7 por cento dos hipertensos podem não resistir aos efeitos da Covid-19, diz médico

Em Angola existem apenas cerca de 100 cardiologistas para atender os seus mais de 30 milhões de habitantes espalhados por todo o território nacional. O cardiologista e professor universitário José Ricardo afirmou, a OPAÍS, que a situação já esteve muito preocupante, mas, felizmente, vem registando melhorias significativas, se comparada com os últimos 10 anos

José Ricardo revelou, em entrevista exclusiva a este jornal, que existem estudos científicos que atestam que 7 por cento dos hipertensos podem ser acometidos de forma grave pela pandemia da Covid-19 e perder a vida.

O especialista, que falava a OPAÍS, no CIAM, em Luanda, à margem do tema “Covid-19 e a Hipertensão Arterial”, explicou que isso ocorre porque os indivíduos hipertensos têm maior probabilidade de desenvolver formas mais graves da Covid-19 e de terem desfechos fatais: a morte.

Explicou que há estudos feitos em países como a China, Portugal, Itália e, agora, nos Estados Unidos da América, onde a Covid-19 se fez sentir com muito maior impacto, que comprovam a percentagem acima mencionada.

De acordo com José Ricardo, Angola tem muitos hipertensos e poucos estudos a respeito dessa doença crónica no seio das diferentes comunidades.

Para aclarar a importância da existência de uma variedade de estudos a respeito, esclareceu que um estudo de hipertensão arterial em Luanda, em indivíduos da classe média e alta, é diferente de fazer um estudo de hipertensão de uma população altamente rural no Catchiungo ou em Maquela do Zombo. Tratando-se de populações com hábitos e costumes um pouco diferentes e se pode obter percentagens diferentes.

Em seu entender, é importante que se realizem estudos para se aferir a quantidade de hipertensos na sociedade angolana. Disse existir o estudo de um professor, identificado apenas por Capingana, que defende que dos 23 por cento dos angolanos são hipertensos. “Mas há outros estudos que já mostram percentagens muito superiores a esta. Temos muita hipertensão em Angola”, disse.

De acordo com o cardiologista, se tem prestado mais atenção a doenças infecto-contagiosas do que à hipertensão, uma situação que já acontece há vários anos. As doenças crónicas, como a diabetes e a hipertensão têm sido “empurradas” para segundo plano. “Nós temos muita hipertensão e temos tido muitos doentes com hipertensão”, enfatizou.

Explicou que a maior parte das consultas dos cardiologistas é feita por doentes hipertensos, havendo dias em que 100 por cento dos pacientes que acorrerem aos consultórios têm hipertensão arterial. “É possível receber 10 doentes na minha consulta de cardiologia e serem automaticamente 10 hipertensos”, frisou.

Assim sendo, José Ricardo adverte que é preciso ter em atenção que em Angola as pessoas ainda pensam que hipertensão deve ser tratada por cardiologista, algo que não acontece pelo mundo fora. “As consultas de cardiologia ficam cheias e maioritariamente com doentes hipertensos”.

Entretanto, alertou que a hipertensão é uma doença que deve ser abordada por diferentes especialistas da medicina e só em último caso é que vai parar ao cardiologista.

“Hipertensos devem ficar afastados dos hospitais em época de Covid- 19”

O cardiologista reconhece que nesta fase que o país atravessa não tem sido fácil contactar médicos fora do ambiente hospitalar. Entretanto, disse que os doentes hipertensos, por serem ter uma patologia crónica, fazem parte do grupo de maior vulnerabilidade e devem ser protegidos da Covid-19. Por isso, José Ricardo aconselha que devem ficar afastados do meio hospitalar, onde o risco de contagiosidade é muito alto.

Recomendou aos hipertensos que já tomam os seus medicamentos e que estejam com os níveis tencionais perfeitamente estáveis, sem nenhuma complicação, a continuarem com a sua medicação. E só irem ao hospital em caso de alguma complicação adicional, como uma dor de cabeça terrível, dificuldades respiratórias, palpitações ou o coração aos pulos.

