Não sei

“Não sei” – é uma resposta simples e brevíssima. São apenas duas palavras. Não custa nada usá-las. Entretanto, perante uma pergunta cuja resposta se desconheça, a maioria dos mortais prefere enrolar, como se diz na gíria. Isto faz-me lembrar de uma canção da minha infância cujo refrão dizia o seguinte: “enrolado, desenrolando, puxa puxa, trás trás trás.”

Voltando ao NÃO SEI, participei, na passada Sexta-feira, num debate em que o Orador Principal foi o Professor Oliveira e Silva. Trata-se de um homem do Moxico que é Especialista em Protocolo de Estado, lides em que andou durante mais de trinta anos. Ele serviu sucessivamente três Presidentes da República Portuguesa: desde Ramalho Eanes a Jorge Sampaio, passando por Mário Soares.

O Professor Oliveira é um moxicano que conhece tão bem o Protocolo de Estado quanto o seu nativo Luena. Vímo-lo, durante cerca de 45 minutos, a dissertar, de forma apaixonada, sobre a Organização de Mesas no Protocolo. Durante a fase do debate, ele respondeu, de forma muito competente, a todas as perguntas que haviam sido colocadas, excepto a uma. E por que será que me detenho nessa excepção? Pois bem, em relação à última pergunta colocada ao Professor Oliveira e Silva, ele prontamente respondeu: “NÃO SEI.” Assim mesmo.

E ainda acrescentou: “Esta não é a minha área, de tal modo que não conseguirei responder à sua questão.” Disse isso na maior naturalidade e sem curvas nem contracurvas. Aquele foi, para mim, o momento mais alto de todo o debate. Uma verdadeira demonstração de humildade.

Estava-se perante alguém que tanto sabia acerca da sua área de especialização, mas que, apesar disso, não sabia tudo. Que ninguém sabe tudo, isto já é do conhecimento geral. A raridade, entretanto, está em admitir esse facto, ainda mais publicamente. Nós, os mais jovens, precisamos de aprender com esse sentido de humildade do Professor Oliveira e Silva.

Embora um filósofo helénico já tivesse dito que só sabia que nada sabia, não sei por que carga de água teimamos em pensar que devemos ter todas as respostas na ponta da língua. Nem mesmo a robótica, com a sua inteligência artificial, jamais produziu um robô capaz de responder a todas as perguntas.

Duvido muito que a “população” de robôs existentes no mundo, saiba qual é o meu nome completo. Não nos comparemos, pois, ao Criador, e ter a presunção e altivez de pensar que somos omniscientes. O “NÃO SEI” do Professor Oliveira e Silva levou-me, imaginariamente, até à República de Malta, um arquipélago situado no Mar Mediterrâneo.

Frequentei, em Malta, há cerca de treze anos, um curso de mestrado em Direito Internacional Marítimo. Durante as aulas, os docentes falavam, recorrentemente, do Professor Francis Reynolds, considerado uma das maiores autoridades mundiais em “carriage of goods by sea” (transporte de mercadorias pelo mar).

Era mais ou menos esse o refrão dos docentes: “Sobre este assunto, aguardem, no segundo semestre, pelo Professor Reynolds.” É claro que todos ficámos ansiosos em conhecer o Professor Reynolds. E lá chegou o segundo semestre e com ele o famoso Francis Reynolds, um Professor Catedrático da Universidade de Oxford.

Ele já tinha uma idade avançada e falava de uma forma muito pausada ao estilo do nosso Professor França Van-Dúnem. Ainda me lembro, como se fosse hoje, de que, na primeira aula do Professor Reynolds, o meu Colega Hamza, das Maldivas, colocou-lhe uma pergunta à qual este igualmente respondeu com um pronto “NÃO SEI.”

Acrescentou que iria pesquisar melhor o assunto e que, na aula seguinte, teria uma resposta concludente. Confesso que fiquei estupefacto com a resposta do Professor Reynolds.

Estávamos perante uma eminente autoridade que, à semelhança do que fez o Professor Oliveira e Silva, não se coibiu de confessar a sua limitação. Este momento foi, para mim, uma confirmação de sua grandeza. A humildade é, assim, uma característica que deve ser cultivada e praticada. Aliás, é bíblico que os humildes serão exaltados e que a humildade antecede a honra.

Amílcar Mário Kynta

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