A Universal, a religião e o ópio do povo

Ao analisar cada uma das acusações formuladas pelos Angolanos do lado secessionista, agora conhecido como “Comissão de Reforma de Pastores Angolanos (CRPA)”, contra a liderança brasileira da sua igreja em Angola, a Igreja Universal do Reino de Deus (IURD), não se pode deixar de pensar no papel que as religiões estrangeiras tiveram na nossa história. Não podemos, por exemplo, deixar de lembrar que o deus viajante dos cristãos foi muito usado contra nós e, a cada vez, por patrocinadores e grandes rentistas que sempre viveram em outros países, muitas vezes no outro lado do mundo.

Hoje, porém, temos acima de tudo a impressão, pelo menos é a impressão que as nossas irmãs e os nossos irmãos cristãos me dão, que Cristo veio à Terra especialmente por eles, de que Ele não é mais o Rei prometido aos Judeus, que estes rejeitaram. Mas a aceitação desse deus estrangeiro, além das condições sob as quais ele nos foi imposto, tornou-se mais confusa pelo facto de que a crença nele também foi misturada com a maneira como acreditávamos em um Deus ancestral amador e protector, o mais velho deste Deus Vingativo e Ciumento dos cristãos.

O nosso povo, portanto, dedica-se a esse deus trazido por colportores, em busca desse amor e da proteção há muito perdidos devido à nossa dominação por estrangeiros. É por isso que confundimos religião e espiritualidade e esquecemos que não podemos tirar da religião a marca da cultura que a gerou, porque ela é sobretudo uma questão cultural. É assim que caímos na mentira e na armadilha da universalidade da religião. É, portanto, quando pudermos fazer essa distinção que seremos verdadeiramente livres. Porque hoje ainda somos movidos pela miséria, espiritual e material, a adotar, através das formas mais estranhas à nossa cosmogonia e cosmologia, o mais alto nível de crença; esse nível contra o qual ninguém pode lutar e vencer, esse nível que alguns chamariam de alienação e que eu chamo de absoluto do conforto mental ou de refúgio, pois quando o alcançamos, não acreditamos mais na possibilidade de outro modo de vida.

Esse nível é chamado de Fé, o grau supremo de crença. Não há nada acima dele, ele é definitivamente deslumbrante e inebriante, a menos que haja, por algum milagre, um despertar humano e inteligente. Os zelosos e aqueles que se consideram melhores humanos do que eu, mas que realmente vivem no auto-ódio e na autocensura, acusar-me-ão de querer imiscuir-me num assunto que consideram não me dizer respeito e sobre o qual todos os contornos ainda não foram totalmente revelados pelas autoridades competentes, que aliás acho muito lentas.

Mas o que me diz respeito e o que não me diz respeito quando os interesses e a dignidade dos Angolanos estão em jogo? E como não ficar indignado ao ouvir na televisão nacional histórias que relembram a nossa dolorosa história com estrangeiros? Como, então, podemos razoavelmente permanecer insensíveis aos soluços de dezenas de mulheres em quem vejo uma semelhança com as minhas irmãs de sangue? É realmente possível não se estremecer da cadeira quando nos dizem que a IURD submeteu Angolanos às mesmas práticas que outrora os Árabes submetiam os Africanos que escravizaram? Sabem o que é uma vasectomia? É uma operação cirúrgica usada como método de esterilização de homens.

Sabem o que os Árabes faziam com os Africanos? Castração, uma prática que normalmente consiste em destruir os órgãos reprodutivos de plantas ou animais. Mas eles praticaram isso com os Africanos, para que não se reproduzissem e, acima de tudo, para que não pudessem copular e, portanto, misturassem o seu sangue com o das mulheres dos seus países porque o sangue negro era considerado impuro.

E parece que a IURD em Angola tem forçado os pastores angolanos a fazer vasectomia para não terem filhos, conforme as recomendações do seu Deus Benevolente. Agora todos sabemos, pelo menos os mais informados, que existe uma obsessão persistente e malsã de estrangeiros contra a demografia africana e que existem até ambições totalmente reveladas que desejam reduzir a população africana!

