A nova confiança

Confiar é uma coisa de pele. Quando se conhece alguém a primeira impressão é determinante para o futuro da relação. Se correr mal nada vai acontecer. Se correr bem até pode dar em casamento. É assim no amor e nos negócios. Mas será que que isso vai ser sempre assim? Não. Isso vai mudar. Ele faz-me pele de galinha. Ela tem os nervos à flor da pele. Irritação, calafrios e medo são coisas que se sentem quando se está fisicamente perto de alguém. À distância, até se pode sentir um certo desconforto, mas o efeito “shining” não e lá muito plausível em vídeo conferências.

Por outro lado, o cheirinho bom, a graça no olhar, a sedução dos gestos e o calor da voz, também não abundam em webinars. Mas as sensações físicas, que tanto contribuem para a criação de uma perceção – boa ou má — estão a diminuir drasticamente entre os seres humanos. Será que alguma nova sensação as vem substituir? Ou vamos parar de confiar nas pessoas? Nem uma coisa, nem outra.

Mas tudo já está a ser diferente. No imediato, aquelas pessoas que sempre fizeram das relações humanas e do networking a sua profissão têm uma grande vantagem, como conhecem muitas pessoas em muitos lugares vão ser chamadas a validar perante terceiros a segurança necessária para começar novas relações. São uma espécie de avalistas para a confiança. Tão importantes como quem antes assinava letras por “bom aval à firma subscritora.” Mas isto, que para nós é novo, para os jovens — abaixo de 25 anos — já é o normal. Para eles já não há diferença nenhuma entre jogar num computador à distância, ou jogar à bola no pátio da mesma escola.

Eles gostam e confiam uns nos outros por causa do que partilham e não por causa do sítio onde estão. A confiança entre os jovens é maior do que serem apenas colegas de jogo, eles partilham pontos de vista comuns sobre muitas coisas da “vida real”, que aumentam essa confiança. A razão da sua amizade é simultaneamente a nossa esperança. No mundo deles não há países, há apenas cumplicidade. Isto explica porque no referendo inglês os mais novos não queriam sair da União Europeia.

Agora só temos que esperar que eles cheguem ao poder. No futuro próximo, as relações de confiança vão criar-se sem proximidade física. A importância da linguagem corporal vai ser substituída pela criação e desenvolvimento de técnicas de relacionamento por áudio e vídeo. Estão vão substituir aquele aperto de mão que durante muitos séculos selava amizades. Como nos casamentos também na vida há seis mandamentos para tudo correr bem: o primeiro chama-se Fé, e os outros cinco, Confiança.

José Manuel Diogo

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