Saúde- dos cuidados primários aos cuidados intensivos

Dos Cuidados Primários de Saúde até aos Cuidados Intensivos, pode, para alguns, ser a sequência que sintetiza o seu itinerário de vida … e de morte. Mas antes desta eminência trágica que é a morte, há que pensar na vida, e nos cuidados de Saúde que permitiram o bem-estar. 

O SISTEMA MUNICPAL DE SAÚDE 

Postos e Centros de Saúde. Numa família, os problemas triviais de Saúde, febre, tosses, constipações, diarreias, dores moderadas, podem ser resolvidos próximos de sua casa, num Posto ou Centro de Saúde com enfermeiros ou médicos, talvez com um laboratório básico. As crianças serão aí vacinadas e o seu crescimento, e estado nutricional avaliados através de curvas de crescimento. A mãe, cuja gravidez foi confirmada ali ou noutra instituição, pode ter o seu estado monitorizado mensalmente, com exame da urina e medida da Tensão Arterial e do crescimento do feto. O Centro pode organizar- se para fazer partos seguros. 

Os doentes crónicos, diagnosticados no Hospital e que sofrem de Tuberculose, Imunodeficiência, Hipertensão ou Diabetes, poderão ser monitorizados e receber a sua medicação. Faltam menos e cumprem a medicação: o centro está próximo das suas casas. 

O Hospital Municipal (HM) 

Por vezes a febre não passa, a dor é mais forte, ou a enfermeira ou auxiliar de Saúde, devidamente treinadas, detectam sinais que podem ser de gravidade. Então os doentes são referidos ao Hospital Municipal. 

Tipicamente, este é uma unidade de 100-120 camas, com 4 serviços básicos (Medicina, Obstetrícia e Ginecologia, Pediatra e Cirurgia/Ortopedia), um laboratório, um sector de Imagiologia, uma Farmácia e uma área de Urgência, Transfusão e Reanimação. 

O HM está preparado para fazer Cirurgia Geral electiva (ex.: hérnias de vários tipos) e de Urgência (ex. apendicectomia), cesarianas, tratamento de fracturas e tratamento de infecções graves (ex.: Pneumonia, Meningite, Osteomielite). 

Segundo o mais lido semanário mundial de Medicina, o New England Journal of Medicine (Janeiro de 2020): “Os Hospitais Municipais devem ser reconhecidos como uma peça crucial do puzzle dos Cuidados primários, servindo ao mesmo tempo como uma plataforma para os programas verticais de tratamento e como o centro duma rede robusta de agentes comunitários e dos níveis de cuidados de primeiro nível…” 

Se houver uma boa implantação e fácil acesso dos HM este são as estruturas, que com maior economia e eficiência de gestão resolvem duma forma multidisciplinar os problemas materno-infantis, em lugar da actual tendência de criar instituições especiais para mães e crianças. 

ESTIMA-SE QUE O SISTEMA MUNICIPAL DE SAÚDE, CONSTITUIDO PELO HOSPITAL E OS POSTOS E CENTROS DE SAÚDE QUE LHE SÃO SATÉLITES, COM BAIXOS ORÇAMENTOS DE INVESTIMENTO E MANUTENÇÃO, RESOLVEM CERCA DE 70-80 % DOS PROBLEMAS DE SAÚDE DA POPULAÇÃO 

HOSPITAIS PROVINCIAIS (HP) 

Para problemas mais específicos de Saúde organizam-se os HP, também chamados Hospitais Gerais, que agregam àquelas 4 áreas básicas outros serviços cirúrgicos como Oftalmologia, ORL, Ortopedia e médicos como a Cardiologia, Gastroenterologia, Neurologia, Nefrologia e Psiquiatra. 

Tipicamente são hospitais de 250 camas que possuem equipamentos de diagnóstico mais aperfeiçoados e são a referência de dois ou três Hospitais Municipais da sua Zona. Podem estar ligados a uma Faculdade de Medicina e devem ocupa-se de investigação científica. 

ESTIMA-SE QUE A NÍVEL DOS HP PODEM RESOLVER 15-20% DOS PROBLEMAS DE SAÚDE DA COMUNIDADE HOSPITAIS NACIONAIS 

Situados na capital do país ou de algumas províncias, estes hospitais devem ter as especialidades dos Hospitais a montante, para efeitos de formação de quadros e ainda outras sub-especialidades de que constituirão a referência nacional (Oncologia, Neurocirurgia, Cirurgia Cardiovascular, Cirurgia Maxilo-Facail, Endocrinologia, etc.) 

Estarão ligados à Faculdade de Medicina e a Centros de Pós-Graduação, e deverão ter um sector importante de investigação. 

ESTIMA-SE QUE ESTES HOSPITAIS RESOLVAM 5-10% DOS PROBLEMAS MÉDICOS PREVALENTES NA COMUNIDADE CUIDADOS INTENSIVOS 

Nos Hospitais a partir do nível municipal é importante começar por fazer aos doentes que a eles acorrem uma triagem que identifique os doentes graves, que são priorizados, reanimados se necessário, e colocados numa sala de observação especial. 

Se o estado do doente permanecer crítico, em hospitais com grande afluxo de doentes deste tipo, como o Hospital Pediátrico de Luanda, criam-se enfermarias designadas de Cuidados Intermédios, em que se procura concentrar mais recursos humanos e materiais para permitir um melhor nível de assistência. 

A abordagem dita de Cuidados Intensivos, implica uma ainda maior concentração de recursos, o uso de equipamento de suporte vital como os ventiladores. Rigorosamente, deve haver uma enfermeira por cada cama intensiva, de forma que, se tivermos 10 camas intensivas com 4 turnos de enfermeiras, precisaremos de 40 profissionais – o correspondente ao efectivo para 100 camas duma enfermaria geral. 

Por esta razão não tinha sido até agora criado um sector de Cuidados Intensivos no HPL, havia sim, 3 enfermarias de Cuidados Intermédios 

EM CONCLUSÃO 

  • 70-80% dos problemas de Saúde da população podem ser resolvidospelo sistema Municipalde Saúde 
  • Como não é reservada a nível do orçamento do MINSA uma verba proporcional para execução destes Cuidados, os problemas não resolvidos agravam- se e passam para o nível seguinte, provincial ou nacional: os resultados são piores, o sofrimento humano aumenta,contudo,a despesa é maior; 
  • Nestas unidades, que se confrontam com situações que se tornaram mais complexas, a tendência para uso de tecnologias mais caras e uma abordagem de Cuidados Intensivos é apresentada junto dos governantes como umaprioridade.Desviam-se as verbas para este nível, que vão faltar no nível primário, fechando- se o ciclo vicioso. 
  • Um sistema de Saúde que priorize os grandes hospitais da capital é muito mais oneroso e tem menos impacto nos níveis gerais de Saúde.

SE PRIORIZARMOS OS CUIDADOS PRIMÁRIOS TEREMOS MENOS NECESSIDADE DE CUIDADOS INTENSIVOS. 

Luis Bernardino

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