São coisas sérias como estas que me fazem pensar que as nossas autoridades estão a demorar a conceder ao caso da IURD todo o senso de urgência que merece e o tratamento necessário devido, na medida em que tudo aqui se parece, em todos os aspectos, com um caso mafioso e malsão.

Então, serei eu insolente por me exprimir sobre uma situação intolerável que está a acontecer no meu país e que, aparentemente, é prejudicial aos meus compatriotas, que deixamos castrar como fizeram os Árabes com os seus eunucos, Africanos escravizados a quem eles cortavam inclusive o pénis? E as mulheres angolanas que se queixam da mesma discriminação que os nossos antepassados sofreram na sua própria terra? Não, e terão que perdoar essa audácia, que chamarão de atrevimento, mas não posso ficar calado! Aliás, ninguém deveria ficar calado, porque está fora de questão que cruzemos os braços como tolos para assistir a um outro espetáculo que parece ser outra situação de dominação, apoiada por um governo estrangeiro abertamente racista e supremacista.

O comerciante fundador desta igreja, que amaldiçoou os secessionistas angolanos com os seus descendentes, não recorreu a todos os seus lobbies de influência para proteger o seu negócio? O que Bolsonaro disse na carta que mandou ao nosso Presidente e o que essa delegação brasileira de políticos, ou melhor, lobistas, está ir fazer em Angola em Agosto, se não defender os interesses do seu compatriota e amigo Edir Macedo Bezerra, a seu pedido, esse personagem lúgubre e controverso até no seu próprio país? E os zelosos que me acusariam de falar de um assunto que não me diz respeito, não deveriam antes ver essa intromissão na parte de Bolsonaro e nos lobistas de Edir Macedo Bezerra, dado que a IURD em Angola é uma instituição de direito angolano? Não estão eles a violar o princípio internacional de não interferência entre Estados, uma vez que se trata de uma questão interna puramente angolana? Estamos, portanto, diante de um caso de pressão política.

E o que mais podíamos realmente esperar desse indivíduo, Edir Macedo Bezerra, que foi preso em 1992 por charlatanismo, acusado de lavagem de dinheiro em 2009 no seu país e que qualificou as crenças religiosas afro-brasileiras, herdadas dos nossos antepassados (Umbanda, Kimbanda, Kandomblé), de “seitas demoníacas”? Os missionários cristãos, que nos legaram a Santa Bíblia, e os Árabes muçulmanos, que nos deixaram o Alcorão, não chamaram as crenças dos nossos antepassados com outros nomes!

Tudo isso preocupa-me. Então está fora de questão, como observador e crítico da nossa história e das nossas relações com estrangeiros, – que até agora se contentam somente em dominar-nos, sem nunca nos dar uma única prova de amor, – que eu fique calado, especialmente no contexto actual do Black Lives Matter! Pois se defende primeiro os seus, e aí está a prova que os políticos e lobistas brasileiros nos dão. Portanto, diante de um monte de acusações tão graves; desrespeito pelos direitos humanos, castração química e discriminação, sonegação de impostos, expatriação ilícita de capital, o nosso Governo deve agir com firmeza. Se até o filho de Bolsonaro, o deputado Eduardo Bolsonaro, envolveuse postando um tweet em defesa da igreja oriunda do seu país, e no qual ele nos chama de selvagens de maneira mal disfarçada, é que o caso é mesmo eminentemente político.

Nesse caso, dado que, segundo a imprensa brasileira, 362 dos 464 pastores dos 300 templos da IURD em Angola – verdadeiras galinhas dos ovos de ouro para o comerciante Edir Macedo Bezerra! – se rebelaram, é hora de tratar o assunto mais seriamente no lado angolano também. Mas as questões que permanecem são as seguintes: como tudo isso pôde acontecer em silêncio durante anos em Angola? Quem protege a IURD ? E se o nosso Governo hoje admite ter notado “indícios de crimes”, isso significa que ele é só capaz de se lidar com rapidez com os casos que envolvem as nossas igrejas locais ou africanas?

Ricardo Vita
Panafricanista, afro-optimista radicado em Paris, França

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