Covid-19 enluta jornalismo angolano “arrancando” Paulo da Mata

“Meu comportamento anti-social tem à Covid-19 como culpa maior… Minhas sinceras desculpas”, escreveu o jornalista Paulo Alexandre Cordeiro da Mata na sua conta na rede social Facebook, no dia 10 do corrente mês

 

O jornalista, de 53 anos de idade, está entre as três pessoas que morreram ontem, em Luanda, vítimas da pandemia da Covid-19, e serão sepultadas hoje num acto restrito, cumprindo as regras de biossegurança determinadas pela Organização Mundial da Saúde (OMS) para casos do género.

Paulo da Mata, como era mais conhecido, deixou outro repto aos seus amigos e seguidores na rede social acima mencionada, dias antes, isto é, no dia 7 do corrente mês. Recorrendo a um trecho de uma música de Rosita Palma, numa das línguas nacionais, escreveu: “na curva da pandemia (…) não vamos nos distrair, porque o inimigo está à espreita”.

O radialista João de Almeida, da Rádio MFM, que privou com o malogrado durante 32 anos, vagueou pela memória em busca de recordações do tempo em quem ambos eram funcionários da Rádio Nacional de Angola (RNA).

Em declarações a OPAÍS, disse que na época trabalhava para a RNA em Benguela e o Paulo da Mata na sede, em Luanda. Na época, conversavam essencialmente sobre radiodifusão e rádio-jornalismo, que era uma coisa que Paulo da Mata dominava muito, e nasceu uma grande amizade.

Posteriormente, ambos seguiram caminhos diferentes, todavia, mantinham contacto permanente. João de Almeida recorda que quando regressou ao país, depois de alguns anos na diáspora, voltaram a estar juntos no programa da Rádio Mais Conversa Com Vagar, que era um dos líderes da audiência nas manhãs de Domingo. “Ainda me lembro que na altura em que estávamos a montar as estruturas editoriais da rádio MFM, ele disse-me que era um dos programas que eu tinha de “roubar”.

O mesmo acabou por passar para a rádio MFM e está lá até hoje, com essa grande perda que é do Paulo da Mata”, frisou.

Acrescentou de seguida que “a única coisa que me resta hoje é lembrá-lo como um grande profissional e visionário, em relação à perspectiva da rádio em Angola”.

Surpreendido com a ocorrência, Paulo Gomes, colega e amigo do malogrado, o descreveu, a OPAÍS, como uma pessoa que sempre esteve disponível a colocar o seu saber em prol da promoção da cultura, sobretudo da literatura e da música angolana.

Deste modo, fazia jus à toda a trajectória cultural da sua família que começa com o escritor Cordeiro da Mata e o seu pai Cirio Cordeiro da Mata, “um grande animador cultural da praça de Luanda”.

“Hoje é difícil dizer o quão valiosa foi a contribuição de Paulo Cordeiro da Mata porque gostaríamos de tê-lo aqui por mais alguns anos, para fazer despontar aquele seu ar jovial apesar do seu tamanho, mas também mirim”, frisou.

Para o director-geral da Rádio Mais, Paulo da Mata era uma pessoa solta que dizia as coisas com um sarcasmo que não era ofensivo e tinha sempre um condão de união. No seu ponto de vista, o país fica mais pobre por perder “um grande camarada”.

“É difícil dizer mais palavras num momento como este, todavia, se tivéssemos que recordar Paulo Cordeiro da Mata, eu gostaria que o recordássemos com alegria. Que era à sua grande marca. Um grande homem”.

MTICS rende-se à memória do jornalista

O ministro das Telecomunicações, Tecnologias de Informação e Comunicação Social manifestou, Manuel Homem, em nota de imprensa, lamentou o passamento físico do jornalista.

“De trato fácil, representando uma geração de jornalistas intrépidos que, motivados pelo amor à camisola, deu uma nova dinâmica na realização e condução de programas, na RNA”, lê-se na nota.

De acordo com a nota, Paulo da Mata ingressou na RNA aos 29 de Abril de 1995, admitido como jornalista colaborador no Departamento de Realização. Foi chefe de secção do Bloco da madrugada, tendo-se destacado como realizador e comunicador.

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