Salve-se quem puder

É ponto assente, começa a desenhar-se um novo figurino sobre o posicionamento dos países face à pandemia que assola o mundo. Passados quase seis meses, cada Estado é obrigado a engendrar estratégias e métodos, amenizar e a controlar a persistência da proliferação da Covid-19.

Antes de qualquer juízo de valor sobre a sobrevivência ou não da humanidade – o que não vai acontecer de certeza, importa recordar que foi precisamente “o salve-se quem puder” que fez com que alguns Estados considerados poderosos, outros nem tanto assim, aliados e/ou à reboque de organizações regionais, trilhassem milhas náuticas e, proporcionando pontes áreas em socorro dos seus concidadãos que por variados motivos se encontravam na República Popular da China.

Terá sido à partida uma intenção valiosa, porquanto visou em tempo oportuno salvar milhares de pessoas do mal que se anunciava, na lógica de que longe das fronteiras da China, estariam são e salvos; engano, pois, foi precisamente esta suposta acção humanitária que afinal fez o vírus “deslocar- se” de navios e aeronaves de última geração, quiçá, em classe executiva, para os respectivos países.

E hoje, para além de fecharem as suas fronteiras a estrangeiros ou cidadãos de países considerados “não seguros” de entrar nos seus territórios, alguns Estados, com destaque aos da Europa, viraram as costas à mais de 150 países.

Para os angolanos resta o consolo do “Tio Celito” e dos sobrinhos do pai da minha amiga Jú, de Kuanza Sul que determinaram que “os passageiros dos voos provenientes dos países de língua oficial portuguesa têm de apresentar, no momento da partida, comprovativo de teste à covid-19, como resultados negativo, realizado 72 horas antes do embarque, sob pena de lhe ser recusada a entrada em território português.

Menos mal para quem recorre a Portugal, por razões de saúde, profissionais, de estudo ou de reunião familiar.

É mister lembrar de que no sistema internacional os interesses políticos, económicos e outros de reciprocidade falam mais alto na relação entre os Estados, e Portugal mesmo não tendo sido feliz em convencer os demais países da União Europeia ao tentar incluir Angola na lista cujo critério de escolha na média de infeções por cem mil habitantes igual ou inferior à europeia com marco de referência a 15 de Junho – medida que Angola tomou no pretérito mês de Março, quando ainda nenhum caso da Covid-19, interditando a entrada no país de passageiros provenientes da China, Irão, Coreia do Sul, Itália, França Espanha e Portugal.

Mas, infelizmente, como para alguns angolanos qualquer moda vale principalmente quando vêm do Ocidente, foi possível levantar o nosso gigante “triplo seven” das linhas aéreas em socorro aos nossos compatriotas que se encontravam na “meloia”, e prontos, começou o “dikulu”…e o Dr. Mufinda passou a vir em público falar sobre o que se passava nesta nova “guerra” sem minas nem obuses, com agressor invisível e apenas as forças governamentais controlando a cerca, e desafiados pela própria população que eles defendem,
enfim, são outros tempos e de outros tempos, a minha kamba Sílvia Lutukuta, lembra-me o célebre comandante Jujú – recordação para maiores de 50 anos de idade, pois Angola tinha apenas meses como país independente.

Independência cujo percurso todos contribuíram e nunca ninguém questionou, porque estavam em causa a nossa ufolo. Nesta altura, ninguém confrontava nem desafiava as autoridades, porque tinha de ir à rua para sobreviver, vender em hasta pública por que tinham filhos para sustentar, e foi assim que se fez a madrugada.

Independência que fez elaborar uma constituição que definiu liberdades e direitos consignados no Tratado de Vestefália, que consignou vários princípios com destaque para o diploma que inaugurou o moderno sistema internacional, ao acatar consensualmente noções e princípios, como o de soberania estatal e do estado-nação.

Princípios que os estados adoptaram face a pandemia da Covid-19, e como já escrevi neste espaço, deitou por terra a visão universal aos homens como sendo pré-existentes aos Estados, que detêm e conservam direitos e prorrogativas, que nenhum poder político instituído, nem mesmo aquele a que estão sujeitos, pode-lhe retirar. Pois, os Estados são soberanos e regem-se por leis e deliberações que nenhum outro Estado pode ou deve contrariar, salvaguardando sempre a lógica de jogo de soma zero, ou seja, os mais fortes ditam as regras.

Quem pode, pode tal como os EUA demonstraram mais uma vez que, para além da crise doméstica que opõe a sociedade civil e o governo, o presidente americano orientou o seu Departamento de Saúde pré-encomenda de mais de meio milhão de medicamentos remdesivir, 100% de toda a produção do mês de julho e 90% da quantidade de dose até os meses de Agosto e Setembro.

E nós por cá temos que nos solidarizar e não menosprezar os esforços dos que procuram minimizar e controlar a situação, que tudo procuram fazer para que tenhamos paz, tranquilidade, pois temos que nos cuidar de forma solidária e responsável seguindo as recomendações de quem de direito e respeito acima de tudo, para os que dia e noite se esforçam para cuidarem de nós.

Nada de caminhos fiotes, lavar as mãos com água e sabão, sem beijos nem abraços confiando sempre na graça divina, e nada de patuscadas nem politiquices, haverá tempo para os que se cuidarem.

A salvação é individual. Até lá.

Alberto Kizua

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