Carta do leitor: A salvação é individual

Por: Alves de Jesus 

Caro Director do Jornal OPAÍS, bom dia! 

Quinta feira, 23 de Julho deste ano, cheguei cerca das 14 horas ao Cemitério do Benfica, para render a última homenagem ao primo Paulo Cordeiro da Mata, por coincidência meu companheiro de profissão. 

Nascemos e crescemos juntos no mesmo quintal no histórico e famoso Bairro Indígena, que por forca da administração colonial portuguesa foi destruído para dar lugar a actual Cidadela Desportiva, que na época previa acolher o mundial de hóquei e patins nos anos 70. 

Hoje, não vou recordar aqui e agora a figura do Paulo Da Mata, como era carinhosamente tratado. Vou fazer sentir o que vivi com dor e lágrimas na sua partida para a última morada, a chamada Casa do Pai. Morada essa que aguarda por todos os que vagueiam por cima da terra, com Covid-19 ou não. 

Com o primo Paulo que sempre me tratou Nelito da Manena, a Manena da kissângua, a minha malograda mãe, partiu primeiro o Comissário dos Bombeiros, cerca das 16h e quase às 17 o Paulo da Mata e o Dr. Abel. Foram a enterrar sem cerimónia, sem honra e nem gloria porque o enterro de quem morre de Covid-19 as regras impõem assim. D´s a sensação que um indivíduo está a ir para uma cadeia sem retorno e no caso subterrânea. 

Aquilo e, de facto, um enterro e não um funeral. De fora, poucas famílias dos três falecidos. Todos com máscaras e muito álcool-gel nos bolsos, carteiras e nas viaturas. Depois de três ou quatros horas de espera chega o primeiro corpo num carro fúnebre, a frente um outro da Polícia, depois o veículo dos técnicos de saúde e o da OMS. Dão entrada para área altamente reservada ao enterro dos mortos com Coronavírus num ambiente de profunda consternação para os familiares, colegas, amigos e conhecidos que não podem entrar. Parece um filme, algo sinistro, e o título: A partida sem regresso. 

Passando meia hora, chamam 5 pessoas da família que são os únicos que têm direito a assistir ao enterro. Momento duro, terrível, de séria reflexão ao ver alguém a partir definitivamente para o outro mundo sem honra e gloria. Nada de elogios fúnebres e mensagens de enaltecimento às figuras dos mortos…… O Covid-19 está mesmo a matar, a salvação é individual. Temos de nos defender. E foi o que aconselhou a todos, no fim desta partida brusca, violenta, que nos deixou todos sem chão e palavras, o Emanuel da Mata, também Jornalista, irmão a seguir ao Paulo, quando saiu da área onde o irmão foi sepultado com o Comissário dos Bombeiros e o Médico. 

Em gesto de profunda sensibilização e agradecimento aos presentes, disse: A maior homenagem que podemos dar ao Paulo da Mata é reforçarmos a nossa segurança. Por isso, não há óbito, nem o cumprimento dos habituais rituais. Cada um vai para a sua casa e cuide-se. Por favor, cumpram as regras de bio-segurança ao máximo, para salvarem as vossas vidas. 

Um fim de um acto doloroso que ditava toda a tristeza em busca do cuidado de cada um. Conclusão: A Salvação é individual e o momento está cercado de sorte ou azar. Adeus querido primo Paulo da Mata. Até sempre! 

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