Fazendeiros do Bié queixam-se de dificuldades

Os fazendeiros da província do Bié garantem que, se lhes forem asseguradas melhores estradas, podem produzir “à grande escala” e responder de forma positiva ao fornecimento de produtos da cesta básica

O Bié, com uma população estimada em dois milhões de habitantes, possui 431 fazendas, com o município do Cuito a deter o número record de 172, seguindo-se-lhe Catabola (79), Camacupa (49), Chinguar (41), Chitembo (35), Andulo (28), Cunhinga (19), Nhârea (5) e Cuemba (2).

A meio deste leque de centenas de fazendas, as férteis terras bienas contam ainda com uma firma ostentando a categoria de grande fazenda agro-industrial, desta feita em Camacupa. Com este rico património no sector está segura de poder produzir alimentação para Angola inteira, o que não seria uma novidade atendendo que no passado recente (época colonial) era verdadeiramente um colosso com alguma palavra a dizer na produção agropecuária.

Para a época em curso (2019/2020), a província preparou 600 mil hectares para cultivo, superando em 20 mil hectares a meta alcançada o ano passado o que vai permitir em termos de expectativa ambicionar uma colheira de mais de 800 mil toneladas de produtos diversos, o que por si só também permitia superar o balanço do período anterior em mais de 50 mil toneladas.

A agricultura familiar continuar a ter uma palavra a dizer nestes esperados resultados. Em 2020 foi assegurado apoio a 112 mil famílias camponesas, dando-se-lhes inputs agrícolas, kit de desmatação com máquinas pesadas e 50 tractores agrícolas, apoiadas pela constituição de 10 brigadas de mecanização agrícola, distribuídas por todos os municípios da província.

Outros elementos que animam a produção agrícola da província, onde se encontra o centro geodésico de Angola, são as 12 mil 104 toneladas de adubos compostos, mil 850 charruas de tracção animal, 700 carroças de traçcão animal, mil 500 cabeças de gado bovino de tracção animal, oito mil enxadas europeias, mil 150 t de sementes de milho e mil  580 t de feijão.

Na verdade há todo um clima que pode fazer do Bié um “grande contribuinte” e por via disso, reduzir o deficit de alimentos no país, todavia, os fazendeiros queixam-se do mau estado das vias, por dificultar o escoamento dos produtos, da falta de financiamento e de compradores, bem como da chegada tardia de inputs agrícolas.

Afonso Satula, agricultor do Andulo, em entrevista a Angop considera a prática da agricultura na província “um grande risco”, dada a falta de meios e de financiamentos, acrescida das péssimas condições das vias de acesso.

Proprietário de uma fazenda de 200 hectares, o empresário diz que nos últimos anos teve de reduzir a produção para apenas 30 hectares, que têm servido para o cultivo de café, milho, soja, banana e hortícolas.

Salienta que apesar das dificuldades, tem negociado os seus produtos com alguns comerciantes de Luanda, principalmente no que tange ao milho, a banana e o café. Revela que todos os anos perde mais de 10 milhões de Kwanzas devido à deterioração de diversos produtos das suas colheitas.

Segundo o fazendeiro, tendo em conta que recebeu do Estado mais de cinco mil mudas de café, o governo deveria intermediar uma negociação com a banca, para a obtenção de financiamento.

Alfeu Vinevala, um dos maiores produtores de batata-rena do país, adianta que apesar do problema das vias de comunicação rodoviária, que considera transversais, a sua fazenda vai colher, este ano, duas mil 30  toneladas de trigo e milho, no município do Chinguar.

O agricultor revelou que, neste momento, está a efectuar a colheita de milho em 229 hectares, estimando um aumento de 600 toneladas deste produto em comparação ao período anterior. Seguir-se-á o trigo, numa área de 129 ha, podendo subir para cerca de 200 t, comparativamente à colheita de 2019.

Quanto à batata-rena, refere que os níveis de produção irão manter-se. No ano passado, nota, foram colhidas oito mil toneladas em 200 hectares, num investimento de mais de 100 milhões de kwanzas.

Para si, o maior constrangimento tem sido a falta de sementes, a subida dos preços dos inputs agrícolas, o fraco escoamento dos produtos para os diversos pontos do país, a inexistência de condições para conservação, devido à falta de energia eléctrica, e outras dificuldades.

Dada a sua capacidade de produção (qualidade e quantidade), o agricultor solicita autorização ao Ministério da Indústria e Comércio para os agricultores colocarem os produtos nos interpostos existentes no país, a fim de evitar a sua deterioração por falta de conservação.

Na sua óptica, isso facilitaria o escoamento de grandes quantidades de produtos, como a  batata-rena, para os maiores centros comerciais do país, salientando que por conta própria e de forma tímida fazem-no já para Luanda, Zaire, Moxico, Huambo, Benguela, Cuando Cubango e Huíla, sem avançar quantidades.

