Município da Quiçama com 30 mil habitantes em pobreza extrema

No maior município de Luanda, dada a sua extensão territorial, a pobreza extrema ainda se faz sentir, havendo esperança no programa de desenvolvimento local e combate à pobreza, bem como no Plano Integrado de Intervenção nos Municípios (PIIM). Em entrevista com o administrador do município da Quiçama, António Manuel Fiel “Didi”, ficamos a saber que esforços estão a ser desenvolvidos no sentido de se tirar os 30 mil habitantes da pobreza extrema e dar-lhe a capacidade de auto-sustentação

A equipa de reportagem do jornal OPAÍS deslocou- se ao município da Quiçama, na última Segunda-feira, 13, para constatar o grau de execução do programa de desenvolvimento local e combate à pobreza, uma vez que todos os municípios recebem, para este fim, mensalmente 25 milhões de Kwanzas.

Este é um município vasto, com uma superfície de 13 mil e 500 km2, perfazendo 73% da superfície da província de Luanda, mas com fraco desenvolvimento social, o que faz com que muitos dos munícipes abandonem a região e se refugiem na cidade de Luanda e noutros pontos, procurando uma vida melhor.

É um desafio para o administrador António Manuel Fiel “Didi”, que reconheceu ter um elevado número de cidadãos na linha da pobreza extrema. Têm dificuldades de vária ordem, designadamente distribuição de água potável, escolas, postos de saúde, energia eléctrica, vias de acesso, entre outras.

“Nesta parcela do território de Luanda a carência é acentuada, pelo que podemos considerar que estamos em torno de 30 mil habitantes que vivem com pobreza extrema”, disse.

Pelo facto, defende haver a necessidade de se fazer esforços, para trazer junto dos munícipes equipamentos sociais, criar acessos nas localidades, tendo em conta que dois terços do território da Quiçama ainda são inacessíveis, para além de não funcionar, em determinadas áreas, a rede de telefonia móvel.

A bandeira por si eleita é “tirar a população da pobreza extrema”, por isso, estão a desenvolver actividades que dão alguma independência às famílias. No ano passado, por exemplo, entregaram 42 motorizadas de três rodas a ex-combatentes para que consigam desenvolver actividades comerciais que os tirem da extrema pobreza.

Vias de acesso para o desenvolvimento

Foi entregue ainda, disse, uma chata de madeira, à motor, de sete metros, na localidade do Mumbondo, para facilitar a travessia e movimentação ao nível do Rio Longa. Para além de preverem a entrega de mais barcos naquela localidade, pretendem fazer o mesmo na comuna de Quixinge, na zona de Kandange, cujo barco já está feito e precisam construir mais oito para serem entregues de uma vez.

“Estamos a preparar barcos mais seguros, à motor, para facilitar a travessia. Esses meios serão entregues a uma associação com o propósito de desenvolverem esta actividade de táxi e outros de pesca, no âmbito do combate à pobreza”, frisou.

Apesar da existência de agricultura de subsistência, há problemas com as vias de acesso, o que tem dificultado o desenvolvimento. A Administração Municipal tem estado a solicitar junto dos seus superiores a nível governamental que se elabore um programa especial para o município da Quiçama.

“Ainda temos populares a consumir água imprópria. Temos problemas de electricidade, trabalhamos ainda com um grupo de geradores. Apesar de estarmos entre dois rios, o Cuanza e o Longa, a água ainda não é devidamente canalizada nas comunas, os projectos que temos em torno do abastecimento são furos de água, ainda não é uma estação de tratamento de água”, sublinhou.

O que foi (e está a ser) feito?

Sobre a água e saneamento, disse que o seu pelouro está a trabalhar para a construção de pequenos sistemas de tratamento e distribuição de água na comuna do Mumbondo (com três localidades a serem beneficiadas, nomeadamente Maria Luísa, Kambu e Mumbondo Sede), bem como na sede da comuna do Quixinge, com um total de 140 famílias a serem beneficiadas.