“Se puder ter um contacto do seu médico ou de algum que o assista, que o faça. Isso facilita e ajuda a orientar a conduta destes doentes, porque o ambiente hospitalar não é dos melhores nesta altura para os que têm essa doença”, aconselhou.

País conta com cerca de 100 cardiologistas para mais de 30 milhões de pessoas

O médico revelou que neste momento decorre um levantamento que está a ser feito pela Sociedade de Cardiologia e o Colégio de Cardiologia da Ordem dos Médicos, com o intuito de saber exactamente quantos são ao todo e onde estão.

Em entrevista exclusiva a OPAÍS, no CIAM, em Luanda, à margem da conferência sobre o tema “Covid- 19 e a Hipertensão Arterial”, o médico cardiologista, apesar de considerar não ter dados suficiente para especificar a quantidade de homólogos seus existentes ao certo no país, referiu que o número tem aumentado nos últimos anos.

“Não consigo lhe dar taxativamente o número, mas, seguramente, rondamos aí aproximadamente 100 cardiologistas. O que, olhando para a imensidão do nosso país, não é nada, mas se comparado com a quantidade que éramos, há 10 anos, demos um passo de gigante”, afirmou.

Entretanto, salientou que a situação esteve muito preocupante, registou melhorias significativas, mas ainda há muito por se fazer. “Estamos a ter cada vez mais formação e a receber colegas que vêem de fora, porém, infelizmente, ainda não conseguimos terminar uma formação de cardiologia em Angola”, lamentou.

Qualquer indivíduo tem probabilidade de vir a ser hipertenso

O especialista em cardiologia adverte que qualquer ser humano, na medida que vai crescendo, tem probabilidades de ser hipertenso, embora existam pessoas com maior grau de susceptibilidade. “Nós, os indivíduos de raça negra, temos uma maior pré-disposição. Isso está demonstrado geneticamente.

Os indivíduos cujos pais e avós foram hipertensos têm uma maior probabilidade de desenvolver hipertensão”.

Neste grupo estão igualmente os obesos, os sedentários e com hábitos de tabaco e de consumo de substâncias ilícitas como drogas, e até o excesso de álcool, que têm probabilidade de desenvolver hipertensão arterial, sendo que há outras patologias como a diabetes, que também causa hipertensão arterial.

Fez saber que maioritariamente o doente de diabetes vai parar ao cardiologista porque desenvolve hipertensão e complicações cardiovasculares. No entanto, os indivíduos obesos raramente não desenvolvem hipertensão arterial e vão à consulta do cardiologista.

Entretanto, contou que a hipertensão arterial é uma doença crónica e qualquer indivíduo pode ser hipertenso. Mas ser diagnosticado com esta doença não significa sentença de morte ou que a pessoa vai tomar medicamentos para o resto da vida, ou ainda ser dependente de fármacos. “A partir do momento em que aceitamos o diagnóstico e cumprimos as medidas, teremos uma vida perfeitamente normal e saudável. Podemos chegar à velhice como qualquer outra pessoa”, garantiu.

“Farmácias não podem recusar venda de fármacos aos diabéticos”, alerta médico

No entanto, o cardiologista José Ricardo defende que as farmácias não “podem e nem devem” recusar a venda de medicamentos pelo facto de o cliente que padece de hipertensão ou diabetes apresentar uma receita antiga. Esclareceu que nessa altura é muito difícil as pessoas conseguirem terem acesso aos médicos.

Explicou que um indivíduo diabético ou hipertenso que chega a uma farmácia com uma receita antiga ou que diga ao farmacêutico que toma cronicamente esse medicamento e for comprovado, o atendente não deve se recusar a disponibilizar o fármaco, por ser um remédio que faz falta. “E um dia sem tomar pode ser fatal”, asseverou.

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