Confinamento em empresa em Benguela leva sindicato a falar em “escravatura moderna”

Mais de 400 trabalhadores acusam a empresa chinesa Guanda Pesca de os manter em cativeiro há mais de três meses nas suas instalações, na localidade da Cahota, município de Benguela. Sindicato das Pescas fala em “escravatura moderna”, ao passo que a direcção da empresa refuta as acusações a si dirigidas

Os funcionários da empresa Guanda Pesca sustentam que, desde que o país começou a viver estados de excepção constitucional, a empresa os tem sujeitado àquilo a que chamam de cárcere privado, uma vez que não lhes é permitido qualquer contacto com o exterior, estando eles limitados às 4 paredes da empresa. 

Falando sob anonimato, via telefónica, os trabalhadores esclarecem que, agravando isto, está o facto de a ementa alimentar posta à sua disposição diariamente ficar muito aquém do desejado. 

Falam de precariedade no que lhes é servido à base de peixe sardinha e pirão. Segundo denunciam, quando pedem à empresa para sair, esta se recusa categoricamente e ameaça com despedimento. 

“Fez três meses a 23 de Junho, eles não nos deixam sair, dizem que só no próximo ano. Aqui é só trabalhar, dormir, acordar e voltar a trabalhar, é muito duro. A alimentação às vezes chega a ser péssima, e somos obrigados a fazer horas extras aos domingos, recebemos 200 kwanzas por hora’’, lamentam. 

O secretário provincial do sindicato dos Trabalhadores das Pescas e Derivados, Joaquim de Sousa, que acompanha o caso, acusa a empresa de estar a praticar aquilo a que chama de “escravatura moderna”. 

“Não serem autorizados a sair da empresa para junto das suas famílias é mesmo trabalhar sob cativeiro, é pior que uma penitenciária. É mesmo uma escravatura moderna que os nossos irmãos chineses impõem, os angolanos devem obedecer tudo’’, elucida. 

Entre as empresas do ramo pesqueiro, segundo o sindicalista, a empresa em causa é a que mais processos tem no seu sindicato por alegados atropelos à legislação. 

“O que nos foi dito é que a empresa retém os trabalhadores dentro do recinto, por vivermos uma situação de calamidade pública, por causa da pandemia. E eles (direcção da empresa), para salvaguarda da saúde dos demais, não admitem que os trabalhadores saiam da empresa. Alegam ter condições criadas, tais como refeitórios, dormitórios e balneários”, explica. 

Empresa refuta as acusações  

A empresa refuta as acusações a si direccionadas, argumentando que muitas das medidas tomadas pela Guanda Pesca foram a pensar nas medidas de prevenção da Covid-19. 

De acordo com o director administrativo da empresa, Reis Augusto, é mentira que a empresa esteja a cativar os funcionários no recinto da empresa. 

O que a empresa faz, como forma de prevenção da Covid-19, no quadro de cumprimento das medidas estabelecidas pelas autoridades sanitárias, esclarece o responsável, é sujeitar os funcionários à observância de um período de isolamento mínimo de 7 a 10 dias, antes do contacto directo com outros trabalhadores. 

“Nós também entendemos que, no universo de 500 trabalhadores, haverá quem manifeste descontentamento, mas é uma média inferior a 20%. Na sua maioria, todos concordam e estão a colaborar neste sentido. Muitos aderiram de forma voluntária”, explica o responsável da unidade, que entrou em funcionamento em Julho de 2018. 

Relativamente à alimentação reclamada por trabalhadores angolanos, o responsável diz ter sido acautelada por via de uma empresa contratada para este fim, assegurando as três refeições por dia. 

Entre instituições do Estado há uma manifesta divergência. Por um lado, inspectores do trabalho, que estão ao corrente do caso, acreditam ser normal, por se tratar de medidas de prevenção da pandemia, por outro, há quem aponte os industriais chineses como sendo os que mais violam as normas vigentes em Benguela, fundamentalmente as que regulamentam pescas. 

Segundo apurou OPAÍS, o caso dos funcionários sob alegado cárcere privado está a ser investigado pelo Serviço de Investigação Criminal. 

error: Content is protected !!