A coisa premiada

Cada coisa é uma coisa em si mesma, antes de ser comparada; disse o homem ao outro homem, de pé os dois na parada — por isso não importa muito o que os outros pensam dela, se é negra ou amarela, direita ou recortada. Se dela tu não gostares, ninguém mais a aprecia, meu querido camarada.

O sol a pino fazia ainda maiores os calores de Julho e os companheiros de armas, desamparados de qualquer brisa, ventinho ou arzito, começavam a derreter.

— Não é bem assim, Mané, dizia o outro, o suor lhe entrando nos olhos diretamente da testa como uma descarga emergencial — Tu sabes bem que as coisas valem por si próprias e por elas mesmas e não precisam de rimas nem poemas, nem estilos de metáfora. As armas não se medem aos palmos.

Era num infernamento dos diabos, até parecia que o Deus criador esquecera todos os aquecedores ligados, que os camaradas trocavam estes acesos argumentos sobre a natureza vernáculícia da verdade adivinhada sobre a bela coisa armada de cada camarada.

— Estás na lona do discernimento Marcolinho, retorquiu ou outro que agora já sabemos que se chama Mané, com a voz bem rebaixada pela brasa da parada — Não entendes nada de nada, capixes camarada! Sem a ciência do comparado a beleza não vale nem um trocado. Para ser Deus toda a gente sabe não basta ser o senhor de todas as coisas, é preciso haver outro que lhe chame mesmo isso! Deus sem Meu Deus, adeus. Desinganazambi!

Canícula vernácula castigo. Aquelas conversas já jaziam sem sentido, mas ninguém estava disposto a bancar a velhaca. Doesse a quem doesse ninguém apontava o dedo. E mesmo em baixo da sombra paliada da tribuna até o sargento Isidoro ia perdendo o decoro, desabotoando a farda ensopada pelo suor. Era um calor maior que a devoção à Senhora da Muxima.

— Não carecia… Mané! Uma desnecessidade! Só mesmo um mano maluco se poderia lembrar de publicar as armas da companhia nos feicibú da interné.

José estava primeiro da fila, exemplo dado a todos. A coleção cibernética das coisas de toda a gente, tinha chegado aos ouvidos de Justino, o tenente, por todos mais conhecido como “Cara sem frente”, resultado da explosão infeliz que lhe custou a coisa toda, a face e o nariz.

Por causa da brincadeira de comparar o armamento, os bravos do pelotão ardiam agora ao relento. Dois dias na internet de votação transcorrida deram um castigo certo e uma vitória torcida.

A arma mais linda, mais bonita e premiada, era mesmo a que o Zézinho exibia na parada.

José Manuel Diogo

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