O “milagre” que uma embarcação faz no sobado de Caxarandanda

Para ida e volta da sede comunal de Mumbondo, as autoridades tradicionais e outros membros do conselho local desembolsavam três mil kwanzas, ou mais, numa viagem ascendente e descendente, pelo rio Longa, com duração de mais de uma hora por cada percurso

O soba da Cabala, um dos bairros da região de Caxarandanda, comuna de Mumbondo, município da Quiçama, em Luanda, Luís Daniel Gomes, aplaudiu de milagre a recente aquisição e disponibilidade de uma embarcação para apoiar as comunidades mais longínquas da sede comunal. 

O referido meio de transporte aquático, que tem capacidade para levar mais de 20 pessoas, vai servir, inicialmente, para facilitar a deslocação dos membros do conselho da comuna às reuniões periódicas e a outras actividades administrativas, segundo a garantia inicial que o sobado recebeu da Administração, enquanto se estuda formas de um apoio selectivo e extensivo a outros sectores da comunidade. 

Vale lembrar que os habitantes de Cabala, Aldeamento, Pau ferro e Invu são os que vivem mais distantes de Mumbondo e não têm alternativas terrestres pelo facto de a única via estar invadida por arbustos, capim alto e outros acidentes naturais que inviabilizam a circulação automóvel. 

“O administrador António Manuel Soncoca fez tudo para termos esse barco a motor atracado aí na sede para qualquer necessidade, para se evitar gastar mais dinheiro”, disse o soba Daniel Gomes, falando em nome de um conselho que integra quatro autoridades tradicionais e mais de 10 outros membros da comunidade de Caxarandanda. 

Recordou que, antes de possuírem tal apoio, ele e a sua equipa normalmente pagavam mil e 500 ou dois mil Kwanzas para cada trajecto, um preço que podia subir, em função do custo da gasolina na comuna. 

A ponte sobre o rio Longa, para ligar Cabala (Quiçama, Luanda) e Capolo (Porto Amboim, Canza- Sul) é outra luta que lhes foi anunciada pelo administrador Sondoca, a fim de proporcionar a comercialização dos produtos agrícolas cultivados na região. 

Na enventualidade de não se conseguir construir uma ponte, os líderes tradicionais de Caxarandanda gostariam de ver, no lugar da mesma uma “jangada” que facilite a passagem de pessoas e bens de um a outro lado das margens do rio Longa. 

Colaboração da comunidade ressuscitada  

O soba Daniel Gomes revelou que o empenho do administrador comunal conquistou novamente o espírito de colaboração dos habitantes de Caxarandanda que, a cada sinal de Manuel Sondoca, se mostram disponíveis para contribuir com esforços próprios, muitas vezes com recurso à natureza. 

Tal é assim que para a intenção do administrador da comuna de se construir no Aldeamento e noutros bairros de Caxarandanda um posto médico, a população decidiu erguê-lo com madeira, a fim de corresponder ao que consideram esforço do líder da comuna em lhes ter disponibilizado já o cimento para tal fim. 

“Neste caso, o posto médico pode ser feito de madeira e o chão, pavimentado com cimento, enquanto se espera por outras condições mais modernas”, realçou o soba. 

Para a efectivação desse processo, Manuel Sondoca terá ainda prometido levar tractor para poupar o esforço humano no corte e transportação da madeira, de acordo com o interlocutor de OPAÍS. 

Os sobas de Caxarandanda depositam esperança na concretização dessa promessa pelo facto de, na semana passada, o administrador ter conseguido levar e usar um meio do género (tractor) para derrubar alguns arbustos que tapavam a via, de modo a facilitar a passagem, ainda que a custo, de um carro Camaz, para fazer chegar alguns kits de apoio alimentar ao Aldeamento de Caxarandanda. 

Alívio alimentar 

Foi na Terça-feira, 23, que o administrador António Manuel Sondoca procedeu à entrega de alguns bens alimentares para a aliviar o sofrimento dos mais carentes da população de Caxarandanda. 

