Paulo jazz, um artista eclético e virtuoso

O largo José Pirão (Zé Pirão), em Luanda, é famoso. Está, como eixo-viário, num dos centros mais movimentados da capital. Entrecruza a Rua Rei Katyavala, a Avenida Brasil e a Avenida Ho Chi Minh. Converge com a rampa de entrada à Alameda Manuel Van-Dunem.

Faz cordão com os limítrofes do Bairro Maculusso, Bairro Comandante Valódia e Bairro da Vila-Alice. Entre os anos 80 e 90, o Zé Pirão tinha o seu ex-libris: O edifício baptizado com o nome homónimo, exibia, imponente e poderoso, o mural da U.N.T.A (União Nacional dos Trabalhadores Angolanos), uma confederação sindical que se batia pelos direitos dos trabalhadores, tendo grande expressão nas referidas décadas.

Imponente e poderoso, estava lá, desenhado no prédio do Zé Pirão, o mural de grande expressão, dando voz aos trabalhadores injustiçados. Não se podia falar do Zé Pirão sem relacionar o largo à imponente imagem da U.N.T.A. Estava ali um estandarte da luta pela justiça no trabalho, o ex-libris. Como a chuva e o sol faziam desfalecer os traços pictóricos, passavam, sempre que possível, especialistas trabalhando sobre andaimes para reavivar as cores da luta e do trabalho: punhos cerrados, mãos calosas, martelos, enxadas, máquinas industriais e mulheres costureiras numa fábrica têxtil.

Em Setembro de 1991, numa entrevista à extinta Revista África, ele mesmo dá testemunho de si: “Pinto a resistência contra todas as guerras”.

Mas quem era o génio que pintara aquele mural, da defesa da justiça e da igualdade no trabalho?
Quem era o artista plástico revolucionário que dava voz a milhares de anónimos que, com o braço e o cérebro, faziam movimentar a economia nacional? Quem era o autor do ex-libris, que dava cor, harmonia e tom festivo, do Zé Pirão à Avenida Brasil? Que reputação tinha o artista que, no seu traço pictórico de inesperadas combinações cromáticas, se fazia permanente numa das zonas mais movimentadas da cidade de Luanda? Como pode o prazer sensorial da pintura de um mural estimular, intelectualmente, uma geração que se identifica na força e no talento do mestre? Que artista é este que faz perdurar a sua obra no espaço, no tempo e no imaginário de várias gerações? Este artista chama-se Paulo Jazz, um pintor eclético e virtuoso.

Paulo Jazz, nome artístico de José Paulo Esteves nasceu em Luanda, em 1957. É pintor e desenhista de referência em Angola, na esfera da CPLP e no continente africano. Fez o “Curso de Cor e Forma” pela Escola Superior de Belas Artes de Estocolmo, Suécia, em 1983, no âmbito da Cooperação Cultural entre a Suécia e a antiga República Popular de Angola. É cofundador da União Nacional dos Artistas Plásticos (UNAP).

Destaca-se por ser detentor de vários prémios, dentre os quais o de artes plásticas do Centro Internacional das Civilizações Bantu (CICIBA), em 1987.

Em 1992, participou na Expo Universal de Sevilha, em Espanha, com grande destaque. Seguiram-se outras exposições internacionais, nomeadamente no Museu das Artes de Óbidos, Portugal, no Brasil e no Museu Josef Broz Tito, na Jugoslávia.

Os seus trabalhos são também conhecidos nos Estados Unidos da América, em Londres e em muitos outros países. Participou de exposições colectivas com artistas de referência tais como Eleutério Sanches, António Ole e o pintor moçambicano, Malangatana.

As suas obras encontram-se espalhadas em Colecções Particulares, Galerias e Museus de África, Europa, Ásia, América do Sul e América do Norte. Em 2016 celebrou os seus 50 anos de pintura.

João Papelo

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