E a vida de zungueira vale?

Uma mulher, mãe, zungueira, foi agredida por quatro brutamontes que envergavam a farda de fiscais da Administração Municipal do Lubango. Eram a autoridade do Estado naquele momento. Era o Estado a agredir mulheres a socos e pontapés, tendo uma delas ido parar inconsciente ao hospital e necessitado de intervenção cirúrgica urgente. Tinha sofrido ferimentos internos.

Como quase sempre, foi necessário o recurso à comunicação social para que os seus familiares fossem ouvidos. Um dos agressores foi detido.

Que alguns fiscais agem como bandidos, isso já se sabia, as queixas são mais do que muitas. Que o Estado às vezes assobia para o lado, também já se sabia, ou os abusos não se repetiriam com tanta frequência.

Que mulheres vão à zunga por necessidade, para a sobrevivência das suas famílias, isso também tem de ser sabido, está estudado. E que tudo isto apenas se alterará com o efeito de boas políticas públicas e melhor distribuição da riqueza, também as mães todas sabem. Mas há uma coisa que não entendo neste caso particular.

O que não entendo é o silêncio quase absoluto da chamada sociedade civil. Não me venham com a conversa da Covid-19.

O mundo inteiro mandou as “covides” todas às urtigas e levantou-se para protestar contra a morte de George Floyd pela Polícia norte-americana. O que se passa com os activistas dos direitos humanos em Angola? Tomaram o quê? lhes deram o quê para tanto silêncio? É só por não ter acontecido em Luanda o espancamento? tal como foi no caso da kitandeira morta em Caluquembe?

O Governo pode desenhar as políticas que desenhar e o SIC pode até ir detendo alguns dos abusadores, mas a sociedade deve ajudar mostrando que tais coisas simplesmente não podem acontecer.

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