois já devíamos estar por volta de 5 mil novas infecções, o que não acontece.

“Quando se fala de novas infecções, fala-se em crianças, bebés, e devemos parabenizar a Primeira-Dama da República pela iniciativa do projecto Nascer Livre para Brilhar, já que consegue-se reduzir de maneira significativa o nível de infecção. Mas, além disso, temos que ver ao nível das escolas a introdução de questões relacionadas com o VIH-SIDA aos manuais escolares”, defende, Michel Konakou.

Neste processo de inclusão de matérias sobre VIH-SIDA nos manuais escolares, devem ser formados os professores sobre este assunto, devem ser criados gabinetes psicopedagógicos para que seja dada continuidade.

“É necessário fazer-se o apelo às famílias, para quando o professor estiver a falar sobre sexualidade com os alunos não pensarem coisas erradas. A sexualidade é muito mais ampla do que isso. A criança informada tem muito mais capacidade de se prevenir. Quantos pais falam sobre sexualidade com os filhos? Se começarmos a falar na escola, vamos evitar muitas coisas”, defende.

Segundo o entrevistado, está-se a prever um encontro com a nova ministra da Educação, com o objectivo de mostrar esta pretensão, sendo que a situação de Covid- 19 adiou a execução. É importante esta inclusão nos manuais, pois levará a que se reduzam outras questões, como estigma ou descriminação, entre outros.

Por outro lado, disse ser necessário também que se envolva o sector privado neste combate, pois, por exemplo, não é concebível que ainda se vá a um hotel e não haja, neste local, distribuição de preservativos.

Deve existir este tipo de distribuição por fazer parte dos métodos de prevenção. Deve haver ainda, segundo Michel, ao nível dos ministérios, uma equipa de trabalho que trate de questões relacionadas com o VIH-SIDA no contacto com as comunidades por meio da sensibilização. Estas e outras acções ajudariam bastante para que tenhamos níveis baixos de novas infecções.

1º Simpósio sobre vulnerabilidade das crianças

Michel Konakou falou para o jornal OPAÍS ontem, aquando do 1º Simpósio sobre vulnerabilidade das crianças angolanas em tempo de Covid-19, organizado pela Associação Amigos da VIHDA (AAVIHDA), na Mediateca de Luanda.

O presidente da AAVIHDA, Noé Mateus, lamentou o facto de haver uma tendência de aumento de casos de violência doméstica e de abuso contra menores nesta fase, pelo que defende que tal simpósio poderá ajudar na criação de uma rede de contactos, troca de informações e ajudas para as nossas crianças.

O simpósio esteve mais voltado na reflexão sobre os direitos da criança, o modo como se trata as questões relacionadas a ela, num dia em que se assinalou o Dia Mundial contra a Tortura. Sobre este assunto, no mesmo simpósio foi contada a história da menina Abigail, de 4 anos, que foi violada e morta pelo agressor, em 2018, na Zona Verde do Benfica, em Luanda.

A Associação Amigos da VIHDA é uma organização que cuida de crianças infectadas e afectadas com o VIH-SIDA, órfãos e socialmente vulneráveis, daí que procuraram, com o simpósio, fazer um entrosamento sobre todos os aspectos que envolvem a criança. Participaram na actividade o INAC, o Ministério do Interior e o Ministério da Justiça e dos Direitos Humanos, para além da ANASO.

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