Desabafos e emoções marcam passagem de Proletário no “Menha Ndungo”

Um misto de desabafos e emoções marcaram a presença do músico Proletário, na última edição do programa “Menha Ndungo”, da Rádio Mais-Luanda

A última edição do programa “Menha Ndungo”, da Rádio Mais, deste Sábado, teve como convidado o músico Jaime Palama Kingungo “Proletário”, que além de ter falado sobre o seu percurso artístico, lamentou o estado actual da música angolana, bem como a maneira como os artistas da sua época têm sido tratados.

Durante o programa que teve a duração de duas horas, Proletário falou das suas vivências, depois de ter saído da terra natal em 1976, e de seguida conhecera Hildebrando Cunha (guitarrista dos Kiezos) quando ingressa no conjunto FAPLA-Povo, das extintas Forças Armadas Populares de Libertação de Angola (FAPLA).

O artista lembrou, igualmente, que em 1977, o dia de semana registou um Sábado, antes do fatídico 27 de Maio, estando a pintar na unidade, o também músico David Zé, seu antigo chefe, comprara grades de cerveja e gasosa, de modos a que naquela tarde o pessoal saboreasse depois do trabalho.

Porém, naquela mesma tarde, aparece uma individualidade da Direcção Política que fizera várias questões a David que depois sai e daí jamais o voltou a ver. Emocionado, o artista chorou durante o programa.

Além deste episódio, Man Prolé como também é chamado, emocionado, referiu que tanto o músico Robertinho quanto ele, foram artistas que em determinada época, em conjunto, aguentaram a música feita em Angola, mas deste feito ninguém é capaz de comentar nem sequer nos meios de difusão massiva.

Entretanto, questionado sobre a música produzida na actualidade, Proletário disse que deve haver uma diferença entre música feita em Angola e música com influências doutras raízes internacionais e a música angolana. “A música angolana de raiz está a ser desvalorizada”, reclamou o autor de Scania 111.

Por outro lado, Proletário lamentou o facto de os músicos da sua época estarem a ser separados dos demais. “Na passagem dos 40 anos da independência nós não vimos nada, mas ficamos a saber que houve uma verba atribuída a um determinado artista que fez o que ele bem entendeu”, voltou a desabafar.

“Fomos nós que participamos na luta pela independência, cantamos debaixo de projécteis (balas), enquanto certos cantores estavam na Europa e estão a enganar os mais velhos hoje. Os bens quando vêm param nas suas mãos e nós somos postos de fora”, acrescentou o músico Proletário.

Novo álbum “Carolina do Ebo”

O músico aproveitou a ocasião para garantir que ainda no decurso deste ano, poderá apresentar o seu mais novo álbum de originais, que se vai intitular “Carolina do Ebo”. Os trabalhos prosseguem, estando na recta final e, neste momento, encontra-se em fase de masterização.

Proletário contou que esteve a trabalhar em Portugal com Betinho Feijó, para a conclusão do disco, que será composto por 12 temas musicais nos estilos semba, bolero, kizomba, kuassa e kilata, esse último ritmo da região de Calulo, província do Cuanza-Sul.

O disco tem o suporte da banda Xamavo, e constam temas como “Canote”, “Lemba”, “Minga”, “Zembele”, “Serenata”, “Margarida”, “Ngana Salinine” e “Scânia 140”, uma versão do “Scânia 111”, tema que fez bastante sucesso na década de 70 e 80.

Percurso

Jaime Palama Kingungo “Proletário” nasceu na comuna da Sanga no município da Cela, no Cuanza-Sul. Cedo perdeu a mãe quando tinha apenas quatro anos de idade, e daí viu-se na necessidade de deslocá-lo até à vila Sede no município no Waku Kungo, onde posteriormente vem a trabalhar numa fazenda e depois como engraxador de sapatos. Em 1970 deslocou-se à cidade de Luanda num camião com 400 sacos de carvão e com 10 escudos no bolso. Em 1976, entra para o FAPLA -Povo, através de Hildebrando de Jesus Cunha.

Dá início à carreira musical em 1970, ainda na sua terra natal, mas tornou-se conhecido por volta de 1972-73 no bairro Kaputo, Rangel, em Luanda, onde fazia actuações esporádicas no Centro Recreativo Maria das Escrequenhas, actual Centro Recreativo e Cultural Kilamba.

Em 1977, período em que o país perdeu vozes de referência como David Zé e Urbano de Castro, Joine Jaime, como Proletário era conhecido na época, integrou os Surpresa 103, com o qual prosseguiu as actuações.

Na altura, cantava, como outros artistas da época, música revolucionária, fazendo soar a sua sagacidade em várias regiões de Luanda até à década de 1980, altura em que foi obrigado a cumprir serviço militar.

Hilário João

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