O hospital e o homem do apito

Na literatura médica de expressão inglesa encontra-se a expressão “whistler-blower” (WB), que traduzida à letra será o “soprador do apito”. O dicionário traduz como “informador”, mas nos jornais médicos o uso da expressão aproxima-se mais das práticas futebolísticas: o WB é alguém (como o árbitro) que sopra o apito quando há uma falta. É um apito estridente, para se ouvir em todo o campo e nas bancadas, não é a informação secreta que o informador passa à polícia, e por isso a tradução de “informador” é infeliz.

Os jornais respeitáveis consideram muito importante a figura do WB, que é alguém que defronta a hierarquia e o corporativismo institucional, e torna públicos os problemas, erros ou injustiças que estão a ser ocultados.

E dão-lhe abrigo e defesa, pois essas pessoas vão ser hostilizada no seu local de trabalho e podem sofrer retaliações mais ou menos pesadas (de acordo com as maiores ou menores liberdades do sistema) que podem interferir gravemente nos seus direitos pessoais e profissionais.

Mas nem todos pensam assim: o sistema em Angola é ainda autoritário, centralizado e hierárquico. Nas instituições estas normas condensam-se num centralismo em que só o chefe pode fazer pronunciamentos públicos (e geralmente só os faz depois de ter consultado o chefe do chefe).

Quando há problemas, cria-se um clima insalubre de conivência para manter a reputação corporativa , que é mais importante do que o bem estar dos cidadãos, objectivo para que, supostamente, a instituição foi criada. Num livro que publiquei em Janeiro de 2017 afirmei:

“… Ocultam-se os problemas por duas razões: (a) Para alardear competência individual no exercício do cargo; (b)Para fazer a propaganda do Executivo junto da população…”

Há alguns anos circulou fortemente o vírus da raiva na população canina de Luanda e houve em menos de 6 meses algumas dezenas de internamentos/mortes de crianças com a doença no Hospital Pediátrico.

Da Direcção Provincial de Saúde e de outras instâncias havia a preocupação de minimizar e mesmo silenciar o que se estava a passar. Num desses dias, duas médicas condoídas com a terrível situação foram entrevistadas pela rádio local.

Tanto bastou para virem recriminações de fuga de informação, que eu como Director do Hospital não corroborei, antes enfatizei a ocorrência numa entrevista à LAC. Colocar a defesa da vida e dos direitos das pessoas acima das conveniências e oportunismos políticos não é encorajado e pode mesmo ser punido, e isto foi incorporado no ADN de muita gente, sobretudo os que sabem que o seu cargo é função do seu “bom comportamento”.

E por isso são tão importantes os WB. Na edição de 11 de Julho de “O País” dá-se voz ao pediatra Adriano Manuel, assistente no Hospital Pediátrico e Presidente do Sindicato dos Médicos.

Segundo transparece, ele está a ser alvo de medidas repressivas da parte da Direcção do Hospital por ter feito declarações públicas sobre o excessivo números de mortes no hospital.

Embora não se trate dum assunto sindical (como revindicar emprego para os médicos recém-formados, ou reclamar meios de protecção anti-Covid para os médicos que trabalham nos hospitais causas que, aparentemente, têm merecido a atenção do Sindicato), um juízo sobre as crianças que morrem no hospital é estritamente médico e pessoal.

De acordo com a referida concepção hierárquica e centralista, não é a um médico do hospital que compete comentar junto dos meios de informação. E cá temos configurada a personagem do “whistleblower”: alguém que torna pública uma informação e que se arrisca a ser punido por fazê-lo.

Provavelmente é-lhe assacada uma agenda politica, dirigida contra o hospital ou o ministério. Mas no domínio subjectivo das intenções, também não é difícil encontrar uma agenda politica, se não no hospital, certamente no ministério.

A morte de crianças não é uma questão interna dos hospitais, passível de medidas do foro disciplinar. Num país como Angola, cujos índices de mortalidade de menores de cinco anos continuam a ser dos mais altos do mundo, debater a questão, dar-lhe toda a atenção, é uma atitude ética e de respeito pelas crianças angolanas.

Abordar o problema é, em simbologia médica, fazer o diagnóstico da doença (quantificar, qualificar), para, a seguir, apurarmos as causas e instituirmos o tratamento. E mais uma vez insisto grande parte das causas operam muito antes da criança chegar ao hospital.

Se através do incremento dos Cuidados Primários de Saúde interviermos precocemente, não temos que nos defrontar com uma criança que já vem muito tarde e está muito grave e que, se houver um infeliz desfecho, vai aumentar a taxa de mortalidade da instituição.

Por isso, se distingue correntemente a “Mortalidade Líquida”, a que ocorre nas primeiras 48 horas da admissão (e dá ideia da gravidade à entrada) da “Mortalidade Bruta”, ou total, que julga, com menos precisão, o desempenho da unidade hospitalar.

Neste sentido se pode dizer que a mortalidade observada, sobretudo a mortalidade líquida, mais do que um índice do desempenho hospitalar, reflecte a realidade nacional.

Os números disponíveis no Hospital Pediátrico até 2010 mostram que, mercê dos progressos da vacinação e alguma melhoria geral e nutricional após o fim da guerra civil, mas também por melhor desempenho hospitalar, as mortes diárias desceram de 14, no ano 2.000, para pouco menos de 7, em 2010.

O número de óbitos diários a que tive acesso em 2019 (um ano de moderada pluviosidade) variou de 5.2 (em Dezembro) e 8 (em Abril).

Contrariamente à década anterior, na última década parece terem sido pouco marcados os progressos na sobrevivência das crianças internadas no Hospital Pediátrico.

É esta constatação que deve, desapaixonadamente, merecer a nossa reflexão, detalhando a possível variação das causas, o acesso das crianças aos cuidados preventivos e curativos, etc.

Os óbitos não são por doenças raras, congénitas ou oncológicas que vêm à tona nos países mais desenvolvidos: são a malária, infecções respiratórias e outras doenças preveníveis e curáveis. E deve fazer-se a grande opção estratégica:

*Apostar nos Cuidados Primários e na luta contra a pobreza contrariando a fatídica força que o binómio Malnutrição Infecção tem na mortalidade dos menores de cinco anos?

• Ou vamos, como recentemente foi anunciado, organizar (ou tentar organizar) unidades gigantes de Cuidados Intensivos, para que o hospital melhore as suas taxas de mortalidade?

É uma discussão que “o apito” do Dr. Adriano Manuel, se for encarado positivamente, terá o mérito de suscitar, entre os profissionais e o público.

Luís Bernardino

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