“Em 45 anos de Independência não se fez nada no sentido da identidade musical angolana, o ‘kudurismo’ ocupou o espaço”

Quem o afirma é o músico e compositor Tonito Fortunato durante a emissão do programa “Menha Ndungo” da Rádio Mais

O músico e compositor António Pascoal Fortunato “Tonito” afirmou no último Sábado (4), durante 74ª edição do programa “Menha Ndungo”, da Rádio Mais, que depois da Independência Nacional não houve uma administração cultural no sentido do resgate da identidade nacional.

“Parece-me que a nossa identidade musical estava melhor na era colonial”, começou por dizer o músico angolano, justificando que houve uma altura em que a administração colonial ficou mais receptiva à identidade musical angolana e nesta altura era mais valorizada do que nos dias de hoje.

O músico, que atravessou todo o período da música popular urbana angolana, sugere, para o resgate dessa identidade musical, a participação de estudiosos na matéria, entre os quais etnólogos e antropólogos.

Estes devem olhar para as culturas Ambundu, Bakongo, Nganguela ,  Cokwe e outras, é fundamental. Pois, para António Fortunato “Tonito” o país precisa de um projecto que vise o resgate da identidade musical angolana.

“Eu sinto que não se fez nada ou quase nada no sentido da identidade musical angolana, principalmente nos trinta e oito anos do do fulano em que se deu grande visibilidade, parece que o ‘Kudurismo’ ocupou o espaço musical angolano”, lamentou o músico e compositor.

O autor de “Monangambe” referiu ainda que em 45 anos de Independência houve ausência de uma cultural que cuidasse da identidade e do interesse nacional e lamenta que a prioridade foi dada ao entretenimento e ao que chamou de “Kudurismo”.

“O Kuduro não tem a ver com a nossa identidade Musical, mas foi a prioridade nos últimos 38 anos”, desabafou o artista, com semblante que demonstrava estar agastado e melancólico com o esse facto.

Defesa do Património em quatro eixos

Ainda de acordo com Tonito Fortunato, a “defesa do património da música angolana”, deve basear-se em quatro eixos fundamentais, designadamente a divulgação da expressão identitária; a promoção da formação no domínio musical; valorização do património musical e o fomento da produção, bem como a cooperação entre os vários grupos étnicos no país.

Para si, a realidade angolana é baseada em duas vertentes diferentes na música: uma tem a ver com a influência da música que vem do estrangeiro e outra que prende-se com a não divulgação da música identitária.

Marginalização

O músico, compositor, letrista e cantor disse ainda que se sente marginalizado porque foi afastado, uma vez que, segundo fez referência, priorizaram-se outros estilos musicais nas rádios do país.

“Houve aí qualquer coisa que priorizou o kudurismo e marginalizou os músicos que vinham da época da luta pela Independência. Há muitos músicos que desapareceram por essa razão”, voltou a desabafar o experiente cantor.

O programa

Durante a emissão do programa “Menha Ndungo” que teve a duração de duas horas, Tonito esteve ao lado do Duo Canhoto a interpretar algumas canções do seu primeiro álbum de originais, intitulado “Mafumeira”.

De salientar que “Menha Ndungo” é o nome de um prato típico da região Ambundu que significa “água com jindungo”. A sua confecção é feita essencialmente na base de água, peixe cacusso seco ou bagre seco, azeite e cebola, acompanhada com batata doce cozida ou banana pão.

Foi a partir deste prato típico desta região que nasceu o nome de um projecto que tem como principal objectivo a recolha da música popular urbana angolana do passado e a sua relação com o presente, sendo que a música  é uma das mais importantes manifestações da cultura de Angola.

O convidado

António Pascoal Fortunato (Tonito) é natural de Icolo e Bengo, na zona de Kakulo Kazongo. É autor de um dos clássicos da música popular angolana, “Monangambé”, e considerado dos mais importantes compositores da sua geração pela dimensão metafórica e pela grandeza das suas canções.

Tido como um compositor de cariz antológico, Tonito Fortunato faz parte da plêiade de músicos angolanos que construíram a visão da música angolana moderna. É várias vezes referenciado por aqueles que partilharam momentos da sua carreira musical como “um dos mais inspirados compositores angolanos de sempre”, pelo alcance metafórico e pela grandeza melódica das canções que criou, algumas das quais constituem clássicos do cancioneiro angolano.

Foi vocalista do célebre grupo musical angolano “Ngola Ritmos” e escreveu canções em parceria com Liceu Vieira Dias, Euclides de Fontes Pereira (Fontinhas) e Catarino Bárber. Musicou poemas de Agostinho Neto, Jofre Rocha e Manuel Alegre, respectivamente, “Caminho do Mato”, “O Engraxador”, “Menino Triste” e “Trova ao Vento que Passa”. São da sua autoria as canções que compõem a trilha sonora da peça teatral “História de Angola” de 1976.

Hilário João 

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