A comédia humana pelos olhos de Elia Suleiman

Memórias soltas que resultaram num filme. O Paraíso, provavelmente segue a lógica do que tem sido a obra espaçada do realizador palestiniano Elia Suleiman: uma colecção de fragmentos de vida ou ideias escritas em post-its amarelos dispostos simetricamente numa parede.

Vemos, a certa altura, uma imagem assim espécie de transparência do processo criativo tal como já se via no seu Intervenção Divina (2002). E parece estar tudo contido na magia desses lembretes que organizam o mundo à volta de uma personagem (quase) muda, dividida entre uma existência de observador passivo e o seu copo de arak.

Alinhando-se na estirpe de cineastas que criaram uma versão de si próprios para o grande ecrã, Elia Suleiman, 10 anos depois da sua anterior longa-metragem, O Tempo que Resta, volta a invadir o enquadramento na aparência de um Sr. Hulot com grandes olhos tristes à Buster Keaton.

Começamos por segui-lo na pacatez do dia-a-dia em Nazaré, cidade natal do realizador sexagenário, e depois a sua presença transfere-se para os centros urbanos de Paris e Nova Iorque, retornando, por fim, a casa.

Este trajecto geográfico, aparentemente desprovido de razão de ser, terá afinal um ténue fio condutor na procura de financiamento para um filme que, como lhe chegam a atirar à cara, “não é suficientemente palestiniano”. Suleiman, que carrega uma identidade e herança histórica na pele, quer agora olhar o mundo para lá do conflito israelo-árabe. E o que encontra?

Ora ruas desertas (fantasmas inopinados do nosso confinamento recente) ora acções policiais absurdas, que se misturam com as coreografias da grande comédia humana não será uma anotação menor aquele momento em que damos com o nome da antiga livraria parisiense L”Humaine Comédie a insinuar-se como letreiro por cima da cabeça do herói solitário. No título O Paraíso, provavelmente está contido o discurso humorístico do filme.

A globalização dos gestos de policiamento neoliberal faz com que as situações caricatas já não se distingam pelo seu contexto, mas respondam à simetria do cinema de Suleiman, que tanto se delicia com um desfile de esbeltas mulheres de saia curta (ao som de I Put a Spell on You), como assiste a uma parada militar. Tudo isto é o dito paraíso em que vivemos.

A fantasia, essa, surge ilustrada por uma mulher-anjo com a bandeira da Palestina pintada no peito, a percorrer o Central Park perseguida por agentes da Polícia.

É mais uma das sequências do filme que estaria num post-it com uma memória semelhante, aqui reproduzida com um toque onírico. Suleiman, “a perfect stranger”, cidadão do mundo, só usa a voz uma vez para responder à curiosidade de um taxista afro-americano que lhe pergunta de onde vem.

“Nazaré” e “palestiniano” são as únicas palavras que lhe saem da boca ao longo de toda a fita, como que a assinalar a melancolia discreta do flâneur estrangeiro ou do ser exótico de B.I. não autorizado.

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