Charlize Theron a contas com os dramas da imortalidade

Charlize Theron protagoniza A Velha Guarda, um típico blockbuster de verão baseado numa novela gráfica, nestes tempos de pandemia, não está nas salas, apenas numa plataforma de streaming

Como vai a temporada de “blockbusters” de verão? Em boa verdade, não há temporada de “blockbusters” de verão… Os sucessivos adiamentos das estreias das grandes produções nos EUA, incluindo Tenet, de Christopher Nolan, e Mulan, a versão com actores de um sucesso dos estúdios Disney, obviamente motivados pela dramática situação da pandemia nos EUA, estão a afectar o mercado global.

Que resta, então? Sabemos a resposta: as estreias em streaming são a alternativa. E o mais óbvio “blockbuster” de verão está na Netflix: chama-se A Velha Guarda e tem como principal trunfo o protagonismo de Charlize Theron.

O mínimo que se pode dizer é que, pelo menos neste departamento, não há fronteiras entre muitos produtos colocados nas salas e a oferta online.

Realizado por Gina Prince-Bythewood (que assinara, por exemplo, em 2008, o drama A Vida Secreta das Abelhas), A Velha Guarda é uma produção de rotina em que, na ausência de uma qualquer marca autoral, assistimos ao desenrolar das convenções do género: a uma cena de acção seguem-se alguns momentos de reflexão filosófica das personagens, e assim por diante… Isto sem esquecer que se confunde “acção” com a câmara aos trambolhões, com o esforço filosófico ao nível do mais medíocre “talk show” televisivo.

E, no entanto, havia aqui matéria para qualquer coisa mais interessante, apelando a um mínimo de criatividade. Estamos perante uma adaptação da “novela gráfica” com o mesmo título, de Greg Rucka e Leandro Fernandez, ambos responsáveis também pelo argumento do filme.

A sua premissa é tão desconcertante quanto sugestiva: a “velha guarda” é mesmo um grupo de guerreiros muito velhos, por assim dizer, condenados à imortalidade. Por um lado, a sua condição existencial transformouos em combatentes da justiça e da liberdade ao longo de muitos séculos; por outro lado, a singularidade do seu destino obriga-os a viver assombrados numa cruel reclusão social.

O filme parece querer, pelo menos, resistir aos lugares-comuns de um qualquer design “futurista”, de tal modo que vai pontuando a acção com as proezas mais antigas dos heróis, incluindo uma revisitação do tempo das Cruzadas. De tão toscos, os “flashbacks” favorecem uma dimensão involuntariamente caricatural que, além do mais, contrasta com a pompa com que são vividos os momentos presentes.

Isto sem esquecer que abundam os clichés complementares, incluindo um agente da CIA de coração bondoso (Chiwetel Ejiofor) e um cientista perverso (Harry Melling) que só quer aprisionar os heróis para estudar o seu ADN… Tudo isto se torna tanto mais penoso quanto, além dos nomes citados, o elenco tem ainda mais alguns talentosos intérpretes sub-aproveitados como Matthias Schoenaerts e Luca Marinelli (que vimos noutra estreia deste Verão: Martin Eden).

Há mesmo um ou dois momentos diferentes – com destaque para a cena intimista em que Charlize Theron pressente que o poder de curar as suas feridas está a falhar – que sugerem aquilo que seria um outro tom, com menos espalhafato e alguma subtileza. Tal como se apresenta, o balanço de A Velha Guarda não supera a mais preguiçosa banalidade

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