Especialistas sugerem atenção especial às crianças em tempo de Covid

Num debate sobre a protecção da criança no contexto de confinamento, realizado, ontem, Sexta-feira, no espaço online Fale Connosco, foi levantada a necessidade de se dar atenção especial às crianças, evitar-se o stress e a pressão causadas pela pandemia

No debate, organizado conjuntamente entre Fundação Arte e Cultura e o Instituto Nacional da Criança (INAC), Cecilie Modvar, especialista de protecção da criança do UNICEF, falou da problemática da quebra de rotina das crianças, situação que, segundo a especialista, acarrecta uma certa consequência psicológica, na medida em que as crianças precisam de libertar energias.

O encerramento das escolas e outras medidas de distanciamento social estão a alterar a rotina, influenciando a capacidade das crianças de brincar, aprender, e a colocar também uma pressão adicional aos pais, no sentido de estarem numa situação de perda da capacidade de assistência e de renda.

Segundo a especialista, esses factores aumentam a ansiedade, o estigma, a descriminação e também a vulnerabilidade das crianças na exploração e o sofrimento psicológico. “Em casos extremos, as crianças são privadas de uma infância, na medida em que podem cuidar de doentes, sentirem-se na obrigação de trabalhar para a renda das famílias”, lamentou.

Cecilie sugere que os adultos façam exercícios de memória, que consiste em colocar-se ao lado da criança e lembrar como na sua infância as coisas pequenas foram grandes para a sua vida.

Por seu turno, a consultora do UNICEF, Maria De Roussan, disse que nesta época moderna, os pais nunca conviveram com os filhos do jeito que hoje se convive. A luta pela busca do sustento levou a que os pais terceirizassem o cuidado das crianças, e a pandemia trouxe essa nova realidade, que é de uma convivência diária e prolongada com as crianças.

“É uma grande oportunidade para que possamos estreitar o laço com as crianças. É também uma forma de pensarmos sobre esta nova forma de nos relacionarmos com os filhos, que até então não conhecíamos. As crianças já não podem brincar com os seus amigos, abraçar e os pais perderam o emprego, muitos deles. Isto faz com que o stress seja uma realidade no seio familiar. Mas precisamos lembrar que nós somos os adultos dentro dessa relação com as crianças”, disse.

É de opinião que mesmo que estejamos dentro dessa situação de stress intenso, sendo adultos, temos de ter a capacidade de reflectir sobre o momento que passamos. “As crianças, diferentes dos adolescentes, sabem sim que existe o vírus, mas não conseguem lidar com esta situação de distanciamento, com o espaço de brincar limitado, com o tipo de escola diferente (com as Teleaulas). Os adultos têm a capacidade de exercitar esta paciência. Não é fácil mas, a máxima de contar de um até 10, é extremamente importante”, disse.

Sobre o Fale Connosco

O projecto Fale Connosco, lançado oficialmente no dia 10 de Julho de 2020, e que conta a partir desta semana com a parceria directa do UNICEF, permite que, a partir de casa, as famílias possam receber informações e recomendações que dizem respeito aos direitos da criança, bem como o papel das organizações no apoio às famílias em situação de vulnerabilidade e risco, principalmente nesta época conturbada em que a Covid-19 afecta as vidas de todos.

É um programa ao vivo que tem como finalidade criar um espaço de debate e discussão aberta sobre as crianças e os adolescentes, bem como o papel das artes educativas na sua formação durante o percurso pela infância, adolescência e até à idade adulta. Propõe- se ainda trazer temáticas em torno das políticas dos Centros de Acolhimento e o seu real papel na garantia da formação e segurança das crianças e adolescentes.

O projecto é o resultado de um esforço conjunto da Fundação Arte e Cultura e do Instituto Nacional da Criança, com a integração recente da UNICEF em Angola.

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