A oferta baseou-se em alguns sacos de farinha de milho, arroz e açúcar, bem como conservas de peixe, vegetais e outros enlatados, além de óleo, massa alimentar e bolachas. Bacias plásticas contendo já, de forma retalhada, um pouco de cada produto referenciado constaram numa série de ofertas seleccionadas para os habitantes idosos da localidade. 

“Cada soba levou três sacos de arroz, açúcar e fuba, para dividir pelos mais carentes do seu bairro, porque as bacias plásticas saíram do aldeamento já com os destinatários definidos”, detalhou o entrevistado. 

Segundo assegurou o soba, eram 20 recipientes plásticos a serem divididos por quatro bairros que compoem a região de Caxarandanda. 

Embora considere pouco para uma área com mais de 500 famílias, o porta-voz do sobado sublinhou que contou mais o gesto e o alívio nas carências, já que, noutras lideranças da comuna, poucas vezes eram lembrados quando se tratava dessas ofertas. 

Mercado em breve

“Apesar da falta de ponte, o administrador Sondoca nos deu força para organizarmos um mercado que, em todas as Quintas-feiras e Sábado facilite a população vender os produtos que cultivam e produzem com o fim de minimizar as carências”. 

A região de Caxarandanda se destaca na produção agrícola, sobretudo no cultivo de banana, feijão, dendé e gajaja, além de ser conhecida pela produção artesanal de óleo de palma, maruvu e kapuca, autênticas bebidas tradicionais. 

A pesca do bagre e cacusso é outro forte da região, que se advinha abastecer ininterruptamente o possível mercado que se quer instalado na vila ribeirinha da Cabala. 

O sabão, óleo, açúcar, vestuário, além de utensílios de cozinha constam entre as necessidades invocadas por essa população, que, de tanto clamar por água e energia eléctrica, quase desistiu de o fazer, por agora considerá-los como “impossíveis”, conforme fez questão de referir o soba Daniel Gomes, que se fia na conta perdida das promessas a esse respeito feitas por grandes dirigentes do país. 

“Quando tivermos o mercado aqui, acredito que poderemos ter também uma região forte em troca direita de produtos, porque os habitantes daqui, às vezes, ficam mesmo sem dinheiro e aceitam qualquer utensílio, roupa ou outro material que precisam na hora”, disse o soba da Cabala. 

“Presenças de Bornito e Higino não trouxeram estrada”

“Apesar de terem viajado de helicóptero a Caxarandanda, tanto o actual vice-presidente, Bornito de Sousa, como o deputado Higino Carneiro, então nas vestes de governador de Luanda, não se lembram mais de que foi por falta de estrada que usaram os meios de transporte aéreos”, ironizou o Soba Luís Daniel Gomes, para fazer entender que pensa que esses dirigentes se esqueceram do que prometeram ao seu povo. 

A ponte sobre o rio Longa, na Cabala, e a construção de uma rede de escolas que contemple o ensino primário e secundário, numa zona intermédia, ora localizada, constam, igualmente, nas garantias dadas pelos dirigentes citados pelo soba. 

“O povo criou uma grande expectativa por se tratar de duas figuras de proa do Executivo angolano”, lembrou Daniel Gomes, fazendo fé de que os dois dirigentes não tenham perdido a vontade de interceder pelo povo que um dia visitaram para constatar e resolver as suas carências. 

Finalmente, o aldeão manifestou o desalento do sobado local ao ter-se apercebido de que o administrador municipal da Quiçama não estaria em Caxarandanda na Terça-feira, 23, dia em que o líder da comuna procedeu à entrega de bens alimentares e industriais, porque o helicóptero não esteve disponível para chegar nessa região. 

“A presença de Bornito e Higino não trouxeram estrada aqui e, se até a visita do nosso administrador municipal depender de helicópteros, dificilmente haverá estrada asfaltada aqui”, desabafou. 

error: Content is protected !!