Este ano não se faz anos

Olhei para o visor do telefone e estava lá a mensagem, a pergunta: quando é que fazes anos? Optei por não responder. Está tudo parado, todos os projectos. Não há viagens, provavelmente não haverá até ao fim do ano (não estou a falar das Maldivas, é daqui mesmo). Este ano não é para fazer anos. Nada se realiza, ou quase nada. Imagine-se os estudantes…

E fazer anos para quê? Sem abraços, sem beijinhos, sem o afunilamento ao lado do bolo das velas acesas. Nem um cartão postal que seja, pode trazer Covid sem convite. Parece que estamos numa viagem interplanetária num filme de ficção científica e em câmaras de crio-gel, literalmente congelados, para acordarmos à chegada.

Este ano é só para sobreviver, tentando escapar de um “bicho” microscópico que não sabemos nunca onde está, com quem vem, a quem deixamos.

Não pode contar um ano assim, de tanta incerteza, que entrou errado e não há como consertar. Este ano é o “senhor frustração”, rasgador de sonhos. É tira-vaidades. Bem, tem uma vantagem, só: está a revelar incompetências muitas de políticos. Mas para isto também nem era preciso tanto, é muito fácil.

É um ano sem abraços, poderia até nem fazer anos, não contar, mas quem alguma vez contou os abraços que recebeu e mediu o bem que lhe fizeram à alma? Se não é para ter um abraço, com toda a vida que ele significa, com lágrimas, sorrisos, medo, triunfo, sexo, abrigo, despedida, não. Lamento.

Este ano não se faz anos, não tem a aquele momento fundador da nossa existência como seres humanos em vida, na terra, nascidos: o abraço, o colo, a primeira ternura, o primeiro carinho, o primeiro gesto de amor. Renascemos sempre em cada abraço.

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