Que importância tem realmente o movimento “Black Lives Matter”?

Na minha memória de observador da história das lutas pelos direitos civis dos Negros, não me lembro bem de um momento como o que estamos a viver agora com o movimento “Black Lives Matter” (BLM). As abolições da escravatura, que ocorreram em momentos diferentes, graças às lutas determinadas e geracionais de Africanos escravizados, não geraram tal adesão ou uma revolta mundial multi-racial, associada a uma tomada de consciência visível nos países ocidentais. Por exemplo, a escravatura no mundo árabe não foi realmente afectada por essas abolições.

Também creio que as guerras pelas independências não mobilizaram tanto. Além da retumbante Conferência de Bandung (realizada na Indonésia entre 18 de Abril de 1955 e 24 de Abril de 1955), no fim da qual os representantes de vinte e nove países recém descolonizados da África, Ásia e do Médio Oriente decidiram a política de não alinhamento com nenhum dos dois blocos da Guerra Fria (Estados Unidos x URSS), não houve realmente uma tomada de consciência popular mundial contra a colonização.

Essa falta de mobilização popular até permitiu que Salazar, o ditador fascista português, mentisse para a ONU durante décadas, remendando várias estratégias para evitar a descolonização.

O seu país até teve tempo de esvaziar as suas prisões para despejar todos os seus criminosos nas colónias africanas, dando-lhes uma instrução clara: copular com mulheres negras para permitir que Portugal usasse esse simulacro de colonização suave e pacífica e, portanto, supostamente mais bela que as outras, para não descolonizar.

Os movimentos de descolonização não tiveram o impacto do “Black Lives Matter”. E mesmo que a luta contra o Apartheid e a mobilização para a libertação de Mandela tenham mobilizado muita gente pelo mundo, especialmente no Ocidente, também estávamos longe de uma revolução.

Até diria que era uma boa maneira de comprar uma boa consciência e de afirmar que não éramos racistas. Já que podíamos dizer como hoje “eu não sou racista! “, da mesma maneira que um homem nascido num mundo machista, como o nosso, diria sem pestanejar: “Não sou machista, sei disso!”, porque só ele sabe como fez para não o ser e como a voz da mulher, a vítima que sabe melhor, não conta. Obama também mobilizou amplamente a nível internacional pela utopia de um mundo pós-racial, esboçado, apesar de tudo, pelo espectro de um primeiro presidente negro nos Estados Unidos, que ele incarnou bem durante a sua primeira campanha para a eleição presidencial de 2008.

Mas, novamente, foi apenas uma ideia “cool”de ser pró-Obama e nada mais. Aliás, foi muito bom que ele era candidato nos Estados Unidos, porque a mudança é bem-vinda, desde que esteja longe do nosso país. Contentou-se então em fabricar nos outros países ocidentais alguns anúncios cosméticos e de marketing que mascaravam mal a hipocrisia e o medo. E mesmo assim, queriam afirmar que não eram racistas, que eram generosos e que estavam também abertos à diversidade. Portanto, Obama foi outro simulacro, apesar da força do símbolo que ele ainda representa.

O BLM é único e inédito no seu género. Mobilizou os quatro cantos do mundo em uníssono para propor uma luta contra o racismo que os negros sofrem por toda a parte. Soube capitalizar sobre todas as lutas anteriores e criar outra narrativa de luta adaptada ao século XXI. É, portanto, o primeiro movimento a ser capaz de oferecer verdadeiras promessas de esperança na luta contra o racismo e a saber estabelecer que não ser racista já não é suficiente, que se deve agir contra o racismo.

George Floyd foi o catalisador mundial do movimento, mas este começou em 2013 com a absolvição do caso de George Zimmerman, o assassino branco do adolescente afro-americano de 17 anos Trayvon Martin em Fevereiro de 2012 em Sanford, Flórida. Esse caso marcou o início de uma longa série de assassinatos de Afro-americanos nos Estados Unidos.

