Académico considera “desmonodocência” da 5ª e 6ª classes partida para qualidade de ensino

Lando Pedro encoraja os dirigentes a materializarem a ideia, a fim de que se volte a “lapidar” as crianças antes da 4ª classe, pelo menos com a consolidação de escrita, leitura, compreensão e cálculos

O especialista em Teoria e Desenvolvimento Curricular, Lando Emanuel Ludi Pedro, aplaude o recente reconhecimento do Presidente da República segundo o qual o ensino anda mal, e a decisão da anulação da monodocência nas 5a e 6a classes, mas aconselha a passar-se do discurso para a prática, pois considera esta correcção como com um verdadeiro ponto de partida para a qualidade de educação e ensino em Angola.

De acordo com o professor universitário, a partir do momento em que as referidas classes, antes classificadas como do II nível, passaram a ter apenas um professor para leccionarem as nove disciplinas, o país fez um recuo que se reflectiu mais tarde.

“Aliás, a monodocência veio destapar as dificuldades dos nossos professores quanto aos aspectos organizativos das disciplinas e das turmas, remetendo-os a trabalho individual ou solitário”, disse o especialista, que considerou a falta de competência e domínio de muitas disciplinas destas classes como o primeiro obstáculo para um professor primário que o próprio sistema de educação o formou única e simplesmente para uma especialidade.

Lando Ludi Pedro avançou dizendo que a criança da escola primária, que consolidava as noções de conhecimentos deste nível inicial na 4a classe, passou a fazê-lo na 6a, passando, igualmente, a levar consigo as debilidades aí obtidas, muitas vezes, ajudada pelas classes de transição.

O professor passou a trabalhar de modo mais isolado, no que concerne à planificação diária da actividade lectiva, ao seu desenvolvimento em sala de aulas e ao processo de avaliação das aprendizagens dos alunos.

“O espaço, o tempo e o modo de trabalho docente tradicional ganharam a sua base de uma cultura individualista que produz um trabalho solitário”, realçou, tendo considerado que este padrão de trabalho torna a tarefa do professor invisível e possibilita a responsabilização dos mesmos pelas aprendizagens discentes.

O entrevistado disse que, trabalhando deste modo privatista, associa o trabalho a uma pedagogia de transmissão.

1ª classe com carga da iniciação

Ele recordou que a Iniciação ajuda a inserir a criança no ambiente escolar, propondo-lhe uma aprendizagem que, a partir da sua realidade própria, explora em brincadeiras, jogos, cânticos, danças, jograis e outras formas lúdicas conteúdos pedagogicamente recomendáveis.

Não é por acaso que a instrução, educação e o ensino nesta “classe” se processava ou processa mais por meio de gravuras e confrontação com o meio natural, de acordo com o entrevistado, para quem, nas escolas onde falta a Iniciação, a carga passou a ser exercida pelos professores da 1a classe.

Para ele, a Iniciação inclui o grupo que deve fazer parte do infantário, que se subdivide em dois sistemas, sendo um que alberga as crianças dos zero aos três anos e outro, desta idade aos cinco anos.

“É aí onde a criança começa a ser iniciada ou preparada para frequentar a 1a classe, por isso é que aí a transição é praticamente automática, pois se supunha que todas as crianças passassem antes pela creche”, esclareceu Lando Ludi Pedro, tendo adiantando que, não havendo, os pais são obrigados a matricular os filhos directamente na Primeira.

Lembrou dizendo que, em tempos idos, já foi por falta de capacidade financeira dos encarregados de colocar as crianças na creche e, em parte, por não ter havido muitas instituições do género que o Estado decidiu colocar a Iniciação nas escolas primárias.

Para o contexto actual, propõe a restruturação dessa componente escolar a partir da colaboração das igrejas e algumas organizações não- governamentais (ONG) viradas para o sector social e de acolhimento de crianças, enquanto o Governo vai inserindo processualmente a iniciação no currículo escolar e garantindo as condições infraestruturais para albergar o ensino pré-escolar.

“As igrejas e outros centros sociais podem ter salas para desenvolver a instrução de jardim de infância e pré-escolar, alicerçada num processo de acompanhamento e encaminhamento para as escolas primárias”, aclarou.

Chave na revisão dos manuais

Landu Ludi Pedro afirmou que o manual escolar continua a ocupar um lugar insubstituível no nosso sistema educativo, porque, em todas disciplinas do ensino primário e secundário, ainda existe uma cultura enraizada no manual, quer seja por razões económicas, culturais ou técnicas de conhecimentos.

Acha que a revisão dos manuais de ensino é um aspecto chave para a melhoria da qualidade do sistema de educação e ensino, razão pela qual esse processo que, segundo ele impõe mudanças, constitui pedra base para a efectivação do currículo nacional.

“Mas temos de ter cuidado de não fazê-lo com pressa, incorrendo no risco de termos planos de estudos com conteúdos na forma de um menu escolar que significa tão só dentro da metáfora da macdonalização do saber, o fast-food uniforme, ineficiente e de reprodução, visando desenvolver apenas dois tipos de conhecimentos: o factual e o conceptual; e dois tipos de desenvolvimento do processo cognitivo, por via dos fenómenos de lembrar e definir”, avisou.

Defendendo a tese de que o manual escolar constitui um elo essencial de qualquer corpo curricular, preocupa-lhe o facto de a sua revisão macdonalizada nos discursos políticos poder dificultar a elaboração integral.

A arqueologia do manual escolar é outra elaboração que preocupa o académico, que recomenda o alcance da coerência no processo, não apenas no âmbito do contexto discursivo presidencial, mas no contexto que lhe dá sentido, em que o manual é o artefacto que dá forma material ao modo de proceder pedagógico para a reprodução cultural.

Ao manual deve ser reconhecida a importância nos processos de descodificação e retransmissão de objectivo, através dos vários elos da cadeia que interagem o sistema, ao ponto de ser a face mais visível dos programas curriculares.

Requerida articulação horizontal e vertical

É assegurando-se nestas e noutras razões que o interlocutor de O PAÍS sublinha que a revisão e correcção do que classifica como único recurso pedagógico deve ter em conta a coerência organizativa dos capítulos, na vertente relativa, na harmonização sequencial dos conteúdos, face à construção do pensamento lógico-cognitivo da criança, ao longo do percurso.

“A adequação na vertente das relações dos níveis e subsistemas de ensino, assim como na vertente de diferentes sistemas de conhecimentos implicados no currículo ou disciplinas do saber, bem como a coerência no sentido da articulação horizontal e vertical, concretizada numa lógica de progressão do conhecimento, pois não há conhecimento e competências desligadas”, frisou.

Tendo uma importância tradicional de representar o elemento estruturante dos conteúdos a leccionar nas aulas e assumindo-se como espelho do próprio currículo, segundo avaliou o entrevistado, os professores são avaliados tendo em conta o grau de cumprimento do programa curricular da sua disciplina, através do número de páginas do manual.

“A busca de um padrão eficiente e eficaz para os manuais escolares não deve circunscrever-se na base de discursos como se não existisse um Ministério da Educação e o INIDE. A tónica da revisão não deve ignorar o que já foi feito. Deve ficar claro, desde o início, que há um risco em assumir os discursos como linhas mestras para a revisão e correcção, uma vez que elas nos induzem apenas aos compromissos ideológicos, sem querer o papel do Estado.

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