Por sua vez, o fazendeiro Eurico Avelino, do município do Cuemba, conta que a principal dificuldade tem sido a Estrada Nacional (EN) 230, que, no tempo chuvoso, se torna quase intransitável, agravada pela falta de disponibilidade de transporte, de créditos e de apoios diversos do Estado, além de meios de irrigação, o que “tem constituído uma dor de cabeça”.

Por isso, entende ser hora de o Estado, através do Orçamento Geral do Estado (OGE), aumentar a sua dotação ao sector, para que os maiores produtores possam maximizar o cultivo de milho, feijão, arroz, mandioca, hortícolas, entre outros produtos.

Dono de uma fazenda de 20 hectares, Eurico Avelino, enfatiza que todos os anos, por falta de escoamento de produtos, perde entre sete e 15 milhões de kwanzas.

Comércio

Na cadeia do comércio, também existem reclamações, como as de João de Deus, que considera a actividade como de alto risco. “Há épocas em que o lucro é maior, mas, por não possuir transporte próprio para ir até aos fazendeiros e depois levar (os produtos) para Luanda, Malanje, Moxico, Cuanza Sul e Cuando Cubango, os gastos são maiores”, enfatiza, augurando um crédito do Estado.

O governador do Bié, Pereira Alfredo, anunciou, recentemente, que a banca vai financiar 15 agricultores da província, ainda este ano, por intermédio do Programa de Apoio à Produção, Diversificação das Exportações e Substituição de Importações (PRODESI), e aconselhou os  demais camponeses a filiarem-se em associações e cooperativas para beneficiarem também deste apoio.

O Governo angolano disponibilizou 133 mil milhões de kwanzas para potenciar os operadores económicos do país, com vista a relançar as empresas e impulsionar o PRODESI.

Para relançar o sector económico, o Executivo abriu, em Setembro de 2018, uma nova página no processo de diversificação económica, ao extinguir o programa “Angola Investe”, lançado em 2014, e conceder, em quatro anos, através da banca comercial, 120 mil milhões de kwanzas (USD 420 milhões), para financiar 515 projectos de investimentos de micro, pequenas e médias empresas.

Por via desse programa, o Estado apoia a concessão de créditos num montante de 55 mil milhões de kwanzas (USD 193 milhões), para bonificar os juros, capitalizar fundos de garantia e de capital de risco, além de criar ambiente satisfatório à concessão de créditos.

As medidas de apoio ao aumento da produção nacional estão inseridas no Plano de Acção, para aumentar a Competitividade da Produção Nacional de Bens da Cesta Básica e de Outros de Origem Nacional Prioritários.

Aprovado pelo Executivo a 13 de Novembro de 2018, o Programa de Apoio ao Crédito enquadra-se na estratégia de diversificação da economia e redução da importação de bens que podem ser produzidos no país. É apadrinhado por nove bancos comerciais.

O programa contempla a produção interna de bens de grande consumo, como açúcar a granel, arroz, carne de vaca, farinha de trigo, feijão, fuba de bombó, fuba de milho, leite em pó, massa esparguete, óleo alimentar de soja, óleo de palma, bem como materiais de construção, como aço, entre outros.

Banca “intimada” a impulsionar produção nacional

Depois de muita água ter corrido debaixo da ponte, parece que as autoridades em definitivo apostam na produção nacional como solução para os crónicos problemas que afectam o país, com destaque para o deficit alimentar.

Nos últimos tempos, diferentes agremiações do sector produtivo repercutem a reclamação de falta de “simpatia e celeridade” da banca comercial no que tange ao apoio à produção nacional.

Ao que tudo indica, o sector financeiro começará a sentir a “mão pesada” das autoridades, tendo sido o primeiro passo dado esta semana com a punição aplicada pelo BNA a 12 bancos comerciais. Os bancos multados não emprestaram aos produtores nacionais, pelo menos parte dos activos declarados nos seus balanços do ano de 2018.

A autoridade monetária central obrigava a que os bancos comerciais disponibilizassem, pelo menos 2 por cento dos activos registados nos seus balanços feitos até ao último dia do ano de 2018 para apoio a produção nacional, em clara colisão com as metas estipuladas nos seus avisos.

Socorrendo-se do seu estatuto de maior autoridade monetária do país, o Banco Nacional de Angola, ao abrigo da Lei n.º 12/2015, de 17 de Junho, Lei de Bases das Instituições Financeiras, instaurou processos de contravenção a estas instituições.

Em nota o BNA, informou que a sua decisão, avaliada em multas equivalentes a alguns milhões de kwanzas visa “criar um clima favorável à promoção e diversificação da economia real angolana e, por essa via, reduzir a dependência excessiva da importação de bens e serviços e contribuir para a sustentabilidade das contas externas do país”.

O Executivo gizou um programa de apoio à produção, diversificação da economia, exportação e substituição da importação, visando acelerar a produção nacional de forma focada e efectiva, face a contenção da actual conjuntura de crise económica e financeira, de modo a deixar de depender dos recursos petrolíferos.

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