Com a situação da Covid-19, parte dos recursos são alocados também para conter a propagação deste vírus, com acções de sensibilização nas comunidades.

Um posto de registo civil será criado na comuna do Cabo Ledo, por ser a comuna com maior densidade populacional. Neste momento, os munícipes da Quiçama dependem apenas do posto de identificação civil da Muxima e vê-se a necessidade de se descongestionar este estabelecimento.

O programa de combate à pobreza também dá atenção às questões relacionadas com a cultura e o desporto, por isso, um campo de futebol 11 está a ser construído, na comuna da Muxima, na localidade do Koxe, no sentido de promover as práticas desportivas.

Actualmente está em curso a conclusão de uma escola com três salas, com os respectivos compartimentos administrativos, na localidade de Cacoba. Está na fase conclusiva o pequeno sistema de abastecimento de água do Mumbondo.

No dia 16 do corrente mês realiza-se uma acção formativa ligada a capacitação das parteiras tradicionais, no âmbito do empoderamento das mulheres e melhoria da capacidade de assistência às mães gestantes.

Pretendem implementar o projecto de fomento agropecuário nas comunidades e neste momento a comuna do Quixinge já apresentou as condições. A ideia é conferir algum rendimento às famílias.

Quiçama conta com 15 projectos ligados ao PIIM

Quanto ao PIIM, no município da Quiçama, estão escritos 15 projectos, um dos quais está ligado ao apoio ao desenvolvimento local. Os processos de contratação dos primeiros cinco projectos já estão concluídos, pelo que as obras terão início nesta Sexta-feira, na comuna do Cabo Ledo.

Nesta primeira fase, estarão em construção uma escola com 12 salas, posto policial na Ilha Dourada; uma escola com sete salas nas comunas de Quixinge e Demba Chio, e a conclusão da biblioteca municipal.

Por esta altura, ainda se segue a contratação de mais oito obras, com destaque de uma escola com 12 salas na comuna do Quixinge, igual número de salas para duas escolas na comuna da Muxima, uma de 18 salas em Cabo Ledo e para a Vila Sede uma de 12 salas. As escolas variam do I, II e ciclo de ensino técnico.

Na zona de Caxarandanda, há a pretensão de se aproveitar o rio que está a sete quilômetros de distância, para se captar e tratar a água, de modo que a população beneficie deste bem e evitar-se mais casos de cegueira do rio.

Este ano, a localidade terá um posto médico e uma escola, segundo o administrador, dentro do PIIM. Sobre as vias de acesso para as comunas do município da Quiçama, o administrador sublinhou que esforços estão a ser feitos para ver ultrapassada esta situação e já tem uma luz verde, tendo em conta que estão a trabalhar para a aquisição de um quite de terraplanagem, no sentido de minimizar a situação.

Distanciamento entre as comunidades dificulta acção administrativa

Outra preocupação apresentada pelo administrador é o facto de a população residir em pequenos e vários aglomerados, o que torna difícil levar e resolver as dificuldades que enfrentam.

Muitas vezes são aglomerados pequenos, mas que estão distantes um do outro. “Por exemplo, agora nos debatemos com o local onde iremos construir uma escola com sete salas, se será em Caxarandanda ou nos Luandos, já que tanto num, quanto noutro sítio, uma escola de sete salas é muito grande, uma vez que não há população estudantil que chegue.

Então, estamos a estudar a possibilidade de dividir as salas para os dois locais”, exemplificou. Outra “dor-de-cabeça” que reconheceu tem a ver com as condições para que os professores dessas escolas permaneçam na comunidade, uma vez que não há quase nada, nem sequer mesmo rede de telefonia móvel.

António Fiel “Didi”, contou que actualmente o programa de desenvolvimento local e combate à pobreza assume outra metodologia de implementação, de modo a atribuir maior dignidade aos munícipes. Apoio a comunidades precatórias, compra de animais para agropecuária, apoio à agricultura e aos ex-militares, etc.

Romão Brandão e Stela Cambamba

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