Os crimes de Leopoldo II no Congo ontem, e o arrependimento na Bélgica hoje

Enquanto os fascistas em Portugal organizavam marchas na Avenida da Liberdade, em Lisboa, para afirmar que o seu país não é racista, na Bélgica há “profundos arrependimentos” pelo seu passado colonial no Congo (actual RDC), que matou 10 milhões de pessoas.

E mesmo quando um estudo europeu sério constata que 62% dos Portugueses manifestam racismo biológico e cultural, a negação e a arrogância permanecem intactas e a resistência ao movimento Black Lives Matter (BLM) é feroz.

Mas os “mais profundos arrependimentos” expressos por Filipe da Bélgica, “pelas ofensas, sofrimentos e humilhações” infligidos aos Congoleses, pela formidável operação de roubo e exploração violenta organizada durante o reinado de Leopoldo II, são a consequência directa do BLM.

Como escrevi no artigo anterior, esse movimento soube propor uma nova narrativa para combater o racismo e se mobilizar além das raças. Obviamente, o envolvimento da nova geração de brancos em países mais desenvolvidos que Portugal tem algo a ver com a mudança de retórica.

É uma geração mais aberta ao mundo e com consciência suficiente para fazer uma leitura crítica de toda a sua história; que inclui escravatura, colonização e presença de símbolos coloniais e esclavagistas em espaços públicos. E o próprio facto de que a princesa Maria Esmeralda da Bélgica, filha do rei Leopoldo III e bisneta de Leopoldo II (da linhagem de seu sobrinho Alberto I que o sucedeu ao trono), se exprimiu na televisão belga a favor do pedido de perdão do seu país ao Congo, sem dúvida, fez o actual Rei e o Governo entenderem a importância dessa tomada de posição hoje.

A princesa, que vive em Londres, também reconheceu, nessa entrevista de 12 de Junho de 2020, transmitida pela RTBF, “que ter estátuas de colonizadores e, no caso de Leopoldo II, faz parte da hegemonia branca. Todo o espaço público está cheio de nossas estátuas, nossos colonizadores, nossos traficantes de escravos, por exemplo, no Reino Unido. Para as minorias (vítimas), é algo muito doloroso, porque não há contrapartida, não há monumentos para os escravos, para os colonizados”.

Portanto, ela sugeriu que o seu país aproveitasse a ocasião do sexagésimo aniversário da Independência do Congo para pedir desculpas pelas atrocidades infligidas pela Bélgica. E foi exactamente isso que o rei Filipe fez numa carta dirigida ao Presidente congolês, Félix Tshisekedi, na ocasião do aniversário da Independência do seu país, que foi comemorado no passado dia 30 de Junho.

A princesa belga acrescentou que “este é um assunto muito delicado e não deveria ser. De facto, nunca tivemos essa conversa, essa educação que é tão essencial para entender o passado e entender o racismo hoje”. O sobrinho Filipe, o rei actual, seguiu o conselho da sua tia Maria Esmeralda para escrever essas palavras de contrição na sua carta:

“Devemos poder falar sobre a nossa longa história comum em toda a verdade e toda a serenidade”.

“Gostaria de expressar os meus mais profundos arrependimentos por essas ofensas do passado, cuja dor hoje é reacendida pela discriminação ainda presente demais nas nossas sociedades”.

Esta carta oficial foi escrita com o Governo. Pois, de acordo com a Constituição, o Rei dos Belgas não é soberano e não tem o direito de falar sem a aprovação do Governo.

Mas o que fez realmente aos Congoleses Leopoldo II, o antepassado da princesa Maria Esmeralda e do rei Filipe? Leopoldo II nasceu em 1835 e ascendeu ao trono em 1865, é o segundo Rei dos Belgas.

Também é o soberano belga com o reinado mais longo (44 anos). A história do Congo colonizado está ligada à do rei Leopoldo II, que o tornou sua colónia privada, o Estado Independente do Congo (EIC), de 1885 a 15 de Novembro de 1908, quando a Bélgica assumiu o território. Foi-lhe dado a título pessoal em 1885, após a conferência de Berlim.

Antes de subir ao trono, Leopoldo II já era um defensor da colonização da África, da qual desejava lucrar pessoalmente. Uma vez coroado, enviou o agente Stanley para ocupar e explorar o território antes da chegada do Francês Savorgnan de Brazza que temia.

O rei desenvolveu a exploração intensiva da borracha, que na altura oferecia grandes oportunidades de negócio por causa do boom da indústria automóvel. Manteve no Congo um sistema de exploração combinado com outros factores, como o racismo, que levou toda uma série de agentes europeus a um mecanismo de violência, a fim de aumentar a colheita de borracha.

Havia, portanto, tomada de reféns, espancamentos, mutilações (especialmente de mãos), incêndios de aldeias, massacres. A maneira como ele tratava os nativos (escravizados sem comida, mutilados, massacrados) foi tão violenta que a opinião pública internacional foi alertada, principalmente pelo escritor britânico Conan Doyle.

E uma comissão internacional de inquérito foi criada em 1905 para investigar o que se tornara um verdadeiro genocídio. As conclusões da comissão não foram favoráveis ao soberano, que foi forçado a ceder o Congo à Bélgica em 1908. “Muitos de nós na Inglaterra consideramos o crime que foi cometido em terras congolesas pelo rei Leopoldo da Bélgica e os seus seguidores como o maior crime já classificado nos anais da humanidade.
Pessoalmente, concordo plenamente”, disse Doyle.

Hoje, não há dúvida sobre os horrores que ocorreram no Congo e o escritor americano Mark Twain falou de 10 milhões de vítimas nos crimes cometidos sob Leopoldo II. Tudo isso contribuiu, certamente, para a consciencialização e lucidez da princesa Maria Esmeralda da Bélgica para ela afirmar o seguinte: “Para combater o racismo, há um trabalho profundo a ser feito, porque o racismo é estrutural. Temos que nos livrar disso em todas as nossas instituições. Há também um racismo subtil, que está na cultura, na media, na maneira como falamos de minorias (vítimas)”.

E quando Portugal subir a este nível de grandeza, também estaremos satisfeitos, é a boa altitude.

Ricardo Vita
Pan-africanista, afro-optimista radicado em Paris, França

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