Administração de Benguela dá ultimato para destruição de casas no bairro ‘João Lourenço’

Mais de 100 famílias do bairro “João Lourenço”, na Taka, zona F do município de Benguela, foram intimadas pela Administração local a abandonar a zona, por ser uma área de expansão industrial. O arquitecto Felisberto Amado fala em falhanço do Estado

Os moradores descartam, desde já, a tese de invasão, conforme acusam alguns quadros da Administração de Benguela, sustentando, contudo, que a cedência dos espaços terá obedecido a critérios administrativos.

De acordo com os moradores, que têm até Agosto para abandonar a zona, segundo apurou este jornal, vivem no bairro há 5 anos.

O ambiente político de 2017 contribuiu, em grande medida, para que ao bairro se lhe fosse atribuído o nome do então candidato do MPLA, hoje Presidente da República, João Lourenço.

“Então, quando vimos que temos novo Presidente, decidimos pôr o nome dele”, esclarece a senhora Victorina Vatala, adiantando, porém, que a prova inequívoca de que as autoridades estão dispostas a retirá-los de lá foi fundamentada quando as moto-cisternas da Administração deixaram de fornecer água.

As construções no local, em número de 110 casas, segundo revelaram, teriam tido, alegadamente, anuência de alguns fiscais da Administração.

“De momento, não nos disseram onde vamos ficar e estamos à espera da resposta. Foi no momento da campanha quando distribuíram os terrenos”, esclarece Gabriel Horácio, porta-voz dos moradores.

O arquitecto Felisberto Amado lamenta o facto de, 5 anos depois, a acção da Administração se ter evidenciado apenas agora. “Você não pode corrigir um erro cometendo outro. Isso é ilegal”, avisa, reconhecendo, sim, tratar-se de uma área industrial.

Nesta perspectiva, o arquitecto Felisberto Amado lembra que ao Estado caberá a criação de uma nova área, loteá-la e, de seguida, distribuir às famílias, com energia e água.

“O Estado tem que criar condições de desalojar estas pessoas e recolocá-las noutros sítios. O mal é o nosso Estado não querer fazer nada. São administrações que se abdicam daquilo que são as suas competências (…) Nosso Estado é negligente”, considera o arquitecto.

Face ao cenário, a Administração Municipal de Benguela deverá mesmo avançar com as demolições naquela zona. Contactada por vários órgãos de comunicação social, a administradora Adelta Matias alegou ser uma zona de expansão industrial e que, neste momento, a sua instituição estará, já, a negociar com todos os moradores.

Segundo fontes, o Plano Director Municipal de Benguela, desenhado pelo então governador Isaac Francisco Maria dos Anjos, destinava aquela área à expansão industrial.

Esta acção, segundo fontes governamentais, vem, uma vez mais, sustentar a tese, há muito avançada pelo então administrador Carlos Guardado, de que, na própria Administração, havia uma rede que se ocupava da venda de terrenos.

Constantino Eduardo, em Benguela

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