Seguir o exemplo de Bailundo: dar às ruas os nomes de nossos heróis

“Angola é nossa”, dizia Salazar, com jactância. Este slogan colonialista foi recuperado, com o mesmo significado, e desde então tem sido alegremente perpetuado pelos Assimilados e Lusotropicalistas. 

Hoje, ele proclama duas Angolas: uma que se diz ser mais legítima e a outra, aparentemente, menos legítima ou mesmo ilegítima. É na sua essência que encontramos o espírito que diz que este reino aqui é intrinsecamente “nosso” e aquele acolá é estranhamente “nosso”. 

Esses herdeiros do salazarismo e do colonialismo são, de facto, aqueles que manipulam as nossas diferenças complementares, que chamam tudo o que ameaça a sua hegemonia de tribalismo ou racismo, porque não conhecem a verdadeira definição de racismo (precisam do dicionário português para definir a palavra. 

Precisam da definição dada por quem nunca viveu o racismo, por quem o fabricou e o pratica, por quem criou o sistema de dominação de outros que a palavra define; hegemonia baseada na hierarquia das cores de pele. 

Precisam da definição daqueles que colocaram a pele negra no mais baixo escalão dessa hierarquia). Mas ainda assim, fingem não ver como a sua visão e os seus imaginários são um problema para a emancipação de Angola. 

Sim, estou a falar daqueles que dizem e escrevem que os reinos que partilhamos com outros irmãos africanos – nossos vizinhos hoje por causa das fronteiras aleatórias traçadas pelos colonialistas dos quais eles herdaram e ainda defendem a ideologia divisional -, não são tão legítimos quanto os que eles definem como mais legítimos sob o pretexto de que são exclusivamente angolanos! Aliás, o que é exclusivamente angolano? Onde começa e onde termina? Quem definiu isso, sob quais critérios e com o consentimento de quem? E na mesma lógica, como distinguir a ignorância sobre a história dos povos do mundo da tentativa de perpetuar o pensamento colonialista; aquele que inculcou nas mentes que o Reino do Kongo era inimigo do Reino do Ndongo ou da Matamba? Quem disse que o Reino da Lunda, cujo trono foi posto aleatoriamente no outro lado da fronteira traçada pela régua torta da ganância colonial, não era “realmente” nosso? E porquê tentar insistir que Mandume Ya Ndemufayo também foi rei dos Namibianos? Como é verdade e já a conhecemos, o que está escondido por trás de afirmação tão tendenciosa e subtil, visto que, se fosse benéfica e construtiva, já se saberia desde que agitamos o facto? E a nossa Nação nisso; quando e como a construiremos? 

Mas, para entendermos a razão desta cultura, da atitude, seria suficiente estudar os perfis das pessoas que fazem essa propaganda. Será fácil notar, em primeiro lugar, que não são luminares do pensamento, nem pessoas capazes de mostrar a aldeia dos seus antepassados. E que são os mesmos que removeram a estátua da rainha Nzinga-a-Mbande do Kinaxixi e que mantêm pomposamente o nome de Sequeira numa praça da nossa capital. É disso que devemos lembrar e nada mais. 

Talvez também deva ser lembrado que, numa carta atribuída a ele e endereçada ao seu partido, Viriato da Cruz afirmou vigorosamente o seu desacordo com a ideia, após a independência, da inevitabilidade do neocolonialismo em Angola, que os seus camaradas teriam assumido e considerado. 

Nesta carta, lemos a firme oposição do autor ao projecto de continuar a submissão e alienação, e ele também propôs vias que considerava mais emancipatórias para os Angolanos. Portanto, houve vozes sinceras no nosso país contra o colonialismo e a submissão, e hoje essas são as vozes da maioria dos Angolanos, são as vozes do futuro. Mesmo que conheçamos os verdadeiros motivos que levaram Rosa Coutinho a escolher um movimento em detrimento de outros, a emancipação total do nosso país deve ser concluída e este deve voltar-se para a África, se realmente quiser ser forte e respeitável. 

Rosa Coutinho, como ele próprio dizia, sempre com um sorriso malicioso, especialmente durante aquele debate na televisão portuguesa, moderado pelo jornalista Victor Bandarra, optou por deixar o poder em Angola nas mãos de um “movimento ao qual os brancos podiam aderir”, um movimento cujos dirigentes “gostam de vinho tinto e de batatas com bacalhau”. Em suma, o mais alto representante do Estado português em Angola, a quem foi dada a missão de organizar os “Acordos de Alvor” e, portanto, a independência do nosso país, escolheu, nas suas próprias palavras, um movimento que tinha “raízes da cultura portuguesa”. 

Isso diz-nos de onde viemos, mas também nos diz que não somos obrigados a continuar a aceitar seguir esse caminho, mesmo que o movimento em questão também seja meu, pela herança familiar e por afinidades filosóficas da mocidade (isso não inclui a má filosofia dos marimbondos que traíram a Pátria!). Porque esse caminho é o da alienação e acho que agora o sabemos, ou pelo menos, estamos a saber cada dia que passa. 

As posições de Rosa Coutinho mostram a sua baixeza de espírito, bem que se entendam os objectivos colonialistas por trás do pensamento. Se os Angolanos brancos, Assimilados e Lusotropicalistas são também Angolanos legítimos como todos os outros, no entanto, não devem impor a sua Angola sobre os outros. 

As circunstâncias dolorosas da nossa história, que impuseram a criação da nossa União-Sagrada, condenaram-nos a viver juntos, vamos aceitá-la! E é preciso lembrar que a República de Angola não pertence mais a um único grupo de pessoas. Angola define-se como uma democracia, ou seja, um país que escolheu viver no poder decidido pelo maior número dos seus cidadãos. 

Portanto, é a voz da maioria que deve ser mais ouvida, e essa maioria não é assimilada nem lusotropicalista e nem branca. Então, o Presidente João Lourenço, que mostrou o seu gosto pelo diálogo e um desejo real de “melhorar o que está bem e corrigir o que está mal”, não deve ele apoiar e alargar a bela iniciativa do município do Bailundo, na província do Huambo, que quer pôr nas suas ruas os nomes dos nossos heróis que lutaram contra o colonialismo e cujo pedido de autorização está preso, fora dos prazos, nas profundas gavetas do Ministério da Administração do Território? 

Ricardo Vita 
Pan-africanista, afro-optimista radicado em Paris, França

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