Acho que já vivi isso: Luanda e metro por superfície

Devemos suspeitar dos grandes projectos, das grandes intenções, das fases dos projectos. As últimas duas décadas do nosso século comportam exemplos nas mais diversas áreas. Talvez o conhecimento da realidade de quem gere as receitas e projectos públicos, seja realmente diferente do conhecimento de que é gerido: o povo.

Talvez não tenhamos apreendido o suficiente com actos do passado. Talvez a lógica de que os objectivos de quem gere e de que é gerido são diferentes, seja uma realidade também ao nível da gestão das receitas e projectos de investimentos públicos.

Talvez estejamos a construir outros novos procedimentos, novas metodologias, novos modos de ser e estar, cujos argumentos de razão não sejam suficientemente capazes de nutrir a nossa crença.

Talvez a não responsabilização de quem faz opinião, de quem justifica, de quem dissemina as intenções e projectos, seja um mal a ser “cavado”.

Talvez muitos de nós possamos estar equivocados, mas, como a prática social é o critério da verdade, levamos a suspeitar profundamente de determinadas opções, principalmente as opções de grandiosos projectos e ou intenções.

Por que teimar no metro de superfície numa cidade com elevados problemas de distribuição fornecimento regular de energia eléctrica? De fraca cultura de prestação de serviços? Com inúmeras questões sociais imediatas por se resolver?

Por que insistir no metro de superfície numa cidade que precisa de resolver de forma imediata a multiplicidade de constrangimentos que os nossos irmãos angolanos enfrentam todos os dias para se locomover?

Por que insistir no metro por superfície numa cidade em que se conhece os horários, dias, e rotas de elevado constrangimento rodoviário?

Por que insistir num metro por superfície, que acarreta consigo previsíveis e enormes ameaças, constrangimentos de execução e concretização a tempo certo? Por quê?

É verdade que as medidas com efeitos de longo prazo têm sido as mais aconselhadas na grande maioria dos projectos e ou investimentos. Entretanto, elas devem conviver com medidas e ou projectos de curto prazo.

O cenário mundial que a que estamos sujeitos na actualidade (Covid-19) é um bom exemplo da necessidade de convivência harmoniosa de investimentos em projectos e ou acções de curto e longo prazos.

Imagino que quando decidimos vender o nosso automóvel já velhinho para adquirir um novo e melhor, certamente acautelamos a nossa locomoção sem grandes constrangimentos desde o período de venda ao da aquisição do novo veículo.

As acções de implementação de curto prazo e principalmente em economias como a nossa, que ambiciona sua formalidade, podem apresentar-se como óptimas para a diminuição de dualidade de questões concretas de quem governa e de quem é governado, muitas delas, diárias.

Segundo o INE (2014) apenas 40% da população angolana com mais de 15 anos actua no mercado formal. No entanto, as inúmeras notícias de aviso e ou de concretização de despedimentos dos últimos meses (Banco BPC; EKA; LUANDINA…) levam-nos a suspeitar que nos próximos tempos esta percentagem seja muito menor.

Além de aliviarem diversas carências, certamente contribuem para um elemento que muito negligenciamos, mas de grande importância para o progresso do país: a circulação monetária massiva na economia formal, com grande ênfase para as transações electrónicas.

O que penso e o defendo em relação ao deveria ser feito? Concursos públicos para a exploração de serviços de transportes colectivos segmentados por municípios e ou rotas na cidade de Luanda, devidamente definidas, cujo preço da passagem pudesse ser definido juntamente com o departamento ministerial respectivo, alinhado ao poder de compra real da grande maioria das famílias, podendo as empresas vencedoras destes concursos, beneficiarem de algum tipo de alívio fiscal.

Segundo o INE (2018) 59% do total de empresas registadas em Angola estão em Luanda. Certamente é mais rápido e prático, definir as rotas e municípios, organizar e finalizar o concurso, definir o preço da passagem, colocar os transportes a funcionar, além do maior número e abrangência de angolanos que poderá beneficiar no curto prazo, do que apostar isoladamente na operacionalização do metrô por superfície, com resultados não tão abrangentes a longo prazo.

João Demba

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