“Aprendi muito nesse distanciamento. Cada minuto, cada amigo é importante, porque o mundo pode mudar num piscar de olhos”

Lidar com o confinamento social, de modo a evitar o contágio pela pandemia do novo coronavírus parece ser difícil nesta fase, mas aos poucos vamo-nos acostumando aos novos “modus vivendis”. Nesta curta entrevista, a OPAÍS, a escritora Marta Santos fala da importância das regras, da sua experiência, do poder da oração, da união e do amor ao próximo

O País enfrenta o Estado de Calamidade, 90 dias depois de ter observado o Estado de Emergência, decretado pelo titular do poder Executivo, João Lourenço, por conta da Covid-19. Como foram para si e os seus familiares os dias de confinamento e o que de concreto aprendeu com o distanciamento social?

O confinamento obrigatório ou mesmo aquele que muita gente se propõe, em algumas ocasiões da vida, sempre é preocupante. Se nos isolamos por vontade própria, a família ou os amigos que nos querem bem ficam preocupados, então num isolamento obrigatório e necessário, necessita de muita força e, sobretudo, um motivo muito maior no sentido de mantermo-nos vivos…

Nessa pandemia as nossas decisões, não afectam somente a nós, a salvação, não é individual é colectiva mesmo. Porque ao não acatarmos esse isolamento estaremos a por em perigo, não só a nós como aos outros.

É nesse sentido que no meio dessa pandemia, a minha família tem buscado forças para aguentar esse distanciamento. Foi penoso para nós, a minha família acabou de sair de duas grandes perdas e precisava de estar unida… A minha mãe precisa de todos à sua volta e, no entanto, é a primeira a incentivar o isolamento. Comunicamo-nos por telefone, vídeos e áudios.

Tem sido difícil, mas tiramos daí muitas reflexões e apesar da distância sentimo-nos mais unidos. Em casa, o tempo com os filhos, o marido foi importante. A vida sedentária que muitos levávamos afastava-nos de coisas realmente importantes. Saímos muito mais fortalecidos desse estado.

Eu, em especial, pude realizar algumas coisas que foram ficando para trás. Não quero com isso dizer que está a ser fácil… mas é bom saber que estamos a lutar para vencer. Dói, mas não podemos deixar que o vírus nos mate. Vezes houve que um acordava para baixo, “Aprendi muito nesse distanciamento. Cada minuto, cada amigo é importante, porque o mundo pode mudar num piscar de olhos” Marta Santos mas a mão ao lado aperta e…levanta-te.

O Estado de Calamidade forçou o encerramento de cultos em vários pontos do país, em particular em Luanda, como o epicentro da pandemia de Covid–19. Até que ponto a oração tem sido importantes para si e a família?

A minha família é cristã, crente. Cresci vendo a minha mãe ajoelhada aos pés de outra mãe, a mãe abnegada…Maria mãe de Jesus. Acredito no poder da oração. Vivemos uma Era de inversão de valores, onde o predador é o próprio homem. Pela primeira vez, os templos, Igrejas, Basílicas estão encerradas e os homens murmuram em casa clamores de salvação a Deus que muitas vezes esqueceram. Clama-se a salvação e muitos descobrem o poder da oração.

A música cristã considerada (louvor) certamente está interligada a este momento de confinamento e tem um grande impacto. Há quem afirma que quem estiver a louvar, automaticamente estaria a orar duas vezes. Qual é a diferença entre a oração e o louvor?

A oração é uma conversa, com Deus, onde despimos a nossa alma e acreditamos ferverosamente naquele que nos fortalece, porque a sua vontade e bondade são maiores. Na minha família agarramo-nos à prece a Deus e tiramos forças para não sucumbir. Aprendemos todos os dias que se acreditarmos, não desistirmos, tudo ficará bem.
Agradecemos a Deus por cada coisa, cada dia que nos dá…todos os dias consagramos a nossa vida a Deus, porque ele não diz que não vai doer, mas sim que vamos ultrapassar. Meus amigos enviam mensagens e correntes de orações e louvores, recebo. Mas, nem sempre há adoração, nessas mensagens, mas sei que pensar no próximo já é um grande acto de adoração, de louvar ao próximo e com isso a Deus. Houve uma reaproximação com alguns que já estavam afastados.

Que comentários faz sobre a Fé Cristã, não só em Tempos de Pandemia, assim como do distanciamento social?

Sim nunca ouvimos tantos louvores, mas nem todo louvor (música) está impregnado do poder de oração, mas sentir que as pessoas buscam forças em Deus é gratificante. Nada é por acaso. O homem, tão material e imediato, tem tido uma postura deplorável, face ao mundo em que vivemos. África; Angola tem sido uma desilusão. Às vezes há coisas que acontecem para nos fazer olhar para dentro. Como disse, deve existir louvor, numa oração, mas nem sempre encontramos ou sentimos adoração num louvor.

A oração é uma conversa com Deus…que deve ter o poder de prendê-lo ali onde as pessoas louvam, oram. Então louvar é adorar, clamar, respeitar, agradecer, reconhecer. Se for com Fé é sim orar duas vezes. Concordo, mas não aceito o teatro e o ruído dessa oração.

Deus não precisa de ruído que fere para te escutar. A minha Fé não é maior que a tua…quem sabe disso é ELE é quem ora a ELE. Mas digo que, para ser angolano é preciso ter muita Fé. Mas até entre os cristãos existem homens de pouca fé. Se o distanciamento social serve ou serviu para refletirmos… louvo! Cada experiência vivida, ultrapassada, é um aprendizado, para mim e para os outros, e vice-versa.

O que aprendeu com este distanciamento?

Eu aprendi muito nesse distanciamento, cada minuto, cada amigo é importante, porque o mundo pode mudar num piscar de olhos. Valorizarmo-nos e respeitar os outros é prioritário. Quando o outro não acrescenta nada na tua vida, siga em frente…

Uma palavra de incentivo aos irmãos angolanos no estrangeiro, confinados pelo Estado de Emergência… Para os angolanos, no estrangeiro… tinha aí sobrinhos órfãos, irmãos, sei que parece que estamos num buraco escuro, mas não podemos perder o poder da oração…mas nunca a fé porque ela vai restabelecer tudo. Sejam fortes e não deixem que a Covid- 19 dite a última palavra.

leave a reply