A mulher negra sempre esteve na vanguarda de todas as nossas lutas, mas as culturas religiosas estrangeiras que nos foram impostas o cristianismo e o islamismo em primeiro lugar sempre minimizaram o seu lugar no pódio da glória e do reconhecimento. O movimento “Black Lives Matter”, impulsionado por três mulheres negras, também pretende remediar esse erro.

Primeiro, foi Alicia Garza, uma activista negra americana, que em 13 de Julho de 2013 publicou na sua página Facebook um texto sobre a absolvição de Zimmerman e que terminava da forma seguinte: “Black people. I love you. I love us. Our lives matter”(Povo negro. Amo-te. Amo-nos. As nossas vidas importam).

Outra mulher americana, Patrisse Cullors, respondeu-lhe escrevendo o seguinte: “Black Lives Matter” e o hashtag #BlackLives Matter nasceu aí. Mas o movimento tomou a sua forma militante com a chegada de Opal Tometi, outra mulher americana de origem nigeriana e líder de outro grupo de direitos dos imigrantes, que trouxe a sua experiência do campo. Foi assim que o BLM passou de um hashtag, usado nas redes sociais desde 2013, a um movimento planetário oficial de defesa dos direitos civis, desde 2015. E tem, desde então, denunciado casos de assassinatos de negros.

Se o BLM se descreve como um movimento de “intervenção política e ideológica num mundo em que os Negros são sistematicamente os alvos da morte”, representa muito mais do que isso. O movimento tornou possível distinguir as noções de não-racismo e anti-racismo. O primeiro é um refúgio passivo e geralmente hipócrita, o segundo é activo e engajado na acção. Se antes os brancos de todo o mundo costumavam dizer a torto e a direito que não eram racistas, agora têm que o provar. Devem, acima de tudo, aceitar aprender com as vítimas o que é racismo, porque cabe à vítima expressar o seu sofrimento e não o contrário.

O BLM, portanto, permite que os negros se reapropriem a sua história, que era uma prerrogativa dos brancos. Quer desconstruir a narrativa da dominação branca questionando-a com impetuosidade e humanidade. A intenção é educar os negros de todo o mundo que têm um desejo partilhado de justiça para agirem juntos contra a supremacia branca. É, portanto, um movimento de afirmação da humanidade dos negros, dos seus contributos no mundo e da sua resistência diante de uma opressão assassina que os domina há séculos.

Em suma, trata-se de um movimento que veio criticar o conceito de Branco e Preto, inventado pelos brancos para estabelecer a sua supremacia. Por exemplo, graças ao BLM, os brancos começam, finalmente, a entender que o seu progresso não se deve apenas ao seu génio. Também têm percebido que o seu olhar sobre o Negro é fruto da herança da escravatura e do colonialismo. Começam a entender que o que chamam de “comunitarismo” entre pessoas não-brancas é o que sempre fizeram entre eles há séculos; nas escolas, na administração, nas empresas e nas suas relações com países não-brancos.

Finalmente, entendem que o medo ou choque que os encontros ou as reuniões entre negros criam neles e a estigmatização que suscitam é simplesmente o vestígio da escravatura e do colonialismo, que impediam encontros entre negros. Enquanto isso, as reuniões entre brancos sempre foram normalizadas e isso não os surpreende. Então entenderam que isso é chamado de “Privilégio Branco”.

O BLM já começou a dar frutos, falaremos sobre isso novamente. E espero que os Negros de todo o mundo, inclusive nos países árabes, possam finalmente libertar-se, para criar uma humanidade maior com a grande comunidade humana. E quando em Angola entendermos mais profundamente o que está a acontecer, o Primeiro-ministro de Portugal não usará mais calças jeans quando ele for lá em viagem oficial.

E os Assimilados e lusotropicalistas, que estão pouco a pouco a emergir do seu sonho de assimilação lusitana, porque já começaram a entender (até que enfim!) em que lado da história devem estar, continuarão a defender as nossas línguas nacionais com maior sinceridade, como fazem alegremente com a sua língua preferida: o Português.

Ricardo Vita

Pan-africanista, afro-optimista radicado em Paris, França.

Colunista do diário Público (Portugal), cofundador do instituto

République et Diversité que promove a diversidade em França e é empresário.

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