Mais de 75 mil professores do ensino privado sem salário há três meses

Os professores queixam-se também de despedimentos ilegais, particularmente em Luanda, Benguela, Huila e Huambo. Há casos de quem esteja já a vender os seus bens para comprar alimentos. A ANPEP lamenta e diz tratar-se de uma humilhação a pessoas intelectuais que dedicaram grande parte da sua vida se formando

Os três meses sem salário são referentes ao período em que se decretou o Estado de Emergência e Calamidade Pública, em consequência da pandemia da Covid-19, de acordo com explicações dadas ao OPAÍS por Carlos Conceição, coordenador da comissão instaladora da Associação Nacional dos Professores do Ensino Privado (ANPEP). 

Carlos Conceição diz existirem despedimentos em massa nos colégios e que mesmo aqueles professores que foram chamados a realizar actividades lectivas, as instituições recusam-se a pagar as respectivas remunerações. 

“Pelo menos aqueles professores que estão sob o nosso controlo clamam por socorro porque não sabem como vão sobreviver, ainda mais, quando não se sabe em que momento o ano lectivo vai reabrir”, disse. 

Segundo Conceição, a situação é mais crítica para os professores do interior do país, com realce para as províncias de Benguela, Huíla, Huambo, Cabinda, Namibe e Moxico onde se regista maiores incumprimentos por parte dos colégios.
Explicou que muitos professores se encontram em situação lastimável, alguns dos quais já começaram a vender os seus bens pessoais, como computadores e televisores, para comprarem mantimentos. 

Má gestão financeira 

O também sociólogo explicou que sempre que os professores recorrem para obterem informações dos seus ordenados, o único argumento usado pelas instituições é de que os pais e encarregados de educação não pagaram as propinas enquanto vigorou a obrigatoriedade dos 60%. 

Entretanto, Carlos Conceição questiona como é possível, instituições que funcionam há mais de cinco ou 10 anos interruptamente não terem um fundo para suportar, no mínimo, três meses de salário dos seus funcionários em períodos de crise. 

“Quando um colégio não paga e se justifica com a falta de pagamento de propinas dos encarregados quer dizer que toda receita arrecadada mensalmente se destina apenas para este fim, o que não é verdade, porque vimos instituições que mesmo neste período e no início de cada ano lectivo a fazerem melhorias das infraestruturas”, disse. 

A associação acredita que o problema está na gestão financeira, pois os professores assistem os patrões a fazerem investimentos avultados em áreas que não consideram prioritários, “só assim se compreende um abanar profundo de três meses”. 

O interlocutor diz ser necessário olhar para esta franja da sociedade que apesar de estar no ensino privado contribui activamente para a vida do país, formando quadros para as diferentes áreas. 

“Estamos a falar de pessoas intelectuais, licenciadas que estão a passar necessidades. Isto não dá valor nem transmite confiança. É vergonhoso e até desincentiva as pessoas que no futuro querem estudar porque descredibiliza quem perdeu grande parte da sua vida dedicando-se a formação”, lamentou. 

Apelo aos Deputados

Os professores apelam à sensibilidade dos patrões para se compadecerem com a situação, em particular, a Associação Nacional do Ensino Particular (ANEP), para que através do crédito que acederam ao Banco Económico, cabimentem parte dela para o salário dos professores, naqueles casos em que os colégios se queixem falta de dinheiro. 

Outro grito de socorro foi endereçado à 6° Comissão da Assembleia Nacional, para que esta intervenha junto do Executivo no sentido de acelerar a resolução do problema, alertando que os professores não sabem que o futuro lhes reserva. 

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