Atraso de subsídios inquieta bolseiros angolanos na Tunísia

Eles consideram a falta de uma embaixada de Angola neste país do Magrebe como uma das razões para haver esses constrangimentos, já que, segundo alegaram, o processo de pagamento tem de depender de países vizinhos

Apesar de uma boa parte dos estudantes angolanos em Tunis (Tunísia), sob a égide do Instituto Nacional de Gestão de Bolsas de Estudo (INAGBE), ter “ironizado” que já está a ficar habituada ao atraso dos subsídios, não esconderam a sua tristeza, pelo facto de esse constrangimento complicar o equilíbrio das suas despesas, conforme o grupo abordado por OPAÍS fez questão de referir.

Os bolseiros, que pediram o anonimato, temendo represálias, reconheceram que são atrasos que não têm nada a ver com o INAGBE, mas, sim, com relações bancárias, entre os bancos de Angola, da Argélia e Tunísia, nas quais advinham uma série de burocracias, porque vários documentos têm de ser assinados, confirmados, reconfirmados e autentificados, para a liberalização dos subsídios.

“É um atraso para nós já tido como normal. O dinheiro atrasa, mas chega, talvez isso, por si só, nos torne pacientes, desabafaram os estudantes, tendo pedido aos representantes dos órgãos de direito para considerarem como legítima a sua manifestação.

Pelo que lhes tem sido informado, normalmente, as transacções levam entre 15 a 20 dias, agravando- se esse tempo para um mês ou mais quando a situação se torna extrema, soube este Jornal dos reclamantes.

Animados pelo facto de a postura da nova direcção do instituto que gere as bolsas de estudo em Angola ser muito interactiva, ao ponto de, durante o período mais preocupante da pandemia, ter ligado para saber das suas carências, sobretudo das necessidades que tinham a ver com material de bio-segurança, os futuros quadros esperam que a resolução desse problema saia da mesa de quem os representa para a acção.

Na qualidade de académicos, asseguraram que podem entender que o país não vive um bom ambiente socioeconómico e político, mas não deixaram de se mostrar inquietados por compreenderem também que, em alguns casos, os atrasos em voga são mesmo motivados por transacções bancárias, ao nível local. Por isso, pedem ao sector de apoio que resolva a situação.

“Recentemente, vimos e assistimos a ministra das Finanças a manifestar esse problema dos subsídios de alguns bolseiros ao Presidente da República de Angola, daí que estamos expectantes que, neste sentido, tudo vai ficar bem”, recordaram, realçando que este sinal terá consolidado a confiança que eles deram ao director actual do INAGBE, Milton Chivela, com o qual dizem ter conversado, antes, sobre tal assunto.

Detalhando que a referida conversa com o director Milton Chivela foi em Maio, os interlocutores de OPAÍS ainda se questionam se os dois últimos subsídios, referentes aos meses de Março e Abril, que receberam nessa semana, terão sido processado directamente da Angola para Tunísia.

A “meia-animação” dos estudantes, conforme fizeram questão de classificar os próprios, depreende do facto de o director do INAGBE ter prometido resolver o problema num mês e no a seguir ter-lhes sido informado que a cabimentação dos subsídios estava em curso.

“Comunidade estudantil em redução”

A falta de uma embaixada angolana na Tunísia não é só vista pelos estudantes bolseiros como um dos factores da lentidão nas transacções dos seus subsídios, como, também, como o motivo da redução da comunidade estudantil nesse país do Norte de África.

“Os estudantes do primeiro ano não são bolseiros, a comunidade estudantil tem pouca gente e está em redução progressiva. Já não passamos de 21 membros, dos quais 11 bolseiros e 10 não bolseiros”, informaram os entrevistados, ao ponto de revelarem que, por causa disso, não foram poucas as vezes em que pensaram na transferência para a Argélia.

Curiosamente, é onde está a embaixada que lhes fica mais próxima e viável, mas ainda se queixam de alguma dificuldade na pontualização das informações, porque a instituição que serve de intermediária faz chegar tarde alguns dados, o que dizem aumentar nas suas dificuldades.

Dos dois contactos efectuados com bolseiros da Argélia, ouvimos o contrário da situação dos estudantes da Tunísia.

Residentes nas cidades de Oran e Boumerdes, estas fontes gabaram- se dizendo que a embaixada de Angola aí instalada não os encara única e simplesmente como estudantes, mas como filhos da mesma nação, que merecem a devida atenção.

Apoios institucional limitado

Fora dos clamores financeiros, os angolanos que estudam na Tunísia por bolsa do INAGBE lamentam ainda a falta de encontros regulares com representantes da embaixada da Argélia.

