“Quando o Governo aumenta gastos sem produção causa inflação”

O professor de Macroeconomia do ISPTEC, Yuri Quixina, considera inevitável a inflação, com a entrada da nova família do Kwanza, porque os indicadores económicos de 2013, altura da última actualização da moeda, são diferentes dos actuais

A suspensão de cobrança e pagamento de propinas em todas as instituições de ensino e de formação profissional até à retoma das aulas presenciais, foi dos temas que marcou a semana. Qual é a sua opinião?

De modo geral, as medidas do não reinício das aulas poderão ser arrasadoras, se não investirmos nas condições de biossegurança e psicológicas que permitam o regresso ao trabalho.

Estima-se que essa medida pode deixar 190 mil trabalhadores do ensino privado no desemprego. Qual seria o ponto de equilíbrio entre a salvaguarda da saúde pública e dos empregos?

É lamentável quando as pessoas dizem que só há saúde se não abrirmos a economia, e se a economia não funcionar as pessoas podem morrer. A saúde e a economia são como duas irmãs siamesas que partilham o mesmo coração, cuja separação causa a morte de um. A nossa economia e a saúde podiam funcionar juntas, desde que se estudassem os casos, à semelhança do que o Senegal faz. Concluiu-se, no Senegal, que a maioria das pessoas morre através de doenças associadas, que reduzem a imunidade, permitindo a acção da Covid-19. O Senegal investiu na educação imunológica dos cidadãos e, por esta razão, a economia e a educação estão a funcionar normalmente. Convém eliminarmos a ideia do pós-Covid-19, não haverá isso. Devemos nos reinventar para conviver com isso. O emprego só é garantido com actividade económica, não havendo fluxo de caixa, não há fonte para pagar salários e a consequência será o desemprego.

Que alternativas existem para inverter o quadro?

Primeiro é que deviam dar liberdade às escolas para desenvolver a sua actividade. O grande problema é que o sector privado quase que não tem liberdade. Quando o governo decide a vida do privado cai no ridículo. Primeiro decidiu que tinha de se pagar os salários, pagamento de 60% das propinas e depois suspende a cobrança e o pagamento de propinas.

O governador do BNA garante que a entrada da nova família do Kwanza não vai alterar o preço dos produtos. Que avaliação faz da entrada em circulação de novas notas?

O argumento de segurança para o lançamento de novas notas no mercado é sempre o mesmo. Penso que os argumentos são mais políticos do que técnico-económicos.

Como justifica?

Por causa dos argumentos dos responsáveis do banco. Quando um governador diz que não haverá inflação, porque, em 2013, quando foi do último lançamento também não houve, tem que ler os números. Quando um administrador questionado sobre as razões da alteração dos rostos nas notas responde que o actual presidente também não está no dinheiro, essa abordagem é político-partidária. Vamos à inflação: em 2013 não houve inflação com a entrada de uma nova família do Kwanza, porque os indicadores falam por si. Em 2013, o país tinha Reservas Internacionais Líquidas (RIL) instrumento por excelência para manipular a taxa de câmbio e camuflar a inflação, acima de 35 mil milhões de dólares… As RIL de 2020 estão na ordem de 10 mil milhões de dólares.

Que factores determinam a inflação?

Quem causa a inflação é o governo. Quando se afirma que a inflação é a alta generalizada de preços, está- se a dizer, de outra forma, que o empresário é o causador, mas quem causa inflação é o governo, é o banco central, com impressão de moeda. A nossa inflação é causada pelas políticas monetárias e fiscais. Quando o governo aumenta gastos sem produção causa inflação. E mais: estamos em crise cambial, economia em depressão e gastamos 30 milhões de dólares com impressão de moeda.

O BNA também multou 12 bancos comerciais em 424 milhões de Kwanzas, por não terem concedido crédito ao sector produtivo…

Conceder crédito hoje, na nossa economia, é colocar o dinheiro no fogo, porque a expectativa é negativa. A melhor moeda do Século XXI é a confiança e a confiança está em queda. E esse processo complica-se com a entrada do Estado na solicitação de crédito. O banco central devia multar o Estado e não os bancos. O Estado entra nessa competição para disputar o crédito para as famílias e empresas. O crescimento económico deve ocorrer de forma natural e não forçada.

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