“Fazer arte de ‘pretos’ para ‘pretos’ é o meu projecto de vida”

Foi às raízes da cultura dos progenitores e seleccionou como pseudónimo “M’bakudi”, na língua nacional Kikongo, que traduzido para português significa: artista. É precisamente com este artista que escolheu a fotografia e o desenho como zonas de conforto para expressar a sua arte. E é precisamente sobre os meandros do seu trabalho de que vamos falar, cuja tónica é o homem negro

Gegê M’bakudi é um jovem artista que começou a pintar aos 16 anos. Hoje com 20, a sua arte fundamenta-se na fotografia e no desenho, em que procura valorizar o corpo “negro”como forma de expressão do seu trabalho. Faz parte da linha de artistas que luta contra o racismo através da sua arte.

Entretanto, conta-nos que descobriu desde muito cedo o interesse por esse ofício de forma muito natural, que nem sequer conhecia a palavra arte. Porém foi no desenho e na fotografia a posterior onde encontrou a sua zona de conforto, em que sente que ambas o permitem transmitir emoções.

“Acho que isso tem muito a ver com a forma como consigo exteriorizar os meus pensamentos, sinto-me totalmente satisfeito pela apresentação visual dos meus projectos. Mais do que falar, interpretar ou mesmo cantar, as artes plásticas e a fotografia permite-me transmitir emoções”, exterioriza

Para chegar a esse estágio na sua forma de trabalho, questionamo-lhe em relação as suas principais referências e influências no mundo artístico. O jovem M’bakudi, embora reconheça o trabalho de vários profissionais, considera que as suas motivações derivam dos seus sentimentos, dos conteúdos audiovisuais que consome e do quotidiano das pessoas que o rodeiam.

Por outro lado, o manancial da pintura e da fotografia preenchem o seu trabalho. Por isso mesmo procuramos saber até que ponto essas duas plataformas artísticas ocupam o seu modo de ser e estar enquanto artista.

“Simplesmente tudo! São a minha zona de conforto, não me sinto limitado em momento algum. Ainda tenho muito por criar, as artes plásticas e a fotografia me deixam-me confiante no meu trabalho pelo simples mecanismo da apresentação”, conta.

Racismo vs arte

M’bakudi justifica a sua linha de trabalho quanto a escolha do corpo humano “negro”, como forma de manifestar o seu trabalho, quer através da pintura como pela fotografia. Para o artista, a história de África tem sido o mote das suas criações, pelo simples facto de ser um continente bastante sofrido.

“Durante toda a minha estive ciente da injustiça histórica que nós ‘pretos’ sofremos. E por simplesmente ser africano, sinto-me em dívida com África pelo sangue preto que carrego nas veias. E é dessa forma que decidi pagar a minha com África, fazer arte sobre pretos e para pretos é o meu ‘Projecto de Vida’”, justifica.

Os temas que aborda para reflexão são imensos. Para si, os africanos muito ainda têm por fazer e mostrar ao mundo. E é por essa razão, que oferece no seu trabalho, uma apresentação conceitual e poética, em que alia a grande paixão que tem pelos “Pretos” e pela sua beleza.

Embora nunca tenha sofrido alguma repressão racial, o nosso interlocutor reconhece e está consciente que o racismo é uma problemática real e só munidos de “armas” para o seu combate, no seu caso pelos pincéis e o click na lente da sua objectiva, é possível vencer e ultrapassar esse mal que atrasa o rumo de várias sociedades.

Criações vs Covid

O período de confinamento a que o país está submetido mediante a pandemia da Covid-19, a Gegê M’bakudi a novas produções, sendo esta uma das “boas novas” trazidas à força por esse vírus invisível, e que por isso, pós-caos sanitário poderá brindar o público com essas novas criações conforme promete.

Carreira

Quanto a sua promissora carreira, o nosso interlocutor não é de projecções futuras, pois tudo paira mediante incertezas. “Sinto que ainda estou distante do artista que quero realmente ser, sem contar que estou num processo de metamorfose como artista e também como pessoa. Posso viver exclusivamente do meu trabalho em Angola, mesmo não fazendo milhões, mas consigo sustentar-me com o dinheiro que faço como resultado a minha arte”, apontou.

Projecto

Um livro de pinturas está na forja de Gegê M’bakudi. Flores é como se vai intitular a iniciativa artística de desenhos, além de estar a produzir em conjunto com um grupo de amigos, conteúdos audiovisuais, que em breve chegarão ao conhecimento do grande público tão logo os projectos estejam concluídos.

Perfil

Geraldo Pedro Gaspar “Gegé M’bakudi” nasceu no então município do Sambizanga, hoje distrito com o mesmo nome em Luanda. De ascendência do grupo étnico bakongo, do norte de Angola, define-se como sendo um artista ‘preto’ apaixonado bela beleza africana, comprometendo-se a elevar essa beleza além fronteiras.

Estudei tecnologias de construção de obras no ensino médio, depois de ter literalmente envolvendo-se demais com arte, teve de abandonar o sonho de vir a ser engenheiro, dedicando-se mais à arte.

A sua principal ambição é tornar-se numa pessoa que ajudou a mudar o mundo num lugar melhor. Integrou a exposição colectiva virtual Qual Futuro, com a obra “Orquídeas”, um dos desenhos do seu livro de pintura que está em processo de produção.

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