De acordo com os mesmos, no âmbito do apoio institucional, essa instituição deve prestar serviços como autentificação de documentos, validação de diplomas, renovação de passaportes e de bilhetes de identidade.

“Os nossos serviços aqui são limitados, porque não temos a embaixada aqui na Tunísia e, às vezes, é meio complicado, como foi nesse período da pandemia em que muitos estudantes tiveram os seus passaportes caducados e aqui para se levantar o dinheiro no banco tem de ser com passaporte válido”, reclamaram.

Contaram que se deu o caso de muitos estudantes terem tratado os seus passaportes ainda em Janeiro, mas, depois que as fronteiras se fecharam, a embaixada, através do sector consular, viu seus representantes impedidos de se deslocarem até Tunis (Tunísia) para procederem à entrega dos mesmos.

Os estudantes sabiam que os mesmos já haviam saído, mas o problema da interdição das fronteiras internacionais os impedia de terem em mãos os documentos em causa.

“Queremos apoio psicológico”

Apelo que o Instituto de Gestão Nacional de Bolsas de Estudos apoie mais os bolseiros no campo psicológico, porque muitos estudantes aqui ressentem mais no capítulo psico-emocional.

Claro que há saudades de Angola, da família, de amigos e conhecidos das nossas actividades. a relação com a embaixada, deixa um pouco a desejar, porque não me lembro de nesta época da Covid-19 o embaixador ter enviado uma mensagem de conforto, de apoio aos estudantes e, particularmente, senti-me abandonada. E é um pouco difícil a comunicação com a embaixada.

Presença do chefe do sector em Angola, o problema

O director do Instituto Nacional de Gestão de Bolsas de Estudo (INAGBE), Milton Chivela, veio em defesa da sua instituição, garantindo que, de uma forma geral, os estudantes bolseiros têm os subsídios do mês de Maio já pagos, sendo até que alguns têm o de Junho já processado.

Falando, entretanto, do caso da Tunísia, reconheceu haver um certo atraso, porque o responsável do sector estudantil da Argélia, que faz o controlo e a gestão financeira dos estudantes que estão nestes dois países, está retido em Angola devido às restrições impostas pela Covid-19.

“As transferências da Argélia para a Tunísia levam mais ou menos uma semana e meia ou duas. As dificuldades estão no facto de o processo exigir duas assinaturas, designadamente da técnica de contas e do chefe do sector”, informou o director, tendo sublinhado que preocupações de índole familiar fizeram o confinamento social ´prender´ este último, no nosso país.

Milton Chivela adiantou que tudo se fez para serem ultrapassados quaisquer constrangimentos, preparando-se o expediente todo em Angola, onde o chefe do sector estudantil assina e se remete, via DHL, para a Argélia, país do Magrebe em que a técnica de contas também assina a sua parte, dando-se, em seguida, a entrada dos documentos ao banco.

Referiu que durante a semana finda se fez esse exercício em relação aos subsídios de Maio e Junho.

O director do INAGBE consentiu que existe um projecto para se ultrapassar esses constrangimentos, com intenção de se eliminar inicialmente algumas burocracias, mas deixou patente que, de momento, se envidam esforços para que o chefe do sector saia de Angola, embora isso não dependa de si e da sua equipa.

“Temos de ter uma autorização por parte da Comissão Multissectorial para autorizar que ele o faça por via de um desses voos humanitários, para que, com a sua chegada, se minimize essa situação”, informou, tendo lembrado que os atrasos se devem mesmo ao facto de o processo se efectuar via DHL. Detalhou que o último expediente saiu de Angola na Terça-feira, 14, calculando que até antes de Sábado, 18, os documentos chegassem a Argel. “Tão logo chegue, entra no banco e são feitas as transferências”, assegurou, lembrando que se referia aos casos da Argélia e Tunísia, cujos atrasos depreendem das condições bancárias e não da vontade política do INAGBE.

Para demonstrar que a situação desses países não é a única na história da instituição gestora que dirige, aludiu aos problemas do género que se registavam no reino de Marrocos, onde o atraso era ainda maior do que o das nações em causa.

“Conseguimos resolvê-lo, a partir do momento em que decidimos que o sector de Portugal passasse a fazer as transferências”, contou Milton Chivela, tendo salientado que, com essa dinâmica, o processo passou a fazer-se em apenas dois dias.

Por causa disso, o responsável coloca a possibilidade de se actuar da mesma forma para com os estudantes bolseiros da Tunísia, a ver se se resolve o problema.

Sobre a falta de embaixada, minimizou, dizendo que não influenciava tanto, já que o pagamento não se destina à esta instituição consular, mas, sim, para a conta do sector que está na Argélia.

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