O vírus da humildade

Há coisas na vida real, de adultos, de povos até, que se filmados dariam em excelentíssimas comédias. Há uns dois ou três dias ouvia pela rádio um dirigente provincial ou municipal qualquer (algumas vezes me dispenso de lhes prestar muita atenção) num discurso de líder do país mais avançado do mundo.

Era ouvi-lo para perceber a anedota do momento. Mas uma anedota séria, porque a audiência pode ser empolgada por aqueles ditos sem sentido. Então, dizia o homem, “vamos vencer a Covid, já vencemos outras batalhas” e mais blá, blá, blá. A forma como ele falava e o resto do discurso levaram-se a desligar-me daquilo, há que ocupar o cérebro com coisas mais valiosas.

Ontem, no entanto, ri-me porque me veio à memoria aquela passagem de quem tudo pode ao ler, no online da TSF, o seguinte título: “EUA compram toda a produção mundial de fármaco para combate à Covid- 19”.

Com efeito, os EUA compraram toda a produção mundial de Remdesivir para os próximos três meses. E assim que os stocks locais esgotarem, o resto do mundo não terá acesso a este medicamento. Estamos a falar do primeiro medicamento aprovado pelas autoridades de saúde norte-americanas para o novo Coronavírus.

Na verdade, e a ministra da Saúde já tinha dele falado, o medicamento serve mais para acelerar a recuperação dos doentes, o que abre vagas nas camas dos Cuidados Intensivos. Ri-me imaginando toda a cena filmada, em cinema mudo, de preferência, com o nosso valentão a prometer vencer a doença, mesmo sem ter dinheiro, mesmo sem ter poder para se impor à vontade de uma superpotência, mesmo sem ter ciência para nada e, de repente, chega o verdadeiro poderoso em tudo isso e leva vantagem. E nós, afinal, ainda pedimos doações… é preciso outra forma de actuar que deixe um pouco de lado a politiquice barata. A Covid-19 exige humildade.

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